sábado, 16 de fevereiro de 2019

poesia de ver: ... o homem e a flor! - poetry to see: ... the man and the flower!



— Eu fico pensando que se eu te tivesse arrancado para presentear-te a alguém, quantas pessoas que me visitam deixariam de ver-te…!

— Eu fico pensando que se tu me tivesses arrancado, quantas pessoas deixaria de visitar-te, por não me teres mais para recebê-las…!


— I think if I had ripped you off to give as a gift to someone, many people who visit me would not see you…!

— I think if you had ripped me off, o lot of people would stop visiting you because I was not here to receive them…!

Por Luís Augusto Menna Barreto

quinta-feira, 14 de fevereiro de 2019

bora cronicar - A Fila

Bora Cronicar

A Fila

Ontem eu contei a história de que a figura do “próximo" sempre foi muito misteriosa, pra mim. Até que eu tava na fila do caixa do Nei Variedades, e descobri que o Próximo existe! 
Mas daí, eu comecei a pensar na fila… não, não pensar apenas enquanto eu estava na fila! Era pensar na fila, na existência da fila, no significado e representação da fila. Nas transformações que a fila traz pra gente! Sim, porque se você nunca parou pra pensar, a fila é algo transformador. Eu acho até, que a fila, enquanto um ser vivo e em movimento, deveria receber mais atenção, mais estudos de cientistas. Psicólogos deveriam escrever tratados sobre a fila e a transformação de comportamentos derivados da fila.
E a fila também nos iguala. Inclusive em sentimentos! O quê? Você nunca parou pra pensar nisso? Eu já!
Veja só, caso clássico: fila da lotérica! Você tem lá o seu volante para marcar os números da mega sena que acumulou, fez todo um estudo, avaliou as probabilidades e tascou: dia e mês da data de nascimento, se você tem namorado ou namorada, o dia e mês dele, se você tem filho, dia e mês da data de nascimento do filho. Sai de casa já fazendo os planos do que vai fazer com toda a grana que certamente você ganhará sozinho. Dai, quando vira a esquina e vê a lotérica… a fila! Saindo porta afora! 30 ou 40 pessoas entre você e o caixa!
Ou outro caso clássico: você está em casa, acorda com as malas arrumadas no dia anterior, o Uber na porta, esperando, você faz aquele trajeto sem trânsito, indo para o aeroporto na madrugada, sonha com o que você vai fazer assim que chegar no destino, paga o Uber quase sorrindo, experimenta aquela deliciosa sensação de colocar a mala no carrinho, a porta automática do aeroporto abre… e você vê a fila! Incontáveis pessoas entre você e o cartão de embarque!
Pois tanto num caso como no outro, casos clássicos de fila, começam as provações e transformações: você entra nervoso, olhando pra um lado e outro, atento se por acaso não abrirá um outro atendimento ao lado, no qual você será o mais rápido e esperto e livrar-se-á da fila! Mas não! Alguns minutos e você começa a ser absorvido pela fila. Em vez de procurar para os lados, você começa a olhar quem está lá na frente, depois no meio da fila. Faz planos para quando chegar até a próxima etapa da fila, dobrando 180 graus e ficando de frente para quem estava atrás de você. Nesse momento, você começa a dar olhadas, também, para quem está atrás. E um pequeno fio de orgulho começa a nascer em algum lugar de você que esqueceu qualquer orgulho, sentindo-se francamente humilhado quando era o último da fila, e invejando, com todas as suas forças, o cara tranquilo com aquele sorriso irônico lá na ponta da fila, sabendo que será o próximo. 
Porque é exatamente isso que acontece: olhamos com inveja para quem está lá na ponta, quase para ser atendido. Pensamos: o que eles fizeram para merecer isso?! O que eu fiz a Deus para amargar o último lugar da fila? Se sabemos que não existe mágica que nos colocará no primeiro lugar, desejamos, ao menos, como uma migalha de conforto, é que chegue mais alguém e fique atrás de nós; queremos passar o humilhante último lugar da fila. Então, quando alguém chega, é como se passássemos adiante o “cone da vergonha” que em tempos mais remotos, era dado a quem incomodava na aula e deveria usar o cone, em pé, virado para a parede no canto da sala de aula. 
Depois de passarmos o cone da vergonha imaginário ao coitado que chega depois de nós, chegam outros… e mais outros… e vamos avançando! Quando chegamos à metade da fila, estamos em uma zona de conforto de sentimentos. Já abandonamos aquele sentimento de vergonha e nutrimos, cada vez mais, um sentimento de certo orgulho do tanto que já conquistamos em direção ao atendimento. Olhamos, agora, tanto para o primeiro da fila, como para as pessoas atrás de nós… a força da inveja do primeiro da fila, vai-se diluindo ou transformando-se e compensando com o orgulho que sentimos do progresso, orgulho alimentado, a cada passo, com os olhares de inveja das pessoas da segunda metade da fila…
Então, avançamos mais… e, quando vemos, estamos na última parte. Já não há mais inveja! Há o orgulho revanchista: “olhem pra mim! Eu sou o máximo, sou melhor que vocês, eu sou o abençoado que está prestes a ser atendido, enquanto vocês, pobres coitados, tem muito o que esperar ainda!”
Então, o momento supremo, o píncaro do êxtase, a porta do paraíso: somos nós! Nossa vez! O momento pelo qual todos esperamos. Nem bem saboreamos o instante, e vem a voz que tudo faz esvanecer: “próximo!”
Na velocidade das três sílabas, nossa epopéia acaba! Tal qual um párea, um exilado, nós somos afastados da manada, banidos do microcosmo da fila. E agora? O que resta? Deixamos de ser parte de algo vivo, que nos gerou um turbilhão de sentimentos, para sermos apenas e tão somente nós…
Sentimos o vazio, a pré depressão, e, quando começamos a sentir-nos perdidos, decidimos: “amanhã, irei no banco! Banco público, que tem mais movimento. Vou pagar aquela conta atrasada que só recebem em dinheiro, na boca do caixa!” 
Pronto! Já temos uma nova esperança! Amanhã, faremos parte, novamente, de um universo vivo e em movimento: A FILA!
…
E os desalmados pensadores dos bancos, destruíram esse nosso momento: trocaram a maravilha da fila, por senhas e cadeiras acolchoadas com televisão, enquanto esperamos. 
O mundo não é mais o mesmo…!
Luís Augusto Menna Barreto

