Ela chegou desarrumada.
Entrou de repente, sob olhares de cabeças baixas. Não cumprimentou ninguém, abriu caminho por entre as aproximadamente trinta pessoas e foi direto até ela, que estava no centro. Havia quatro pessoas próximas. Uma delas, com feições muito parecidas, segurava-lhe a mão.
Ela se aproximou e só quando estava muito perto, quando viu, foi que acreditou.
— Não! — Saiu assim, espontâneo, do fundo do peito. Começou a chorar. Soluçava! Rapidamente, fora amparada pelas quatro senhoras que estavam ali.
Seu dia começara bem, com um raio de esperança como há muito não sentia. Finalmente, trabalho depois de tanto tempo.
O casamento de quatro anos, que parece que haviam roubado todos os vinte e seis anos antes vividos, finalmente ruíra. Somente percebeu o quanto lhe fora tóxico quando finalmente viu-se só. Mas a sensação não fora de liberdade. Não parecia uma libertação.
Ela sabia que nos quatro anos do casamento, fora, pouco a pouco, sendo diminuída (ou aceitando diminuir-se). Ele não quis festa. Apenas foram morar juntos e ele a levou para jantar em um restaurante até chique, mas de comida indiana que ela detestou, mas fingiu gostar, afinal, era o “jantar de casamento”. Não teve a festa que imaginou na adolescência, não jogou o bouquet, não dançou a valsa. Mas estava com ele e “era o que importava”.
Depois, sem nem perceber, descobriu que nunca mais saíra com as amigas. E, em algum tempo, até mesmo as mensagens de WhatsApp tornaram-se raras.
Ela não trabalharia. E demitiu-se da clínica em que era fisioterapeuta. Ele cuidaria de tudo, para que ela tivesse tempo para eles.
Um dia ele lhe dera um presente lindo: um iPhone novinho… que já veio com um outro número. E ela levou quase dois anos para descobrir que, o presente veio com um spyware aqueles programas espiões, em que tudo o que ela fazia no celular, era monitorado por ele.
Quando descobriu, conformou-se. Aceitou (?) o argumento de que era para a proteção dela.
Com o tempo, o celular tocava menos. Recebia menos mensagens. Tinha menos contatos de Instagram. Os poucos contatos ativos, eram os amigos dele. A família dele. Falava pouco com o irmão, e brigavam nas poucas tentativas que ele fez de dizer que ela estava perdendo o brilho.
Então, o baque repentino: ele simplesmente saiu de casa, em uma manhã, dizendo que ela não o fazia mais sentir-se apaixonado, e que ele iria experimentar um novo relacionamento. Disse, também, que o aluguel estava pago até o final do mês. E simplesmente saiu da sua vida.
Há um mês.
A dona do apartamento fora compreensiva, mas sem qualquer intimidade. Deu-lhe quinze dias para pagar o aluguel… ou sair.
Ligou para o irmão. Ele emprestou o dinheiro. Mas fez mais: indicou-lhe uma paciente. Uma senhora de 78 anos, que precisava de fisioterapeuta. Dona Amália. Gostou dela, e acolheu-a como se a conhecesse há anos. Estava indo para a quarta sessão:
— Bom dia, Rui. (O porteiro).
— Bom dia.
— Vou na Dona Amália, posso subir?
— Morreu.
— O quê?
— Morreu, ué! Já. Tava de “hora extra” ela, né - que Deus a tenha. Tá na capela do Jardim da Paz.
Agora estava ali: olhando para Dona Amália, tão pequenina, tão branquinha. Chorou.
As quatro irmãs vivas (duas já haviam morrido, de um total de sete mulheres e dois homens) estavam, agora, amparando-a.
Depois, vieram algumas primas. Umas com dificuldade de locomover-se.
Consolaram-na. Falaram de dores. Da alma. Do corpo. As irmãs de Amália, dando-lhe receitas para as dores da alma. Ela, lhes dando receitas para as dores do corpo.
Ela ficou por ali. Acompanhou o velório. Ganhou carona no cortejo até o cemitério. Assistiu ao enterro.
Saiu dali com duas novas clientes.
Em pouco tempo, sua rede de amigas ampliou-se. Sua clientela aumentou.
Algumas morriam. Era natural na nova conformação de seus relacionamentos.
Mas a cada cliente que morria, novas oportunidades se abriam, e normalmente, aumentava sua clientela.
Afinal, era sempre convidada para os velórios.*
Luís Augusto Menna Barreto, em 30 de abril de 2027
*Esse texto foi aprovado com ressalvas da curadora. Não aprovou o final, dizendo que eu o apressei. Insisti. Publiquei como eu o escrevi. (Não gahei o selo de aprovação desta vez).
Oportunidade é como uma mulher careca com cabelo apenas na frente. Qdo ela vem tem que agarrar; se deixar passar a careca nao deixa segurar. Adorei.
ResponderExcluirAdorei a analogia!!! Rsrsrsrsrs!!!!!
ExcluirObrigado, escritora!!!
A vida como ela é, com seus acontecimentos e aprendizados.
ResponderExcluirDificuldades que geram oportunidades.
Oi, NIceeeeee!!!
ExcluirPois não é? Às vezes, a gente se reinventa, a gente se reconstrói de onde menos esperamos.
Ela teve de ir em um velório para descobrir que ela mesma estava morta. OU em "estado de morta", tendo-se anulado.
... e naquele ambiente, chorando uma morte que nem conhecida direito, chorando, quem sabe, a si própria pelo que de si a morte levara, abriu-se uma janela... por onde ela deixou entrar o sol!