domingo, 27 de setembro de 2020

Um Conto Sobre um Amor Guardado - parte 8

 


Parte  8


— Como assim? — Bel perguntou com espanto.

— Eu continuo casada. Só isso. Com o “corretor”…! — Ela sorriu ao pronunciar “o corretor” que era como como Bel referia-se ao marido. 

— Amiga! Então você está tendo um caso? Conta!

— Não… — Ela respondeu reticente!

— Hum… porque eu sinto que você tem muito para contar-me?!

— Eu… eu não estou tendo um caso. 

— E como você explica ele ter ido comprar um presente pra você? Aliás, uma blusa maravilhosa da minha nova coleção! Não esconda nada de mim! 

—Tudo bem, eu conto tudo… mas, antes, vamos começar com você me dizendo quem é exatamente o “ele” que você fala?

Longe daquele café onde as amigas retomavam o fio de uma amizade em suspenso por muitos anos, ele limpava a cozinha e cortava, com cuidado, um pedaço apodrecido da última laranja que estava guardada para fazer o drink de cointreau que ela gostava. 

A caixa com a blusa que ele sequer soube quanto custara, estava em cima da mesinha, à frente do sofá, onde ele colocava sempre o drink pra ela. “O amor deixa pistas”, dissera Dora. “Espero que ela ache as pistas… porque eu jamais perdi o rastro do amor”, pensava.

— Nossa! O que você coloca nessas batatinhas? Nunca comi nada tão delicioso!

— Elixir da sinceridade! Então, pare de querer enrolar.

— Eu não estou enrolando você, Dora…

— Ah, isso eu sei, meu bem! A mim, você nem conseguiria enrolar. Estou falando para parar de enrolar a si mesma! 

— Eu não sei o que fazer.

— Querida, se você não sabe o que fazer, é hora de fazer uma pergunta.

— Ah, Dora, eu tenho tantas perguntas.

— Não. Você tem a resposta. Mas não está fazendo a pergunta.

— Que pergunta?

— A única que importa, enquanto estamos vivos: “Você está feliz”?

Ela ficou sem palavras. E a batatinha que havia pego no pacote de papel ficou suspensa em sua mão. Sim, ela tinha a resposta. E compreendeu que sempre evitara fazer esta pergunta.

O silêncio foi novamente quebrado por Dora:

— Talvez, você devesse vestir jeans novamente. Amanhã é quarta-feira, dia em que ele faz compras.

Ao final da tarde seguinte, houve um pequeno e incomum prejuízo nas operações da carteira de ações gerida por ela. A secretária estranhou sua aparente indiferença em relação aos resultados do dia e estranhou, também, ve-la novamente de jeans. 

— … está ao telefone, na linha 2. Posso passar? — Perguntou-lhe a secretária, com algum nervosismo por conta da grosseria do outro lado da linha.

— Não.

— Perdão… "Não"? Mas é o Dr. Arthur, CEO da maior empresa da sua carteira! O que eu digo pra ele?

— Diga-lhe que fui comprar laranjas. — E ela saiu, deixando a secretária atônita. Era a primeira vez que ela parecia não se importar com o que poderia ser um início de crise no trabalho. Mas ela parecia leve.

— Senhor, perdoe, mas ela não pode atender, porque está saindo para comprar laranjas. — A secretária pareceu nem ouvir os insultos do outro lado da linha. Sorriu ao ve-la sair. E reparou como ela ficava bem vestindo jeans.


Luís Augusto Menna Barreto

23 de agosto de 2020


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segunda-feira, 21 de setembro de 2020

Um Conto Sobre um Amor Guardado - Parte 7





Parte 7


As palavras de Dora sempre o animavam. Ele comeu as batatinhas no ônibus. Pensando nas pistas que o amor deixa, e onde encontra-las. 

Chegou em casa sem o mesmo ânimo de outros dias, e suspirou antes de abrir a porta, porque de alguma maneira, sabia que encontraria a casa vazia. Entrou. 