15.2.2019

quarta-feira, 13 de fevereiro de 2019

bora cronicar - O Próximo

Bora Cronicar

O Próximo

Eu tive um professor numa escola técnica, que se chamava “Máximo”. E o mais curioso é que ele tinha baixa estatura. E ele mesmo tirava onde de si, apresentando-se: “Eu sou o Máximo”! 
Para quem não o conhecia, isso podia soar estranho. Para mim, criança, soava engraçado. E eu demorei um pouco a entender que era realmente o nome dele. Era um professor querido por todos. Ou ainda é! Espero que esteja vivo e bem, porque era realmente uma boa pessoa, dessas que a gente torce que nunca deixe de existir.
Conheço, também, um colega chamado Prócion! Excelente amigo e grande juiz. Estou falando em nomes, porque eu nunca conheci um “Próximo”. Com nome de “Próximo”. O mais perto de “Próximo" é mesmo meu colega Prócion! E eu sempre me diverti pensando que eu gostaria de conhecer ao menos um “Próximo”, para poder personificar o tal de “próximo”. Aquele que frequenta discursos de pessoas boas, discursos politicamente corretos, discursos que tendem a transformar-nos em uma  pessoa melhor. Você certamente já ouviu: “temos de ajudar o próximo”; “ama o próximo como a ti mesmo”… e eu sempre tive muita dificuldade de entender quem era o próximo!
Eu lembro que quando eu era criança e morava na Rua Santana, em Porto Alegre, perto de casa havia uma padaria que a mãe todos os dias ia comprar leite e pão. Naquele tempo, tempos de leite de saquinho, tinha de comprar todos os dias e o leite tinha validade de um dia para o outro. E era vendido em sacos plásticos de um litro. Daí, a gente chegava em casa, e colocava o saco numa espécie de “pote com alça”, um “porta leite de saquinho”. Anos depois, veio o “leite B” em garrafinhas bem mais caras e que duravam quase uma semana! E, tempos depois, veio o leite de caixinha, que temos hoje, que duram pra sempre, desde que não passe de seis meses. (E eu fico me perguntando, o que teria acontecido com o fabricante de “porta leite de saquinho”?)
Mas enfim, eu estava contando da padaria na Rua Santana! Às vezes a mãe me levava na padaria e, enquanto estávamos na fila, eu ouvia uma pessoa gritando: “próximo… próximo…”. Naquele tempo, eu entendia menos ainda esse negócio de próximo, e eu achava que o tal "próximo" era alguém. Até que quando a mãe estava na ponta da fila, gritavam “próximo" e a mãe ia. Eu ficava assustado, porque não era ela que estavam chamando. Tanto que a mãe quase nem falava nada, e já ia embora. Eu não entendia o que conversavam, mas eu achava que o moço do caixa explicava pra ela, que não era ela, a D. Zélia, que ele chamou, e sim o tal “próximo”.
Depois, fui crescendo mais um pouco e sempre escutando essas tais conversas sobre o “próximo”. Quando eu fui do grupo escoteiro, eu já tinha noção que “próximo" não era exatamente uma pessoa como eu achava na infância. Quando falavam que o escoteiro pratica uma boa ação por dia e está sempre pronto para ajudar o próximo, eu entendia… até chegar nessa última parte! Quem, afinal, é o “próximo”. Não, não uma pessoa com esse nome… mas ainda assim eu queria saber quem, entre os Joãos, Josés, Marias, Antônios e Ranolfos seria o meu próximo. 
Porque observando atentamente as filas, fui criando uma noção de que o “próximo" significava o “seguinte”, aquele que estava na ponta da fila era sempre o próximo. Próximo era como o campeão da fila, a pessoa que estava em primeiro lugar, aquela que todos os demais invejavam, aquela que todos queriam roubar o lugar: todos queriam ser “o próximo” naquela fila. 
Mas quando falavam em amar o próximo como a si mesmo e eu estava na fila, eu não entendia. Eu tinha que amar o cara que estava na ponta e o caixa o chamaria? É o cara da ponta da fila do check in no aeroporto que eu tenho que amar como a mim mesmo? E a história de ajudar o próximo? Eu tinha que ajudar todos os que estavam na ponta das filas? Todos os que tinham o bilhetinho com o número da senha, os que estavam “na vez”…? 
O que sei é que o tal do “próximo" sempre assombrou meus pensamentos. 
Daí, que outro dia eu estava na loja que fica em frente ao Fórum de Ananindeua, Pará, uma loja que se chama “Nei Variedades” e eu acho o nome muito apropriado. Não pelo “Nei”, mas pelo “Variedades”, porque tem de um tudo por ali: de brinquedos a grampeador de papel, de relógio de parede a echarpe, de bóia de piscina à panelas… tudo.
E para pagar, existe uma “ilha" com quatro caixas, no meio da loja. Normalmente, duas caixas estão atendendo e se formam duas filas, mas se as filas ficam grandes, abre mais um ou dois caixas. E não tem esse negócio de fila única. O sistema é antigo: uma fila para cada caixa e torça pra sua fila andar rápido! 
Pois eu estava na fila do caixa no “Nei Variedades” e estava distraído lendo um e-book no celular quando fui despertado por um quase grito: “Próximo!”. Eu estranhei! Os dois caixas que estavam atendendo estavam ocupados! “Ei, Próximo!” Fiquei nervoso, até! Meu Deus, ninguém se mexeu na fila! Será que mudou a forma com que se chama o primeiro da fila e não me avisaram? 
Dali há pouco ouvi o som peculiar de mãos batendo em costas em um abraço! 
Há, afinal, um “Próximo”! E ele trabalha no Nei Variedades! Alguém finalmente o reconheceu, chamou-o e abraçou-o! O mistério de toda a minha vida, foi resolvido! Descobri o Próximo! E ele trabalha no Nei Variedade!

