segunda-feira, 27 de outubro de 2025

A Menina que Lia Facebook de Funerária

 


      Estávamos os 9 à mesa, esperando apenas o Antenor que seguidamente atrasava-se para reuniões de amigos como aquela. A garrafa de vinho recém havia sido aberta, conversa ainda era tímida e o silêncio ainda não havia sido definitivamente vencido.

Foi quando Camila, depois de percorrer a mesa com os olhos, declarou:

— Eu vejo Facebook de funerárias!

Primeiro, aquele silêncio! Uma afirmação dessas não é comum, cá entre nós!

— O quê? — Lu conseguiu perguntar, antes do inevitável…

Então, Camila reafirmou:

— Eu entro no Facebook para ver as postagens das funerárias!

E o inevitável aconteceu: todos nós oito, desatamos a rir.

Nesse ponto, se alguém me contasse a história, sem eu conhecer os personagens, eu imaginaria que a Camila era uma “velhinha hi tech”, e o jantar era da ala da geriatria! Eu lembro que via meu pai lendo o obituário dos jornais e, de vez em quando, ele comentava:

— Lá foi mais um…

E então ele falava de onde conhecia, ou quem era a pessoa. Ele comentava que era para nós, seus filhos, aproveitar a vida. Não era para se preocupar com a morte, porque ela sabia fazer seu trabalho, era muito eficiente. Não precisava da nossa ajuda. Dos 117 bilhões de pessoas que se estima que já viveram na Terra, tem-se notícia de que a morte só tenha tido necessidade de repetir o procedimento por 3 vezes, com Lázaro, com o filho da viúva Naim e com a filha do administrador da Sinagoga. Jesus ressuscitou estas três, mas mais tarde, a morte voltou e cumpriu sua missão. Não deixou o serviço por fazer. Até mesmo com Jesus a morte fora eficiente numa primeira tentativa, sendo, depois, vencida. Afinal, tratava-se do Filho de Deus, Senhor da Vida e da Morte! Então, que se saiba, com 117 bilhões de vidas, a morte somente teria falhado por 3 vezes: com Enoque e Elias, que foram levados para o céu sem morrer, e com a mãe de Jesus, que também fizera sua assunção ao céu nas mesmas condições imortais.

Cá entre nós, 3 pequeninas falhas da morte, em um universo de 117 bilhões de trabalhos realizados com sucesso, faz a morte receber o prêmio de maior eficiência do universo! A morte, pois, é quase 100% de eficiência. O que nos leva a pensar, que o serviço de funerária, é algo praticamente garantido, porque, aparentemente, não falta matéria prima! A morte tem dado conta de seu trabalho, não importa o quanto a demanda de nascimentos aumente. O máximo que aconteceu, foi que o prazo para o cumprimento do seu trabalho variou ao longo dos séculos. No começo, a morte até não era tão experiente assim… Como Deus não morria, ela ficava ali, entediada, sem trabalho… Daí, quando Deus cansou do marasmo e criou a vida, ela iniciou os trabalhos! No início, a morte ainda sem experiência, deixou muito a desejar e as idades avançavam muito. O próprio Adão, viveu 930 anos! E teve Cainã, com 910, Sete, com 912, Jarede com 962 e o maior adversário entre os que a morte venceu: Matusalém, com 969 anos vividos! Veja: 969! De lá para cá, a morte foi-se aperfeiçoando tanto, que na idade média já havia reduzido em 900 anos o tempo médio para realizar o seu trabalho! Chegou um momento em que a morte estava tão experiente, que a expectativa de vida era de pouco mais de 50 anos. Mas, como houve um enorme crescimento populacional, aumentando exponencialmente o trabalho, a morte teve de aumentar um pouco o prazo médio, e temos chegado em 75 anos de expectativa de vida. Um ou outro, ainda consegue ficar em desvio padrão, e encostam nos 100 anos. Mas, chegando aos 100, soa um alarme e a morte coloca na fila preferencial, vindo logo resolver o problema, dando especial atendimento. Fora isso, tem-se notícia, apenas, de Elizabeth II, Rainha da Inglaterra, que teria oferecido muita resistência, e D. Goretti, que mora na Marambaia, em Belém do Pará, que, ao que parece, tem colocado a morte pra correr!