O Cointreau estava na mesma medida em que o havia deixado. As laranjas estavam na pequena cesta em cima da pia. Estava sem fome depois das batatinhas da Dora. Sentou-se no sofá, com o peito apertado e pensou: “é tudo tão vazio quando você não está comigo”. Pegou o controle remoto. Passou pelos canais de esportes. Seu time estava jogando. Mas não conseguiu assistir. Levantou-se, colocou o DVD de Shakespeare Apaixonado, e adormeceu antes da quinta cena…

Quando acordou, no dia seguinte, depois do banho, colocou uma das laranjas no lixo, porque começava a apodrecer. Ainda pensando nas palavras da Dora, sobre as pistas do amor, decidiu que usaria seu horário de almoço, no trabalho, para fazer caminhos diferentes…

Trabalhou ansioso pela manhã, e o tempo parecia não passar, entre os enormes rolos de tecido naquele depósito quente em que conferia o estoque. Assim que ouviu o sinal do intervalo de almoço, tirou o jaleco de trabalho apressou-se em direção àquele quarteirão de lojas chiques. Desde pequena, na escola, ela gostava de roupas chiques, que ele dificilmente poderia comprar. Falava de marcas que ele sequer entendia. Mas ele havia juntado dinheiro por um tempo, para comprar taças novas, talvez de cristal, para o cointreau dela. Achou que poderia usar o dinheiro para comprar alguma roupa chique. 

Consumido pela ansiedade, e completamente confuso em frente às vitrines, quase não acreditava nos preços. Algumas peças de roupa que ele achava tão simples eram metade do que ganhava por mês. Algumas, chegavam a custar mais que dois meses de seus salários.

Então, já quase desanimado, e fazendo às pressas, contas de quanto poderia pagar por mês, ouviu de dentro da loja:

— Você?!!!! Não acredito! É você mesmo?!

Foi com espanto, que ele reconheceu Bel, colega de escola, que não via há mais de vinte anos. Ela sorria contente, e veio de braços abertos! Abraçou-o com a saudade de velhos amigos, pegou sua mão e começou a leva-lo para dentro da loja.

— Eu… não sei se é bom eu entrar aí. Acho que esses preços não são pra mim! — Ele disse sorrindo divertido!

— Ah!, não vou deixar você sair daqui sem levar alguma coisa! Eu ajudo você. Venha. Conte-me tudo! O que você tem feito, por onde anda, o que fez esses anos todos e, principalmente: para quem, você estava olhando roupas! Eu vejo paixão nesses olhos! Conte-me!

Ele se atrasou no horário de almoço. Depois compensaria. Sabia que seria repreendido, mas também sabia que era um funcionário terceirizado muito bom, naquele imenso depósito da aduana.

Voltava apressado, com uma caixa linda, levando uma blusa branca de alças, que jamais teria dinheiro para comprar. Mas Bel fez questão que ele levasse, sem sequer deixa-lo propor como pagar. Sobretudo, depois que ela insistiu para ver a foto da mulher que claramente ocupava todo o coração dele:

— Bem… eu só tenho uma foto antiga…

— Mostra logo!

Ele, com cuidado, tirou do fundo da carteira, uma foto quase amarelada… e ela própria reconheceu-se, como uma das três pessoas da foto: era um recorte da foto da turma do 6º ano do colégio, em que estava ele, Bel, e ao lado de Bel, ela. A melhor amiga de Bel, nos tempos da escola.

— Nãããããããoooo… sério?!

Ele sorriu.

— Meu Deus, faz séééééculos que não falo com ela! Você tem de traze-la aqui!

Depois que ele saiu, Bel não aguentou de ansiedade, e, tomada por uma natural nostalgia, procurou o Instagram da antiga amiga, para falar de sua surpresa!


Luís Augusto Menna Barreto

15.8.2020


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domingo, 13 de setembro de 2020

Um Conto Sobre um Amor Guardado - parte 6


Parte 6


— Como ela está? — perguntou-lhe Dora, já fechando o saco de batatinhas que ele sempre pedia para viagem.

— Não feche…

Dora olhou para ele. Então, abriu novamente o saco de papel com as batatinhas, e entendeu que ele queria conversar.

— … tem dias, que eu não a vejo.

Dora continuou em silêncio. Sabia que aquele era o momento de olhar para ele, acolhe-lo com o olhar, e esperar que ele falasse.

— Eu a tenho visto menos, desde…

— Desde…? 

— … desde que nos encontramos no supermercado. Desde aquele dia, tem dias que eu não a vejo. Tenho medo de perde-la, Dora.