Luís Augusto Menna Barreto

14.2.2019

terça-feira, 12 de fevereiro de 2019

bora cronicar - Não Se Atreva a Escolher a Cor das Cortinas

Bora Cronicar

Não Se Atreva a Escolher a Cor das Cortinas

“Como assim, ‘eu como comida fria no gabinete do fórum?’”
“Hein?
“Que historia é essa de tu comeres comida fria? Tu comes comida fria porque tu queres! Tem microondas lá!”
“Mas eu sei disso! E eu não falei que isso era algo ruim! Eu gosto da comida fria!”
“Eu sei, mas as pessoas não sabem! O que vão pensar? Podes tratar de explicar isso!”
Pois é! Tô explicando! Quando eu falei na crônica “O Vilão é o WhatsApp” que eu comia meu almoço frio, no gabinete, lendo livro de Lee Strobel, não quis dizer que isso era algo ruim. Tem mesmo um microondas lá, e eu simplesmente gosto de comer almoço frio. Começou por preguiça, eu confesso. Tinha que tirar o fio da tomada do frigobar e trocar pelo fio do microondas e depois de esquentar, fazer o inverso! Talvez as mulheres não entendam, mas na matemática masculina, é muito mais simples comer frio do que fazer tudo isso!
É, eu sei que o pensamento feminino é muito diferente. Por exemplo: na crônica do WhatsApp mesmo, o comentário dela não foi sobre o fato de eu ter lido pouco no ano passado, ou no fato de ter muitos livros pra ler… nem mesmo o fato de que eu estou lendo 11 livros ao mesmo tempo! Na verdade, sobre a crônica, ela nem comentou o assunto principal: a minha saída do WhatsApp. Ela foi direto no fato de que eu falei que como meu almoço frio.
Outro exemplo: a esposa de um amigo encontrou um “barulhinho" no carro. Um “barulhinho”! Ela fez ele andar com ela no carro por quase 30 minutos, até o "barulhinho" aparecer! Quer dizer, na verdade, ele disse que acha que ouviu, e então gritou na hora! “Estou ouvindo, estou ouvindo”! A isso, seguiu-se um “eu te disse, eu te disse!", seguido daquele sorriso feminino em que elas nos fazem ouvir no silêncio dos lábios fechados: “eu disse que tinha razão!"
Pois é, mulher é assim. Mas tem homem que não entende isso, e paga caro. Veja: no meu caso, eu nem discuti: tratei de começar esta crônica explicando que a comida fria é porque eu gosto! Meu amigo do carro, tratou de escutar o “barulhinho”. 
Mas tem homem que não aprende…
Quando eu ainda morava em Porto Alegre e estudava junto com outros três obstinados amigos, um dos quatro, cujo nome é o mesmo de um faraó (para preservar sua identidade, vou chama-lo de Kefren!), desafiou a insondável lógica do indecifrável modo de pensar das mulheres.
Estavam eles reformando o apartamento em que moravam. Em um intervalo da nossa rotina de estudos, Kefren comentou:
“Ontem eu e a Trícia (vou chamá-la assim, para preservar sua identidade) fomos escolher o piso da sala. Eu gostei muito do piso mais escuro, mas ela gostou do piso mais claro.”
Daí, antes que o assunto fosse pra frente - ninguém ali queria saber de cor de piso -, o Rafael (é esse mesmo o nome, não preciso preservar!), falou algo sobre o Inter que, naquele ano de 2002, ia mal e livrou-se do rebaixamento somente na última rodada, contra o Paysandu, casualmente em Belém, onde hoje moro. Daí, que o assunto do piso morreu. O problema é que menos de um mês depois, fomos no apartamento do Kefren pra estudar lá. Qual não foi nossa surpresa ao ver o piso escuro! Nós nos olhamos assustados. Entramos em silêncio no apartamento. Dava pra sentir a tensão no ar… ou melhor, no piso! Ninguém falou nada… mas nós, os outros três que não éramos faraós, sabíamos que foi uma imensa mancada do Kefren!
Funciona assim: se um homem não gosta de uma cortina, ou da cor do piso que a mulher escolheu, talvez reclame um vez, depois, dá de ombros, e nos dias seguintes, já nem lembra mais da cor que havia preferido na hora da compra. Mas se for o contrário, se você escolher a cortina que não foi a que ela preferiu, ou o piso que não foi o que ela gostou, todos, todos, todos os malditos dias do resto de sua insignificante existência, ela tocará no assunto, ou usará aquele olhar “eu odeio essa cortina”, “eu odeio esse piso”, até que um dia você não aguentará mais e amaldiçoará o dia em que escolheu a cortina ou o piso que ela não gostava! E você pagará o que for preciso para trocar e implorará o perdão dela! 
Ah, lembra do meu outro amigo, do caso do "barulhinho" do carro da mulher?
Tem o resto da história: levando o carro na concessionária, para que acabassem com o “barulhinho" ela exigiu um carro reserva, ao quê, a concessionária emprestou um modelo semelhante. Eu perguntei de forma casual como era o carro reserva e ele me falou: 
“bah!, um carro jóia, quase zero, câmbio automático, ar digital, bluetooth, banco de couro, vidro e trava elétrica…”
“Uau! E ela, o que achou?”
“Não gostou do tapete de borracha!”
Pois é… mulher é assim! E pronto!

Por Luís Augusto Menna Barreto

13.2.2019

segunda-feira, 11 de fevereiro de 2019

bora cronicar - Saiu do WhatsApp? Aguente as Conseqüências!

Bora Cronicar

Saiu do WhatsApp? Aguente as Conseqüências!

