quinta-feira, 4 de junho de 2026

Virada - parte 1

 

Um texto de Zoe Ferraz

“Consegue fazer as contra razões do XXXX até sexta?”

Isso ficou martelando na minha cabeça. Eu tinha ficado muito puta. Não respondi. Não diminuí o passo.

Foda-se. Ele que me mandou ir pra casa. Não teve a coragem nem de dizer se eu estava ou não demitida. Eu sei que as “Emilys” ficaram sorrindo. Mas eu também sei que era um sorriso nervoso. O tipo de sorriso que gostariam que eu visse na cara delas, porque era o sorriso “bem feito sua vadia”. Mas eu sei que nem isso se sustentava, porque elas poderiam estar sorrindo, mas as duas sabem que bastaria eu dar meia volta e o chefe não ia ter colhão pra aguentar a situação. Nenhum chefe que fica sonhando em te comer tem colhão pra te mandar embora de verdade.

Quando ele gritou “consegue fazer as contra razões do XXXX até sexta?”, foi a maneira menos humilhante que ele achou de tentar fazer eu voltar. Eu podia sentir o peso da angústia dele, quando eu nem diminuí o passo.

Ele não ia dar o caso para nenhuma das Emilys. São advogadas medíocres. Não são ruins. São medíocres: conseguem fazer apenas o que todo mundo faria, o que tem na internet, o que o chat GPT faz. Se fossem melhores que isso, não estariam ali.

Por que então, eu estava ali? Porque sou uma porra louca, porque não posso ter um escritório meu e ser a responsável por captar clientes e mantê-los felizes, enquanto arranco o couro deles e cometo o assalto de fazerem eles pagarem mais em honorários, do que perderiam com a causa se não me contratassem.

Eu sei que ele ia passar o caso pro Gravata de Crochê. É o mais competente. Mas é gago. A porra de um advogado gago!

Mas a verdade é que na sexta-feira, eu fui na sede da cidade, e pedi pra usar o computador da lojinha de xerox. O garoto que cuida de lá tem uns 19 anos, e espinhas na cara. Nem precisei me esforçar. Eu levei umas duas horas fazendo as contra razões. Conhecia todo o caso e já tinha baixado o PDF com a sentença e a apelação no meu celular e tinha enviado para mim mesma por e-mail. Acho que o guri fez umas trinta fotos minhas, disfarçando que tava fazendo selfie dele. Um frio gostoso e eu fui de saia e legging.

Eu fiz e enviei pro Gravata de Crochê:

“__________ Tudo bem?

Taí as contra razões. Não precisa dizer que fui eu que fiz."

Esperei por uns 20 minutos de propósito. Eu sabia que o Gravata de Croché iria mostrar correndo pro chefe. E chegariam e-mails.

Passei 20 minutos lendo site que eu achava que seriam sérios e virou só site de fofoca. Li sobre a Virgínia e o Vini Jr. A gente nota que o mundo tá uma merda, quando repara que isso vira notícia. No fim, parece menos pior do que ler qualquer coisa do Alexandre de Morais e Gilmar Mendes.

Quando abri o e-mail novamente, além de dois e-mails de amigos do Substack, tinha 3 do chefe e uma resposta do Gravata de Crochê.

Li primeiro os do Luís (Substack) e depois do Gravata de Crochê:

“Zoe

Ficou ótimo. Porque você mesma não protocola?

Mostrei para o Dr. XXXXX. Ele parece irritado por você não responder às mensagens dele no WhatsApp.

Tá surtando por causa da audiência da D. XXXXX no dia 3. Ela disse que exige que você esteja com ela na audiência.

Você poderia responder para o Dr. XXXXX?

Você voltará quando?

Dr. Gravata de Crochê”

Tudo bem, ele assinou o nome dele, mas eu gosto de Gravata de Crochê, por isso troquei.

O que aconteceu? Eu fui. Me despedi da tia e de todo mundo, tomei dois martelinhos (“shots”, mas lá ainda falam “martelinho”) da cachaça do alambique, e peguei o ônibus de volta.

Quanto mais o ônibus ia descendo a serra, mais eu sentia que voltava pra merda.

Passei em casa. Banho. Salto alto.

Cheguei na hora da audiência. O chefe tava lá em pessoa. Dava pra sentir o cheiro podre de suor dele, dentro do paletó da Hugo Boss. Suor de nervoso.

Sorriu pra mim como só os advogados sabem fazer, como se nada tivesse acontecido, mas era visível como o cu dele tava relaxando.

Dona XXXXXX me abraçou. A partir dali, ignorou completamente o chefe, mas acho que ele deu Graças à Deus por isso.

Entramos os três na audiência.