Dora sorriu. Aquele sorriso acolhedor. Ao mesmo tempo, em que pareceu entender muitas coisas.

— Faça o caminho de volta!

— O quê?

— Querido, o amor deixa pistas. Às vezes, é preciso fazer o caminho de volta, seguindo as pistas. Se você acha que o amor está ficando distante, talvez seja hora de, em vez de ir adiante, voltar. O amor deixa pistas, siga-as. Redescubra o que faria ela se apaixonar antes. Volte pelo caminho, e reencontre as respostas.

Ele olhou para Dora e sabia o que ela diria naquele instante.

— Hoje, é por conta da casa. As batatinhas e o conselho…

E então, repetiram juntos:

— … mas só se você seguir!

Era comum demais, grifes e lojas de moda solicitarem “amizade" no Instagram dela. Tinha de mante-lo privado. Todos de alguma forma queriam “conquista-la” para terem boas avaliações. O mercado da moda era sua profissão. Como gostava de moda e de economia, especializou-se em ações de empresas e grifes de moda. Trabalhava na corretora do marido, mas dois andares abaixo e em horários diferentes. Nem lembrava quando fora a última vez que o encontrara na empresa. Estava olhando, distraída, os inúmeros pedidos de “solicitação de amizade” em sua conta, e um, em especial, chamou-lhe a atenção: @misscigarrete. Pelo que lembrava, esta grife não estava no mercado de ações. Era de uma dona que mantinha, a empresa, ainda, como uma sociedade limitada, e ainda tinha condições de ter todas as decisões sob seu controle. Por que esse nome era familiar…? Resolveu visitar a conta e sorriu: “mas claro! Bel!" A inseparável amiga da escola! Até a sexta série, eram inseparáveis. Depois, Bel trocou para uma escola mais sofisticada e, em seguida, quando todos começaram a ir para a faculdade, Bel foi para Milão, na Itália, enquanto ela ingressou na PUC, no curso de economia. “Meu Deus, como eu nunca havia ligado isso?”.

Aceitou imediatamente a solicitação em sua conta no Instagram e em seguida veio a mensagem privada:

“Pq vc n me visitou ainda? E como vc conseguiu esconder isso de mim? Achei que ainda era casada com o corretor! Estou passada, amiga! Ele? Nem acreditei! Vamos conversar qualquer dia desses?”

“Amiga, há quanto tempo…” Ela se deteve com os dois polegares em suspenso sobre o minúsculo teclado do iPhone. Ela não se separara, era casada com "o corretor". O que mais lhe intrigara, fora o “Ele? Nem acreditei!”. Deletou a mensagem que começara a digitar. Queria e não queria, ao mesmo tempo esclarecer aquilo, rever Bel depois de tantos e tantos anos, e conversar. Porém, algo dentro de si, tinha algum medo. “Ele? Nem acreditei!”. Ela queria poder sonhar por mais algum tempo com esse “Ele”… Queria vestir All Star e Jeans em um sonho onde passearia com “Ele" e comeriam batatinhas no carrinho da Dora.

"Dora"! De repente, sentiu necessidade de comer batatinhas.


Luís Augusto Menna Barreto

15.8.2020


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domingo, 6 de setembro de 2020

Um Conto Sobre um Amor Guardado - parte 5

 

Parte 5


O casal de amigos que os esperavam na marina para o passeio no veleiro, estranhou quando ela chegou de bermuda jeans e boné, no lugar do que seria o socialmente adequado: a calça cigarrete e um chapéu de abas longas, Dolce & Gabbana ou uma viseira Lagerfeld.

— Querida, como você está… despojada! — Disse-lhe a amiga. 

O marido, então fez o que parecia uma piada:

— Meu Deus! Eu saí de casa com você assim, ou você se trocou no caminho, enquanto eu dirigia?

Os amigos riram. Ela forçou um sorriso. Não fora uma piada. Ela tinha
certeza, que somente agora, o marido a notara.

O passeio de veleiro transcorreu como todos os outros: champanhe, canapés e conversas sobre coisas. Sempre sobre “coisas”! Por alguns instantes ela se sentia tão invisível quanto o casal de garçons do veleiro, que iam, vinham, mantinham as taças sempre cheias e os pratos abastecidos, mas pareciam invisíveis. Não lhes era dirigida uma palavra, senão ordens.