As pessoas simplesmente não acreditam!
“Como assim ‘não tem’?”
“Não tenho!”
E lá vem uma interjeição, ou um “sei” de cara torta, dizendo-me com os olhos “se não queres me dizer o número, bastarias falar!”
Mas não é isso! Realmente, não tenho mais.
A primeira a notar, foi minha irmã. Levou uns 40 minutos. Mas veio uma mensagem via SMS (você lembra o que é SMS, né?!): “O que aconteceu?”
Uns dias depois, no primeiro dia seguinte ao recesso, cheguei no trabalho e a servidora mais extrovertida, que fora por todos os demais servidores encarregada de descobrir, perguntou-me: 
“Foi alguma coisa sobre o STF (Supremo Tribunal Federal), né doutor?! O pessoal combinou que não discutiremos mais decisões do STF no grupo…”
“Hein?”
“Disseram que o senhor poderia ser o administrador e excluir se o senhor achar alguém inadequado…”
Mais tarde, no mesmo dia, a Secretária do Fórum, atendendo pedido da Juíza Diretora do Fórum, pediu para perguntar se alguma coisa havia-me incomodado, ou se houve alguma ofensa. 
Acreditem: foi realmente difícil convencer as pessoas, até mesmo as mais próximas a mim, que eu simplesmente deletei minha conta do WhatsApp. Eu já falei disso: foi uma resolução de ano novo, pra ter mais tempo para vários outros projetos, inclusive esse: escrever crônicas.
Não, não posso dizer que o aplicativo tem “culpa” (mesmo assim, eu digo, porque quero que a culpa seja de alguém ou algo, mas não minha!). Mas a verdade é que eu não sou suficientemente disciplinado. Como as pessoas normais, eu estava em vários grupos, e trocava mensagens com todos. O problema, é que por conta dos grupos, se eu ficava uma tarde, por exemplo, sem olhar o WhatsApp, pronto: quase 400 notificações e o pânico! Acontece que eu não sei não olhar, não sei não responder!
Ou respondo tudo e perco muito do meu tempo produtivo, ou respondo tudo e perco muito do meu tempo de sono; ou não respondo e começo a ler “tuítes” tipo “sabe quando seu contato visualiza e não responde” ou “detesto gente que visualiza e finge que não viu”. Daí, fico com um sentimento de culpa, e começo a paranóia de pensar que aquela postagem é pra mim!
Deletei, pronto! E descobri que quando se deleta uma conta, em todos os grupos aparece a mensagem: “(seu nome) saiu do grupo”. O WhatsApp não avisa que você deletou a conta! Ele simplesmente informa, nos grupos, que você saiu do grupo.
Pois passada a primeira onde de questionamentos das pessoas próximas, houve o inverso: um vazio… 
O celular ali, quieto, onde sempre ficava, e nada. Algumas vezes eu não resisti e apertei o botão para ver se estava ligado. Conferia notificações e nada… estranho… silêncio… vazio… 
Fiquei preocupado, no começo. Depois, aos poucos, comecei a descobri que aquilo, na verdade, era CALMA. Era TRANQUILIDADE.
Amigos que pareciam próximos e todos os dias enviavam “bom dia”,  contavam uma piada, juravam parceira dizendo “tamo junto”, simplesmente sumiram! E acho que nem notaram minha falta! Nadinhas. Nem um “#partiualgumlugarquevoufingirqueélegalpravocêficarcominveja”!
Daí que outro dia, encontrei um “brother do WhatsApp” que tava conversando com outro colega sobre uma festa de aniversário surpresa que fizeram para uma colega querida por todos no fórum, e eu nem soube. Nem me chamaram. 
Reclamei:
“Báh!, mas nem me avisaram?”
“Eu mandei um whats pra todos, mas você não tem mais WhatsApp!”
“É!”, o outro colega concordou, como se prolatasse uma sentença! 
Daí, óbvio, eu perguntei por que ele não ligou ou enviou SMS pra me avisar.
“O quê?” Mas foi um o quê com tanta convicção que fiquei intimidado a lembrar-lhes que ter saído do WhatsApp não significava que havia trocado de número ou vendido o celular!
Daí, que nem me atrevi a dizer que ele poderia ter saído do seu gabinete, caminhado dez passos, e entrado a minha sala pra avisar pessoalmente da festa!