Funerária é, pois, um excelente negócio. Ou tu já viste funerária falir?

Diferente, inclusive, de vários outros negócios, em que muitas vezes o dono e sua família, acabam por consumir muito dos produtos, diminuindo os lucros, os donos de funerária não fazem qualquer questão de consumir o serviço e produto que vendem!

Com toda essa demanda, os obituários sempre ocuparam espaços generosos em jornais! Era praticamente a coluna social da terceira idade! Havia, inclusive, jornais sustentados quase que exclusivamente pelos obituários! Havia jornalistas especializados em escrever obituários!

Então, vieram as redes sociais, as agências de notícias digitais, os jornais digitais, e os obituários foram perdendo espaço e, mais que isso, perdendo o charme. Afinal, com redes sociais, a própria família cuida do anúncio da morte em suas contas de Instagram, Facebook, WhatsApp…

Embora o produto morte não tenha tido muita repaginação desde Adão, porque desde lá, as pessoas morrem, os órgãos param de funcionar e o prazo de validade do morto até o sepultamento, continua relativamente igual; o fato é que as funerárias tem acompanhado os tempos e criaram páginas nas redes sociais. Daí, que em vez daquele obituário com número limitado de palavras e apenas uma fotografia em preto e branco, algumas funerárias já investem em designers gráficos para fazer vídeos dos mortos de modo a que pareçam mais "instagramáveis" do que quando vivos!

Mas o fato é que com tudo isso, os obituários digitais não tem o mesmo apelo e charme dos antigos escritos em jornais, e não tem atraído grande público. E também há o fato de que o público do mundo digital ainda é novo, ainda não atingiu a idade que faz com que tenhamos certa curiosidade sobre obituários.

Poucos idosos conseguiram uma migração segura do jornal de papel para o mundo digital. E os nativos digitais ainda não são consumidores de obituários eletrônicos, nem são os maiores consumidores do produto morte!

Pois foi daí, o espanto de todos os demais oito componentes da mesa de jantar,  quando a Camila, do alto de seus 22 anos, em um momento de inexplicável e voluntária confissão, antes mesmo que a garrafa de vinho estivesse pela metade, solenemente declarou que gostava de olhar Facebook de funerárias. Passamos muitos minutos rindo, aquelas risadas gostosas, coletivas, em que quase dói a barriga e lágrimas brotam do canto do olho.

— Ei, Camila, quando o Antenor chegar, tu tens que contar isso de novo! — Lu falou com alguma dificuldade entre risadas!

— Fora de forma do jeito que ele sempre é, vai suar de rir. — Eu falei.

— Não achei ele tão fora de forma. Vi uma foto dele no Facebook, ontem. — Disse a Camila, sorrindo.

E todos nós paramos de rir.


Luís Menna Barreto, em 9 de fevereiro de 2025

sábado, 20 de setembro de 2025

Dois Contos de Prosa

 Dois Contos de Prosa


- Da série: “Críticas Desautorizadas do Prosa…”.


Tinha a “Banca do Zeca” na “Rodoviária de Baixo”… não tinha outra. Revistas e gibis, eram ali. Tinham os jornais também: o Correio do Povo e a Zero Hora diariamente e a Folha Patrulhense que, naquele tempo, eu nem sabia de quanto em quanto tempo era publicada! Os jornais a gente até conseguia em outros comércios. Até entregavam em casa, cedinho, junto com a garrafa de leite, que a gente pagava por mês. 

Quem não recebia o leite pela manhã, em garrafas de vidro ou nos tarros, tinha de ir todo o dia comprar o leite de saquinho. Para pegar o leite com validade para o outro dia, só se pegasse a remessa da tarde! Daí, chegava em casa e colocava naqueles suportes de plástico, com uma alça. Não havia casa que não tivesse um daqueles. 

Todos os dias, o pai lia o jornal cedinho, sentado na mesa onde fazíamos as refeições. 

As notícias não eram instantâneas, não havia a ansiedade gerada por rolar o “feed" e ir consumindo informações aleatoriamente, sem nem conseguirmos mais distinguir o que é verdade do que é inventado.