Foi então, que quando a mulher com a bandeja na mão passou próximo a ela, uma onda um pouco mais intensa balançou o veleiro, e caíram alguns canapés da bandeja. Em um gesto reflexo, ela se abaixou para pegar.

— Querida, deixe que eles juntem! Venha. — Disse-lhe a amiga.

— Meu Deus, o que há com você?! — Foi a segunda vez, naquele dia, que o marido dirigiu-lhe a palavra.

— O que houve? Você não teve um bom final de semana, não é mesmo? Ah!, mas eu tenho certeza que algumas batatinhas da Dora, farão melhorar seu dia! Conte o que houve!

Ela pensou no passeio de veleiro no sábado e em como se sentiu deslocada. No domingo, havia saído para correr pela manhã (o que não fazia desde que era solteira), conseguiu correr menos de 3 minutos, e caminhou o quanto pode. Quando voltou, pouco antes do meio dia, o marido estava no escritório que tem em casa, verificando algumas cotações de empresas estrangeiras. E pediu-lhe um martini. Foi somente quando ela respondeu ofegante que ele tirou os olhos da tela e perguntou se ela havia saído.

— Ei, você está aí? — Perguntou Dora. Estou esperando a minha história!

Ela se deu conta de que havia perdido o tempo por alguns instantes. E sorriu quase sem querer, quando percebeu que Dora nunca falava sobre “coisas”… era sempre sobre “alguém”!

Então, contou a Dora sobre seu final de semana.

Dora ouvia e comentava… E ela conseguiu até mesmo rir de si própria. Ficou ali, conversando, deixando as horas passarem, e naquele instante, simplesmente não se importou de deixar o tempo passar, de estar em uma esquina no centro, de chegar tarde em casa… O tempo simplesmente ia passando. Viu o anoitecer da calçada, viu Dora atender a todos e sempre ter um sorriso e algo especial para dizer a cada um. 

Surpreendeu-se quando ouviu Dora:

— Bem, é hora de fechar! São dois ônibus até em casa.

Ela ficou na dúvida sobre o que deveria fazer, e, mais uma vez, Dora falou:

— Não se preocupe, querida. Nem pense em dar-me carona! Eu moro muito longe dos bairros chiques…

— Eu… — ela se sentiu envergonhada.

— … e tem um gatinho que estou de olho e é cobrador da minha linha. Não posso deixar você me atrapalhar!

Ela sorriu. Sentia-se por tudo grata à Dora, que parecia sempre saber o que dizer. Finalmente olhou o relógio e pensou em apressar o passo. O que ele diria? Ela nunca chegava tarde!

— Querida… — Dora falou-lhe de longe — Não se apresse. Jamais se apresse por quem não vai notar sua falta. 

Ela não disse nada. Mas lembrou o que Dora dizia sobre os conselhos que dava e pensou: “não vou precisar pagar por este conselho”. Então, foi caminhando lentamente até o carro.


Luís Augusto Menna Barreto

8.8.2020


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domingo, 30 de agosto de 2020

Um Conto Sobre um Amor Guardado - parte 4

 


Parte 4


Foram dias tristes que se seguiram. Todos os dias ela acordava com uma sensação de que algo lhe fora tirado… mas era algo que sequer chegou a ter. Não voltou ao supermercado onde o encontrou. Colocou o velho All Star rasgado no lixo, e, na antiga caixa, colocou o All Star novo e fechou-a, guardando além do tênis, os suspiros de quem sabia que a caixa ficaria no fundo do closet por muitos anos…

Entregara-se à rotina, sem questionamentos… decidiu que o tempo haveria de apagar aquele surto de sentimentos que vivera, e reacostuma-la a chegar em casa e falar frases automáticas com o marido, reacostuma-la a fingir o prazer quando em algumas noites ele chegava já excitado na cama, reacostuma-la com cardápios elegantes e pessoas servindo-lhe sem ousar dirigir-lhe a palavra.

Então, uma tarde, quando pediu a sua assistente para que lhe trouxesse uma garrafa de água Perrier, e fora atendida com um "sim senhora”, tentou perguntar:

— Quem eu sou pra você?

— Perdão…? Como?

— Quem eu sou? Se você tiver de descrever-me para seu namorado, o que você diria?

— Eu não tenho namorado.

— Para suas amigas. Quem você diria que eu sou?