Luís Augusto Menna Barreto

12.2.2019

domingo, 10 de fevereiro de 2019

bora cronicar - O Vilão é o WhatsApp

Bora Cronicar

O Vilão é o WhatsApp

Olá, pessoal.
Estou apavorado! Eu andei fazendo umas contas. Pois é, eu sei que quem escreve não tem nada que ficar fazendo contas, isso é coisa do pessoal das “exatas”, mas eu fiz! Peguei a calculadora do celular e tudo! 
Pois é, fiz as contas e estavam lá: 67 livros na minha estante. Não, esse não é o número de livros que tem na estante todos, não! Esse é o número de livros que estão esperando ser lidos! 67! Tudo bem, não precisa calculadora pra contar. Mas a conta vem depois, peraí!
Olhei outra prateleira na estante e havia 11 livros. Esses, são o que estou lendo atualmente. “Como assim, lendo 11 livros?”, perguntaria você, caro leitor. Mas é isso, sei lá. Dependendo do momento e do local, vou lendo um ou outro. Por exemplo: no café da manhã, às 5 horas todos os dias, estou lendo um livro de crônicas do jornalista gaúcho David Coimbra (“O Que Você Nunca Deve Perguntar a um Americano”); quando vou pra rede na sacada do apartamento, leio “Os Loucos da Rua Mazur”, do português João Pinto Coelho; no banheiro (é, eu leio no banheiro, sim) estou lendo O Cemitério de Praga, do Umberto Ecco. No almoço, comendo as iguarias que a Ellen, nossa secretária de casa, prepara um dia antes e eu como frio no gabinete do fórum, eu estou lendo “Em Defesa de Cristo” de Lee Strobel… e assim vai. Eu leio até na fila do caixa automático! Quando estou na fila, eu pego meu celular e leio e-books (meu Deus, eu não coloquei na lista os e-books!) Estou lendo “Os Pilares da Terra” no celular… mas de vez em quando, eu confesso troco pelo “Hippie” do Paulo Coelho. Até ontem eu tava lendo “Baile do Judeu” do maravilhoso Inglês de Souza”. Enfim, esses são os livros que estou lendo atualmente. 
“E onde entra a calculadora”, você deve estar-se perguntando! Agora: eu contei os livros que eu li durante todo o ano passado: 8. Isso mesmo! Apenas 8. 
Então comecei a calcular e usei a calculadora, porque essa conta é difícil pra mim: sem as vírgulas, depois do número inteiro, eu levarei 8 aos para ler os livros da que estão esperando na prateleira. 9 anos, se eu contar os que estou lendo e contar que vou conseguir ler todos até o final do ano!
Fiz mais umas contas, celular em punho, testa enrugada… eu ganho pelo menos 8 livros por ano! No aniversário e no Natal, minha mãe, minha irmã e minha esposa, presenteiam-me com livros, porque sabem que eu gosto (além e ser fácil e barato!). E sempre ganho pelo menos dois de dois amigos mais chegados! 
Luz de pânico! Se eu ganho 8 livros por ano, e continuar lendo 8 livros por ano, eu NUNCA vou terminar minha prateleira! Fiz as contas dos livros que li em 2017: 15 livros! Fiz as contas de quantos livros li no profícuo ano de 2016: 30! Isso, 30! Mas então, onde diabos foi parar aquele voraz devorador de livros, aquele leitor contumaz? Alguém ou algo acabou com ele, jogou-o no ostracismo. Eu me senti o lateral direito com 40 anos, que a cada temporada que passa, vai perdendo sua capacidade de chegadas no fundo do campo, e tem de se reinventar, ou mudar de posição! 
Será que estou perdendo a forma? Não!
Preciso de outra explicação! Preciso de um culpado! Isso, um culpado é o ideal! Como me ensinou uma grande amiga, “_se a culpa é minha eu coloco em quem eu quiser_”. No meu caso, decidi que não era em _quem_, mas em _quê_! Achei o culpado! O WhatsApp. Isso mesmo: WhatsApp! Eu fiz minha conta no aplicativo, justamente em 2016… e, de lá pra cá, foi um declínio total na minha leitura. Eu simplesmente não tenho disciplina suficiente para ignorar notificações, mensagens de boa noite, ou sair de grupos. Daí que poucos dias antes do fim do ano, eu estava na fila do caixa automático e percebi: eu não estava lendo e-books! Eu estava abrindo vídeos do WhatsApp e respondendo a mensagens de “bom dia” com versinhos e músicas! 
Achei o vilão! 
Pois nos primeiros minutos do dia 1 de janeiro de 2019, eu decidi acabar com o vilão: deletei minha conta do WhatsApp! Assim, sem falar pra ninguém antes! 
Acabei com o vilão!
… e descobri que EU VIREI UM VILÃO! (… mas isso eu conto amanhã!)