A impressão que tenho, é que a vida está rápida demais, tudo passa em alta velocidade! Vemos centenas de fotos dos amigos no Facebook e Instagram e, sem nem olhar direito os detalhes, apertamos o “👍” ou o “❤️”, para estarmos sendo “digitalmente sociáveis”, pulamos os “posts" que tenham mais do que 3 linhas, não vemos vídeos que tenham mais do que 30 segundos, porque, afinal de contas, existe outro e outro e outro e depois tantos outros, que quando olhamos, estamos invadindo a madrugada, estamos perdendo o tempo em que queríamos fazer aquela tarefa manual, estamos, enfim, passando a vida na tela em nossa frente!

Algumas vezes ficamos por tanto tempo numa troca de áudios, enviando daqui e recebendo dali, e nem percebemos que poderíamos simplesmente termos ligado, dito “bom dia”, falado amenidades…!

Ai de nós, se sentimos o celular vibrar e não olhamos imediatamente de quem é a mensagem! E que troque o primeiro pneu, aquele que nunca tentou dar uma espiadinha na mensagem com o carro em movimento, ou quando parou no sinal, ou, ao menos, não tentou estacionar para ler e responder aquela mensagem, como se algo importante demais não pudesse esperar o tempo de chegarmos!

Não esperamos mais o horário do filme, porque agora, é o filme que nos espera no “streaming”, para que o vejamos, sem pausa para o xixi ou para vermos o bolo que estava no forno. Se “pausamos” o filme, certamente foi para respondermos a mensagem de whatsapp que acabou de chegar e não pode esperar mais nem um minuto, ainda que seja a figurinha de "bom dia" do amigo do primo da mãe da professora de inglês do filho daquela pessoa que só vemos durante 8 minutos na academia!

Quando paramos (se paramos) para pensar, a vida está rápida demais… uma velocidade que quase contraditoriamente, “rouba-nos” uma deliciosa parte da vida que, justamente, faria desacelerar… encontrar amigos, rir com calma…

Então, eu fui novamente pegar o PROSA NA VARANDA, e, avançando na minha leitura pelo PROSA, descortinaram-se dois contos que particularmente, abraçaram-me… 

… foi estranho! Porque eu os li, e não havia aquela busca por um arremate final surpreendente. Não havia suspense no começo, ou um enredo intrincado que fosse aos poucos sendo amarrado… Não havia sequer a intenção de alguma piada no final, ou frases que anunciassem um viés de humor.

Mas eu senti algo estranho! 

Tive a impressão que o ritmo fora o mesmo do começo ao fim, e quando terminei a leitura dos dois, foi… diferente…! E, mesmo assim, parecia que eu estava envolvido em uma velha sensação, mas que eu ainda não havia identificado quando terminei de ler… acho que minha reação foi: onde estão elas, que ainda agora estavam aqui comigo? Cadê a MARIA RUTH MAYKOT e a MARILANI DOS SANTOS BERNARDES?

“O Espelho de Cristal” e “A Mala”, não são contos… São o banco na frente da casa, em que essas duas autoras estão sentadas, com o chimarrão na mão, esperando passarmos para dois dedos de (do) prosa. Esses contos nem são literatura… esclarecendo: não são apenas literatura, são uma conversa! Dessas que a gente encontra a amiga na manhã de domingo, quando saiu simplesmente para caminhar, e acabou parando para aquela PROSA maravilhosa, em que o tempo passa como se não existisse WhatsApp, como quando parávamos sem precisar fazer "selfie" para postar…

“Prosaicos”! Acho que essa era a palavra que eu estava procurando: prosaicos!

Não porque destituídos de nobreza… pelo contrário! Prosaicos, porque PROSA!

Porque são contos que simplesmente CONVERSAM conosco, como um convite! Porque são, enfim, simplesmente bons de ler! Porque deixam a alma passear leve e solta!

Então, com licença. Vou pegar minha “MALA”, olhar-me no “ESPELHO DE CRISTAL”, e ver se já estou pronto para mais uma viagem no PROSA NA VARANDA!


Luís Augusto Menna Barreto

Em 20 de setembro de 2025.