— Minhas amigas conhecem-na. Eu não tenho amigas fora da empresa.

— Deixa pra lá. Obrigado.

— Sim senhora.

Permaneceu mais um tempo, olhando a cidade lá embaixo, através da parede de vidro da sua sala. Então, levantou-se no meio da tarde e disse à secretária que cancelasse seus compromissos. 

De repente. Sentiu necessidade de comer batatinhas.

— Olá querida. Quer as batatinhas da Dora?

— Aceito uma, por favor. Vou comer aqui. Eu… eu sou aquela que há umas duas semanas veio perguntar p…

— Eu não esqueço um rosto, querida. E pelo que vejo, você está mesmo precisando das batatinhas da Dora. 

Ela não conseguiu dizer nada. Pegou as batatinhas, e ficou torcendo para que aquela mulher falasse mais alguma coisa.

— Você fica melhor de jeans.

— O quê?

— Você está muito elegante nesta roupa de de vinte mil reais. Mas você fica melhor de jeans. 

Ela tentou sorrir. Queria desesperadamente conversar uma conversa simples, honesta, sem que lhe devessem obséquios, e sem que precisasse fingir tédio com marcas e valores. Agradeceu em seu coração, por aquela mulher simples puxar conversa quase como se entendesse o seu desespero por falar com alguém. 

— Eu confesso que me senti muito bem de jeans — sorriu. — Mas eu me sinto confortável também nesta roupa — e colocou a mão ao lado do rosto, como para contar um segredo — … mas acho que custou “apenas" quinze mil.

— Querida, esse corpo magro fica perfeito nesta sua roupa. Mas o seu coração está no jeans.

Ela não soube o que dizer… Então, vasculhou na bolsa, para ver se tinha algum dinheiro em vez de apenas cartões para pagar as batatinhas.

— Não se preocupe, querida. Hoje, os conselhos e as batatinhas são por conta da casa.

— Você cobra pelos conselhos também?

— Só quando não seguem. Não gosto de desperdiça-los, porque são muito bons!

— Vou lembrar disso! 

Ela sorriu e foi saindo. Mas quando estava há uns 5 metros, Ouviu de Dora:

— Ele está preocupado.

Ela congelou. Virou-se devagar. Sabia de quem Dora estava falando.

— O quê?

— Ele está preocupado. Disse que sua esposa anda triste. 

Naquela noite, enquanto o marido estava vendo canais de esportes, ela desejou não haver jogado fora o cointreau. 


Luís. Augusto Menna Barreto

27.7.2020


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domingo, 23 de agosto de 2020

Um Conto Sobre um Amor Guardado - parte 3


Parte 3


Naquele dia, quando seu marido acordou, estranhou que ela ainda estivesse em casa. 

Mas se limitou a dizer “oi amor”, enquanto ela parecia ver uma revista no sofá. 

Da porta, ele ainda falou: 

— Peça para a Vera preparar uns wraps de truta para eu ver o jogo dessa noite? Ah… e você poderia separar um vinho Quinta do Vallado para levarmos ao Olavo quando formos lá?

Ele não esperou resposta. Mas ela também sequer havia conseguido ouvir direito a pergunta. Quando a porta fechou, ela correu para o closet. Estava atrasada, mas estava decidida. Colocou uma antiga calça Levi Strauss, com costuras reforçadas com rebites, de uma série “revival” da antiga linha que catapultou Levi Straus à fama. Colocou uma blusa branca, de alças e pegou aquela velha caixa do closet. 

Era a primeira vez em mais de 15 anos, que colocava novamente um All Star… e riu, quando nos primeiros passos, o jeans do All Star original desprendeu-se da borda do tênis. Pegou uma sandália Jimmy Choo que combinasse com o jeans, e saiu.

No trabalho, todos estranharam ao ve-la de jeans… mas de alguma forma, ela continuava elegante. Embora houvesse chegado atrasada, saiu apressada ao final do expediente, porque queria passar no shopping, naquela loja da All Star… Comprou, apressada, um All Star branco, e sentiu-se divertida, ao caminhar sem salto, porque saiu da loja com ele, e com as sandálias na caixa do tênis. Correu para o supermercado. Temia não o encontrar, porque estava atrasada… ao mesmo tempo, sequer sabia o que faria ou diria se o encontrasse. Estava experimentando uma sensação que nem lembrava conhecer.