Por Luís Augusto Menna Barreto
11.2.2019

domingo, 3 de fevereiro de 2019

O Forquilha, a Minésia, a Moto e a Bebida

Ok, todo mundo já está careca de saber: álcool e direção não combinam. Até quem bebe e tem carro sabe disso. 
Daí, tu deverias estar-se perguntando: “mas se todo mundo sabe disso, então qual é o problema, por que tanta gente bebe e dirige?”
Ah!, o problema é do momento em que se sabe disso!
Isso mesmo: o momento! 
Queres ver? Olha a conversa desse caboclo que chegou algemado na audiência:
— Eu não sabia, doutor!
“Ai meu Deus…”, eu pensei. Já vi que seria mais um caso daqueles em que o caboclo faz-se de tonto, pra tentar enrolar-me!
— Tá, Forquilha! Tu tens quase quarenta anos de idade e nunca ouviste dizer que beber e dirigir não combina?
(Ops!, deixa eu fazer um parênteses necessário: eu já contei em outras crônicas de Marajó City, especialmente nas três crônicas “O Presidente, o Manobra e a Ambulância”, que em muitos municípios do Marajó, sequer existe carro… mas tem de motos! E muitas! Pois é! Se conduzir carro já é perigoso, imagina motos! Pronto. Fechei o parênteses).
— Já ouvi sim senhor!
— Então, Forquilha, como tu me dizes que não sabia!
— Na hora, doutor!
— Hein?
— Doutor, presta atenção:
O Goela arregalou os olhos quando o Forquilha me disse “presta atenção”; achou que eu ia prender o Forquilha - que já veio preso! Mas a verdade é que fiquei curioso! Ele continuou:
— … a gente sempre ouve no rádio e vê comercial de TV que beber e dirigir não pode, doutor. 
— Então, Forquilha? Caramba…
— Pois doutor, escute: antes eu sabia. 
— Ah, tá, depois parou de saber? Ficou com amnésia?
— Não, doutor, fiquei só com a Dois Reais, essa “Minésia”, nem conheço. Não muda de assunto, doutor! Então, antes eu sabia, e agora sei de novo, entende, doutor? 
Fiquei em silêncio… tentando respirar devagar. Minha paciência tava por um fio!
— Assim, doutor, a gente sai de moto e pensa: "hoje só vou dar uma volta, não vou nem entrar na festa". Mas daí, a gente passa lá na frente da sede e encontra os amigos. Dá uma paradinha e fica conversando. Daí, umas morenas começam a entrar - porque o senhor sabe, né doutor, as mulheres entram cedo, que elas não pagam até meia noite -. Daí, o pessoal começa a entrar e a gente pensa: tá, vou entrar, mas não vou beber nada, só dar uma olhada, ver se tem alguma morena querendo dar uma volta, e saio”. Nessa hora, doutor, ainda tô sabendo que não pode beber e dirigir!
— Sim, Forquilha, e quando chega a tua amnésia?
— Doutor, já falei que nem conheço essa “Minésia”!
— Não é isso, Forquilha, “amnésia" é… deixa pra lá. Continua.
— Então… daí, aparece um amigo com um balde de cerveja, e te oferece uma. A gente até lembra sobre dirigir e beber… mas acredita que só umazinha não vai fazer mal, doutor. Então aparece uma morena como a Dois Reais… tá, não é lá essas coisas, mas pra mim, né, doutor, já é muito. Daí, a morena, doutor, a Dois Reais, não essa Minésia aí, que nem sei quem é, daí, a morena pede uma cerveja, doutor. O senhor sabe, né?! A gente compra uma cerveja pra morena. Vai bebendo… daí quase nem lembro mais essa coisa de não poder dirigir…
