segunda-feira, 30 de março de 2026

Só Fiz Ponhá a Ficha

 


Desta vez, não foi comigo.

(Ufa. Nem toda história precisa acontecer com a gente.)


Quem contou foi um colega — o Dr. Miguel — enquanto a gente puxava os meiões antes de uma pelada. Aliás, pouca gente imagina o que é apitar jogo entre juiz. O árbitro marca a falta e quase pede desculpa:


— Excelência… acho que foi falta… mas, se o senhor entender que não, posso estar equivocado.


O problema é que quem sofreu a falta também é juiz.


Mas essa é outra história.


A que o Miguel contou vem do tempo em que ele rodava interior — desses de caboclo pouco letrado, mas nada bobo.


Era audiência de alimentos.


O tipo do sujeito era conhecido: espalha filho como quem espalha semente. Tem quem chame de “boto”. Sempre tem uma história pronta, um discurso decorado:


— Doutor, ela gasta tudo em festa e deixa a criança largada.


Curioso como a festa nunca é problema quando é deles.


Quando não conseguem escapar com o “vou dando conforme puder”, tentam outra matemática: pedem a guarda. O filho vai pra avó paterna, vira mais um na conta, chama a avó de mãe… e a vida segue, empurrada.


Mas, segundo o Miguel, esse resolveu inovar.


Sala pronta: juiz, promotor, defensor, digitadora.


Entra a mãe, com o bebê dormindo no colo, uma fraldinha cobrindo o rosto. Logo atrás, o pai.


Mas não entrou cabisbaixo, não. Veio firme. Chegou até a estender a mão pra cumprimentar — desistiu no meio do caminho, quando ouviu um seco:


— Sente aí.


Miguel foi direto, como é dele:


— Vamos resolver. Quanto tu podes pagar por mês? Alguma coisa vais ter que pagar. Pai tu já disseste que és.


O caboclo respirou, como quem puxa um texto ensaiado:


— Doutor, vamos fazer assim: eu fico com a criança e ela não me dá nada.


A mãe quase levantou da cadeira:


— E tu vais dar de mamar como, seu infeliz?!


Ele nem se abalou.


— Doutor, o filho é meu. Tem que ficar comigo.


Miguel devolveu:


— É dela também.


Foi aí que veio a lógica.


— Doutor, o senhor já foi no aeroporto de Belém?


— Já… o que tem isso?


— Lá não tem aquelas máquinas de refrigerante?


— Tem.


O caboclo ajeitou o corpo, certo da vitória:


— Pois é. Se eu ponhá a ficha e sai a latinha… a latinha não é minha?


Miguel ainda ia responder.


Não deu tempo.


— Pois então, doutor. Eu só fiz ponhá a ficha nela. Saiu a criança… a criança é minha.


E cruzou os braços, como quem encerra um caso difícil.



Não lembro o que o Miguel decidiu.

Ou não falou — ou o jogo já tinha começado.








Luís Augusto Menna Barreto, em 27 de maio de 2016.


8 comentários:

  1. Respostas
    1. Pensa num caboclo lógico! Ainda bem que essa não foi comigo! Era capaz de eu sair da audiência com uma latinha!!

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    2. Adoro falas populares. Por isso, "porenchi" esta resposta.

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    3. O Marajó é pródigo em jeito de falar peculiar!!!

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  2. Muito esperto o engraçandinho. To pensando aqui o q eu diria se fosse juiz. Adorei o relato

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    1. O delicioso Marajó tem disso: caboclos com lógicas tortas. Criança vira latinha, mãe vira a máquina! Também não sei o que faria! Um dia, ainda descubro o que Dr. Miguel decidiu!!!

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  3. Mais gente!! Acha que seria a mesma coisa com o filho rssrsrs!! Muito boa! Liu

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    1. Esperto demais o caboclo!!! Kkkk
      Seria assim tão cômico, se não fosse efetivamente trágico!!!

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