Ela ficou mais de 40 minutos por entre as prateleiras do supermercado… e ele não apareceu. Talvez tivesse chegado tarde, tendo atrasado por conta da ida no shopping.

De alguma forma, ficou triste por não ter encontrado aquele homem estranho, que lhe era, estranhamente, familiar.

Mas então, lembrou-se das batatinhas, e decidiu ir até aquele carrinho que vendia batatinhas. Quase hesitou ao chegar.

— Olá querida. Quer as batatinhas da Dora?

Ela sorriu:

— Eu quero. 

— Pra viagem?

— Vou comer aqui.

— Você não é a mesma que ontem esteve aqui e não quis provar as minhas batatinhas? Já sei: você se arrependeu, não foi? Todos se arrependem de não provar as batatinhas da Dora! 

Ela nem sabia explicar, mas parecia contagiada por aquela mulher simples, por estar de jeans, por estar em uma esquina, conversando com pessoas que há muito não conversava, experimentando uma das vidas que suas escolhas passadas fizeram-na não mais encontrar. 

Nos restaurantes, no clube, em casa, sempre que pedia algo para que lhe servissem, ninguém fazia comentários ou puxava conversa. Limitavam-se a uma reverência, ou a um automático “sim senhora”. Mas ela estava ali, conversando com uma vendedora de batatinhas em uma esquina do centro da cidade. Então, arriscou:

— Será que você não conhece um amigo meu? Ele costuma vir aqui neste horário e comprar batatinhas para viagem…

— Ah, o Marcos? Eu conheço, sim! Gente boa. Mas vou lhe falar: Nem adianta tentar nada com ele, querida. Ele é perdidamente apaixonado pela mulher dele! 

Ela não soube o que dizer… algo nela, como se fosse uma esperança, parecia ter sido quebrado. Esforçou-se por perguntar:

— Você a conhece?

— Não. Mas dá pra ver nos olhos dele o quanto é apaixonado. E pelo que ele fala, ela também é apaixonada por ele! Nem gaste seu tempo, querida!

— Não… é só um amigo…! Queria encontrá-lo…

— Venha amanhã!

— O quê?

— Venha amanhã. Ele sempre compra batatinhas nas segundas, quartas e sextas para levar para ela! Religiosamente. Pouco antes das 19h, ele aparece!

Ela sabia, então, como o encontrar… mas se sentiu tola… de repente, a roupa, o tênis, nada fazia sentido. O que ela pensara? Que num passe de mágica, num conto de fadas, teria outra vida? E com um estranho que vira somente duas vezes? Um lunático que a confundiu, um louco que achou que ela fosse outra pessoa? 

— Vou querer mais uma, por favor… pra viagem.

Quando chegou em casa, mais uma vez ouviu a TV ligada na ESPN, o marido com a cerveja… 

Diferente de outros dias, sentou-se ao lado dele, e ofereceu-lhe batatinhas… queria sentir-te dividindo o momento com alguém. Queria de alguma forma, sentir aquilo que Dora havia falado sobre o estranho e sua esposa.

— Amor, o que houve com você? Acha que vou deixar de comer esses Wraps de truta fumada com queijo branco, pra comer essas batatinhas nesse saco todo gorduroso? Isso é nojento!

Ela se levantou em silêncio. Colocou o saco de batatinhas no lixo. Tomou um banho demorado. Depois, deletou a página da internet, em que vira a receita do drink de cointreau com laranjas. Esvaziou o cointreau, e apenas tentou dormir.

 

No bairro simples, ele estava no banho, mas falava alto: 

— Meu amor, pelo jeito que você está cansada, seu dia foi difícil. Pode deixar a louça comigo de novo. Descanse. Amanhã, trago novamente suas batatinhas e vamos ver um bom filme! Você quer massagem com creme nos pés para relaxar e dormir?

Ele podia ouvir as respostas. Respostas que jamais ecoaram no apartamento vazio.


Luís Augusto Menna Barreto

26.7.2020


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domingo, 16 de agosto de 2020

Um Conto Sobre um Amor Guardado - parte 2


Parte 2


Quando ele acordou, ele foi até a cozinha e lavou a louça. Sorriu ao ver a taça de drink vazia. 