Nesse ponto, eu confesso que não deveria, mas fiz pra provocar: sussurrei baixinho:
— Chegou na amnésia… — eu confesso que quase ri, mas me segurei!
— É sério, doutor, não sei que é essa! Eu juro pro senhor que eu só fiquei com a Dois Reais.
— Tudo bem, continua!
— Então, doutor… uma cerveja pra morena, um beijo, outra cerveja, uma mão boba… outra cerveja…
— Cuidado onde isso vai parar, Forquilha!
— Não se preocupe doutor. Porque daí adiante, é aquele momento que eu falei pro senhor: já não sei mais.
— Ah, tá, Forquilha — falei com ironia — agora que não te convém mais, tu não lembras que não pode dirigir e beber?
— Não doutor. Nesse ponto, não é só isso que não lembro! Acordei foi na delegacia, com a moto amassada, a perna ralada, e nem sei da Dois Reais. Eu juro pro senhor: naquele momento, eu não sabia que não podia beber e dirigir!
Pois é! Era isso que eu queria dizer: o problema é o momento em que a gente sabe ou não sabe que pode dirigir e beber! Pelo que vi, esse conhecimento não é constante. Ele é volúvel: a gente justamente tem esse conhecimento e esse entendimento quando não precisa, ou seja, quando não bebe! Quando começa a beber, que é quando a gente mais deve saber que não pode dirigir, parece que esquecemos disso!
Mas, pasma, não foi a explicação do Forquilha que mais me surpreendeu (até pela lógica e coerência)! Foi a conclusão a que o Forquilha chegou, que me deixou mais abismado!
Depois da explicação, arbitrei a fiança. Quando eu disse “um salário mínimo”, o Forquilha gemeu. Eu sei que é um valor alto no Marajó. Mas esse tipo de delito, se a pena pecuniária é pesada, costuma prevenir!
— Há quanto tempo tu estás preso, Forquilha?
— Três dias, doutor… o delegado não tava na cidade, e o senhor sabe como o Tonelada é, né?
O Tonelada é o policial militar que faz as vezes de delegado quando este não está na cidade… e também em algumas vezes que o delegado está!
— Então me fala uma coisa: valeu à pena esses três dias presos e ter que pagar um salário mínimo?
— De jeito nenhum doutor!
— Aprendeste a lição, então?
— Sim senhor, doutor! Álcool e direção não dá certo!
— Vais parar de beber, então, Forquilha?
— Vou vender a moto, doutor!
…
… pois é!


Por Luís Augusto Menna Barreto

domingo, 27 de janeiro de 2019

Pensamentos perdidos: … batalha! /// thoughts lost: ... battle!"

   

Foi quando corri sem destino, que encontrei os caminhos mais precisos. 
Foi sem mapa que cheguei a mim mesmo quando eu nem sequer me procurava! 
Quando o acaso foi meu único plano, eu descobri que a beleza estava no caminho, sem precisar de um final.
Eu não perdi o juízo… foi meu juízo que perdeu a batalha para minha alma, quando ambos, dentro de mim, lutavam por minha vida!