Não teve acordo. Quanto mais grana, menos acordo. Sempre assim. A promotora é uma lésbica de cabelo militar. Não dava pra saber pra que lado ia. O Juiz eu já conheço: separado e com fama de comer as estagiárias. Juiz da Vara de Família. Quase piada. Foi só eu deixar o óculos começar a cair pra ponta do nariz e olhar pouco pra ele, e pronto: ele deve ter me comido umas três vezes em pensamento. No fim, deferiu todas as antecipações de tutela que pedimos. A pensão de trinta mil e mais ele ficar pagando o básico: condomínio da cobertura e planos de saúde. Nova audiência marcada para agosto. Temos de arrolar os bens, descobrir a situação dos bens que descobrirmos e irmos prontas para a Guerra.

Ainda na frente da sala de audiência, eu me despedi.

— Zoe! Nada disso, vamos almoçar.

Era minha hora. Dei a facada:

— Não posso. Ele me demitiu. Hoje foi nossa última audiência juntas.


__________________


(puta que pariu, tem mais pra contar… mas cansei, vou parar aqui e colocar “parte 1” no título e quando tiver saco, escrevo a “parte 2".)


Zoe. Tô sem celular. Não me aporrinhem.


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Olá pessoal.

Os É a primeira vez que publico Zoe Ferraz. 

Como vocês podem notar, a escrita da Zoe é... peculiar! Isso não é uma hístória, ou uma série. Isso é a vida dela, aparentemente. 

Ficamos amigos no Substack (que eu não recomendo rsrsrsrsr) e tenho lido tudo que ela publica.  

Ao ler a Zoe, parece que estamos em uma série de TV, dessas que a advocacia é o pano de fundo para os dramas que acontecem. Mas ao interagir com a Zoe e outra amiga muito queria (que também já publiquei aqui - Maria Carmem Martiniano - "A Aliança Esquecida"), a gente descobre que é uma pessoa real, que tem uma autenticidade enorme, não gosta de hipocrisia e não tem meias-palavras (às vezes eu gostaria que tivesse). 

Mas os textos sempre são fortes. 

Não resisti e publiquei esse. Acho que o ideal teria sido pedir a permissão da Zoe para publicar desde o primeiro que ela postou no substack. Mas decidi começar pelo atual e pronto. 

Quem sabe, se gostarem, eu publico outros. 

Espero que os amigos do blog curtam esse texto. Não é crônica. É vida real.

Obrigado, Zoe. 


Luís Augusto Menna Barreto.

9 comentários:

  1. To aguardando a virada parte 2. Zoe é ótima, do seu jeito solto e verdadeiro. Conta os fatos e a gente acompanha. como se estivesse ao lado dela. Posso visualizar a cara da promotora, do juiz babaca e do gravata de croché. Parabéns , menina!!!

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    1. Tem muito talento nessa menina!
      Gostaria que ela pegasse alguma causa em Ananindeua, para acompanhar seu trabalho! Adoraria vê-la em ação em uma audiência!!!

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  2. Gostei, no aguardo da continuação. Muito bom! Isabel

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    1. Eu também gostei demais! E a Zoe sempre escreve assim: nesse estilo direta e meio “desbocada”… rsrsrsrs

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  3. Uma coisa que achei especialmente interessante é que o texto consegue fazer o leitor continuar lendo mesmo quando a protagonista não é necessariamente “simpática”. Isso é difícil de escrever. Muitas histórias dependem de personagens agradáveis; aqui, a força vem do carisma, da inteligência e da sinceridade brutal da narradora.

    Além disso, há um contraste que enriquece a narrativa: Zoe fala como alguém completamente independente e acima de todos, mas suas ações mostram que ela ainda se importa com o trabalho, com os clientes e com a própria reputação profissional. Essa contradição torna a personagem mais humana e interessante.

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    1. Katya, de alguma forma, pelas postagens que vejo sempre de ti, acho que tem um pouquinho de identificação aí!
      Mas Zoe não é uma personagem… é uma mulher que tem narrado sua vida em uma rede social e acabamos ficando “amigos on line”! Ela tem escrito coisas muito tocantes, apesar dos palavrões (nem curto tanto, mas isso parece ser muito dela); eu me emocionei particularmente quando ela postou um texto falando da morte do pai e da força da mãe (pai e mãe são separados pelo que entendi). O texto (que também vou pedir para publicar) tem o título: “Heróis e Filhos da Puta Morrem”. E ela conseguiu não estereotipatizar o pai. Manteve-o com virtudes e defeitos. E achei linda a forma como ela entendeu a resiliência da mãe. Tinha muita força ali! E tinha algo meio Katya!

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  4. Respostas
    1. Zoe é cativante! Tem muita força contando histórias! Espero trazer mais de seus textos!!

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