— Hoje, eu vou comprar mais cointreau, não se preocupe. — Falava por cima do ombro, em direção ao quarto… vazio.

Estava feliz. Planejara sair do trabalho e, novamente, passar no supermercado. O dinheiro que ganhava não era muito folgado, mas abria mão de várias coisas para poder ter sempre o cointreau, e as batatinhas compradas no carrinho da esquina, tão simples, mas que tinha certeza que era as que ela mais gostava.

Na parte nobre da cidade, ela acordou cedo, levantou-se quieta para não acordar o marido que dormia pesado ao seu lado. Quando foi vestir-se para o trabalho, por um instante puxou uma caixa de sapatos que mantinha no fundo do closet, mantinha sem saber porquê, talvez para lembrar-lhe quem havia sido, os caminhos trilhados, lembrar das escolhas que não fez, e que deixaram uma vida inteira não vivida. Não chegou a abrir a caixa, mas sabia que ali estava o velho tênis All Star, do tempo em que ainda estava na faculdade e sonhava com romances e viagens de mochila nas costas. Suspirou, e pegou o scarpin Yves Saint Lourent preto, comprado na Galleria Vittorio Emanuele II, Piazza del Duomo, em Milão, por € 850,00, que combinava com o tailleur escolhido para o dia de trabalho.

Naquele fim de tarde, depois de um dia em que se viu ansiosa sem aparente razão, e fazendo força para não pensar nos porquês, para não ter de encontrar razões para si mesma, ela decidiu ir, novamente, até o mesmo supermercado onde encontrara aquele estranho que lhe parecera familiar. Controlando para estar no supermercado mais ou menos no mesmo horário do dia anterior, ela ficou longe, mas observando discretamente, o corredor onde estavam as bebidas. Sem esperar muito, ela o avistou, pegando uma garrafa de cointreau, e depois, escolhendo laranjas. Assim que ele pesou as laranjas, viu-o pegar a carteira do bolso e fazer contas… viu-o retirar duas laranjas de dentro do saco, pesar novamente, olhar a etiqueta do valor e então se dirigir ao caixa. Decidiu que o seguiria. Estava intrigada demais. 

Viu-o sair a pé do supermercado e então ela deixou seu carro no estacionamento e seguiu-o. A dois quarteirões dali, havia uma banca de revistas próximo à esquina, onde havia um carrinho vendendo alguma espécie de lanches. Tomou coragem e aproximou-se, fingindo ver as revistas da banca, quando ele parou no carrinho de comida da esquina. Uma senhora morena e com um grande sorriso cumprimentou-o como quem já o conhece de muito tempo. Ela fingiu interessar-se por uma revista e tentou ouvir o que diziam:

— O de sempre?

— Isso mesmo! 

— Pra viagem? 

— Sim, bem embaladinho, porque ainda tenho 40 minutos no ônibus.

— Você nunca come na viagem?

— Não! Só quando chego em casa! Ela adora essas batatinhas com o… Ei é o meu ônibus. Até amanhã!

— Até amanhã. Mande um abraço pra ela!

Ele saiu correndo e entrou no ônibus. Ela não o poderia acompanhar. Decidiu ir até o carrinho de lanches. Viu que eram batatas fritas na hora, em uma imensa panela com um óleo já amarelado. Parou bem próximo.

— Olá, querida! Quer as batatinhas da Dora?

Ela hesitou… em silêncio balançou a cabeça e saiu em direção ao estacionamento do supermercado.

Ao chegar em casa, ouviu o barulho da TV na ESPN, e viu o prato, já quase no fim, dos tomatinhos com boursin. 

— Amor, já que você chegou, poderia pegar outra cerveja para mim? Não quero perder nenhum lance desse jogo. Combinei de irmos à casa do Olavo no final de semana. Ele quer que joguemos uma partida de tênis. Tudo bem pra você?

— Sim… — ela respondeu sem convicção. De repente, olhando sua geladeira, e o armário, sentiu vontade de ficar descalça e comer batatinhas… Tirou o sapato ali na cozinha mesmo. Mas não havia batatinhas. Pegou uma panela e perguntou-se onde Vera, a empregada guardaria o óleo de soja? Achou-o. Batatas. Teria batatas em casa…….?

— Amor?! A cerveja, por favor? Meu dia foi muito duro na corretora. 