It was when I ran aimlessly, that I found the most accurate ways.
It was without a map that I came to myself when I was not even looking for me!
When chance was my only plan, I discovered that beauty was on the way, without needing an ending.
I did not lose my mind ... it was my judgment that lost to my soul, the battle inside me that both were fighting for my life!

Por Luís Augusto Menna Barreto

quarta-feira, 23 de janeiro de 2019

pensamentos perdidos: ... alma! - lost thoughts: ... soul!

  

Quero ouvir o silencioso estertor da relva sendo dobrada pelas costas que deito na grama... quero acompanhar o efêmero existir do fio de fumaça que subirá da expiação... quero sentir-me conectado à Terra que me envolverá... 
... quero olhos abertos para sentir se era juízo ou alma dentro de mim; e, se havia os dois, qual gritou mais forte...! 

I want to hear the silent rustle of the grass being folded by the back that I lie on the grass ... I want to follow the ephemeral existence of the smoke that will rise from the atonement ... I want to feel connected to the Earth that will surround me ...
... I want open eyes to feel if it was judgment or soul within me; and if there was the two of them, which one of them screamed louder ...!

Por Luís Augusto Menna Barreto

sexta-feira, 18 de janeiro de 2019

poesia de ver: ... imponderável! /// poetry to see: ... imponderable!


Hoje, quero o caminho do imponderável... o caminho do inusitado... da surpresa da vida...
Quero dobrar as esquinas que não conheço, receber o vento vindo da praia que nem vejo ao longe com o sol nos olhos... 
Quero caminhar com um sorriso inderrotavel... Hoje, só hoje, quero estar vivo... 
Vem comigo.

Dos caminhos da Fazenda Bela Vista
Luís Augusto Menna Barreto

/// 

Today, I want the path of imponderable ... the way of the unusual ... the surprise of life ...
I want to bend the corners I do not know, to receive the wind coming from the beach that I can not even see in the distance with the sun in my eyes ...
I want to walk with an indelible smile ... Today, just today, I want to be alive ...
Come with me.

From the paths of Fazenda Bela Vista
Luís Augusto Menna Barreto

sábado, 12 de janeiro de 2019

Terceiro Micro Conto de Amor /// Third Micro Tale of Love


Ele trabalhava muito… e sempre que chegava em casa, em seu Jaguar, a menininha via-o sair do carro usando aquele terno maravilhoso, e corria para ele. Antes que ela conseguisse abraça-lo, ele lhe entregava um presente, tocava em sua cabeça e ia para o escritório que tinha também em casa, atender mil telefonemas, e fazer video conferências. 
… era sempre um maravilhoso presente.
Depois de algum tempo, ela notou que ele andava mais tenso nas suas video reuniões. 
Até que passou algum tempo, e ele não apareceu mais naquele carro grande. Não usava mais ternos maravilhosos.
Ela o via em pé, rezando, pedindo para que Deus fizesse tudo voltar a ser como antes.
Até que passou algum tempo, e ela viu quando ele desceu de um ônibus, usando uma camisa comum, com o nome de uma loja. Ele não trazia nenhum presente. Sem ter presente nas mão para dar para a menininha, ela correu para ele, e pode abraça-lo.
Como não havia mais video conferências a serem feitas, ele ficava sentado, no pátio da casa simples para onde se mudaram, e ficava com ela até o sol por-se.
Algum tempo depois, ela passou a ve-lo ajoelhado, rezando. Ele não pedia. Ela o via agradecer.
Ele havia compreendido que amor não era dar.
Havia compreendido que amor, era dar-se.

*Para ler a versão revisada e aprovada pela curadoria do blog, CLIQUE AQUI!

Por Luís Augusto Menna Barreto



Third Micro Tale of Love

He worked hard ... and every time he got home, in his Jaguar, the little girl watched him get out of the car wearing that wonderful suit, and ran for him. Before she could hug him, he handed her a gift, touched his head and went to the office he also had at home, answering a thousand phone calls, and making video conferences.
... it was always a wonderful gift.
After a while, she noticed that he was tense in his video meetings.
Until some time passed, and he did not show up in that big car anymore. He wore no more wonderful suits.
She saw him standing, praying, asking God to make everything go back to the way it was before.
Until some time passed, and she watched as he got off a bus, wearing an ordinary shirt, named after a shop. He did not bring any gifts. Without having gifts in hand to give to the little girl, she ran to him, and can hug him.
As there were no more video conferences, he sat in the courtyard of the simple house where they moved, and stayed with her until the sun went down.
Some time later, she saw him kneeling, praying. He did not ask. She saw him thank God.
He had realized that love was not giving something.
He had understood that love was giving to himself.


By Luís Augusto Menna Barreto