Parte 6
— Como ela está? — perguntou-lhe Dora, já fechando o saco de batatinhas que ele sempre pedia para viagem.
— Não feche…
Dora olhou para ele. Então, abriu novamente o saco de papel com as batatinhas, e entendeu que ele queria conversar.
— … tem dias, que eu não a vejo.
Dora continuou em silêncio. Sabia que aquele era o momento de olhar para ele, acolhe-lo com o olhar, e esperar que ele falasse.
— Eu a tenho visto menos, desde…
— Desde…?
— … desde que nos encontramos no supermercado. Desde aquele dia, tem dias que eu não a vejo. Tenho medo de perde-la, Dora.
Dora sorriu. Aquele sorriso acolhedor. Ao mesmo tempo, em que pareceu entender muitas coisas.
— Faça o caminho de volta!
— O quê?
— Querido, o amor deixa pistas. Às vezes, é preciso fazer o caminho de volta, seguindo as pistas. Se você acha que o amor está ficando distante, talvez seja hora de, em vez de ir adiante, voltar. O amor deixa pistas, siga-as. Redescubra o que faria ela se apaixonar antes. Volte pelo caminho, e reencontre as respostas.
Ele olhou para Dora e sabia o que ela diria naquele instante.
— Hoje, é por conta da casa. As batatinhas e o conselho…
E então, repetiram juntos:
— … mas só se você seguir!
…
Era comum demais, grifes e lojas de moda solicitarem “amizade" no Instagram dela. Tinha de mante-lo privado. Todos de alguma forma queriam “conquista-la” para terem boas avaliações. O mercado da moda era sua profissão. Como gostava de moda e de economia, especializou-se em ações de empresas e grifes de moda. Trabalhava na corretora do marido, mas dois andares abaixo e em horários diferentes. Nem lembrava quando fora a última vez que o encontrara na empresa. Estava olhando, distraída, os inúmeros pedidos de “solicitação de amizade” em sua conta, e um, em especial, chamou-lhe a atenção: @misscigarrete. Pelo que lembrava, esta grife não estava no mercado de ações. Era de uma dona que mantinha, a empresa, ainda, como uma sociedade limitada, e ainda tinha condições de ter todas as decisões sob seu controle. Por que esse nome era familiar…? Resolveu visitar a conta e sorriu: “mas claro! Bel!" A inseparável amiga da escola! Até a sexta série, eram inseparáveis. Depois, Bel trocou para uma escola mais sofisticada e, em seguida, quando todos começaram a ir para a faculdade, Bel foi para Milão, na Itália, enquanto ela ingressou na PUC, no curso de economia. “Meu Deus, como eu nunca havia ligado isso?”.
Aceitou imediatamente a solicitação em sua conta no Instagram e em seguida veio a mensagem privada:
“Pq vc n me visitou ainda? E como vc conseguiu esconder isso de mim? Achei que ainda era casada com o corretor! Estou passada, amiga! Ele? Nem acreditei! Vamos conversar qualquer dia desses?”
“Amiga, há quanto tempo…” Ela se deteve com os dois polegares em suspenso sobre o minúsculo teclado do iPhone. Ela não se separara, era casada com "o corretor". O que mais lhe intrigara, fora o “Ele? Nem acreditei!”. Deletou a mensagem que começara a digitar. Queria e não queria, ao mesmo tempo esclarecer aquilo, rever Bel depois de tantos e tantos anos, e conversar. Porém, algo dentro de si, tinha algum medo. “Ele? Nem acreditei!”. Ela queria poder sonhar por mais algum tempo com esse “Ele”… Queria vestir All Star e Jeans em um sonho onde passearia com “Ele" e comeriam batatinhas no carrinho da Dora.
"Dora"! De repente, sentiu necessidade de comer batatinhas.
Luís Augusto Menna Barreto
15.8.2020
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