Naquela noite, em um outro apartamento, muito mais simples, longe do bairro nobre, bem mais tarde, ele dormia sentado no sofá, com o menu de Shakespeare Apaixonado na tela, e o leve zunido do antigo aparelho de DVD que terminara todos os créditos do filme e voltara ao menu. O saco de batatinhas estava vazio e a taça de vidro, com o drink de cointreau e laranjas, jazia com o canudinho pendente… Se é possível sorrir dormindo, aquilo era um sorriso…

 

Ela demorara a dormir. Não encontrou batatas. Mas decidiu que as comeria…


Luís Augusto Menna Barreto

26.7.2020


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domingo, 9 de agosto de 2020

Um Conto Sobre um Amor Guardado - parte 1

Parte 1


Um dia, enquanto pegava uma garrafa de Cointreau na prateleira do supermercado, ele a encontrou. 

A menina pelo qual se apaixonara na escola, e jamais ousou dizer. Depois, a vida seguiu e ele a guardou no coração por mais de vinte anos. Nunca houvera espaço para qualquer outra, em seu coração. 

Todos os dias, quando chegava em casa, sozinho, imaginava-se contando a ela como foi seu dia; perguntando como foi o dela! Imaginava-se sorrindo lavando a louça junto com ela; depois, sentando-se no sofá para ver qualquer filme que ela escolhesse, até que adormeceriam lado a lado e, no meio da madrugada, ele acordaria, pega-lá-ia no colo, e colocá-la-ia na cama. Ficaria olhando ela dormir, até ele próprio adormecer...

Imaginava-a nas cenas mais triviais, todos os dias de sua vida. O que dela não sabia, construía no seu coração. E, com o tempo, foi-se apaixonando a cada dia. Tinha certeza que a amava e, distraído, chegou a responder, sem querer, algumas vezes, que não era solteiro... não por mentir! Porque, em seu coração, ele tinha alguém!

Então, naquele dia, no supermercado que frequentava há mais de vinte anos, ele a encontrou. 

E foi estranho... cumprimentou-a como se houvesse falado com ela pela manhã. Ela o olhou em silencio, naturalmente surpresa, sem entender e sem lembrar dele. Ele sorriu:

— Você está estranha... teve um dia difícil no trabalho? ... laranjas! Precisamos de laranjas. Deixa que eu pego. Vou fazer o suco com Cointreau que você gosta, pra relaxar! 

Ele largou a garrafa de Cointreau no carrinho de compras dela. Quando se dirigia para a sessão das frutas, ele se virou e disse:

— Você parece cansada. Vá para casa! Eu faço o restante das compras, e, quando chegar, vou preparar o jantar e hoje a louça será toda minha!

Ela continuava sem entender. E, por mais estranho que fosse, parecia que as frases daquele homem vinham carregadas de ternura... não... mais que isso: havia amor na forma como ele falava, e de um modo completamente estranho e talvez desconhecido, ela se sentiu abraçada por aquelas palavras.

Ela saiu devagar, pensativa. Não o associou a ninguém que conhecesse, por mais que houvesse algo distante e familiar naqueles olhos... 

Aquela cena, tão inusitada e trivial ao mesmo tempo, de alguém que certamente a confundiu, ou era louco ou esquizofrênico, no entanto a fez experimentar uma sensação que há muito não sentia... a sensação de ser amada nos momentos mais quotidianos, nas situações mais comuns...

Lembrou-se de que tinha laranjas em casa. E decidiu que levaria a garrafa de Cointreau que aquele estranho largara em seu carrinho de compras... 

... 

Quando ele chegou em casa, guardou as compras, e começou a descascar as laranjas... e procurou a garrafa de Cointreau...

— Você esqueceu o Cointreau... mas não há problema; ainda há um pouco que dará para um drink para você! Eu faço sem Cointreau para mim. Você está precisando mais do que eu!

...

Há alguns quarteirões de distância, enquanto ela abria o MacBook, ouviu a voz indiferente do marido:

-- Você colocou a cerveja na geladeira? Hoje tem jogo! Cointreau? Você comprou Cointreau? Pra quê? Você sabe que eu gosto é de cerveja!

Neste mesmo instante, ela digitava no site de busca: “cointreau laranja drinks”.

(... continua... parte dois no dia 17.8.2020)


Luís Augusto Menna Barreto

9.4.2020


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