domingo, 17 de março de 2019

bora cronicar - Sem Medida

Aurora olhou no relógio daquela imensa cozinha e vira: 17h25. Teria, ainda, 35 minutos para terminar as batatas sautées que acompanhariam o Confit de Canard no jantar da senhora Carmem. A entrada já estava preparada e Aurora tinha certeza que os convidados adorariam o Steake Tartare banhado em conhaque Courvoisier.
Dez minutos antes das 18h, chegaria Tânia, colocaria o avental e substituiria Aurora tendo como primeira tarefa, por a mesa para o jantar de oito talheres. 
Tânia havia acordado às 7h, mesmo depois de chegar em casa à 1 hora da madrugada após sair à meia noite da casa da senhora Carmem, e ter esperado por 15 minutos o ônibus no ponto que fica quase um quilômetro distante. Acordara e fizera o café dos dois filhos, aprontara-os para a escola e, às 7h45 estava caminhando com os filhos pelos 5 quarteirões até a escola. Depois voltara, acordara o marido, arrumara a casa e lavara a roupa das crianças. Às 12h45, buscara as crianças na escola e, depois de uma rápida oração, os três almoçaram o feijão, arroz, e purê de batatas. As crianças brincaram e sorriram satisfeitas ao terminar a comida e finalmente poder tomar o copo de Tang de laranja, bebida especial de todas as sextas-feiras. Ao mesmo momento, o marido estava sentado na pilha de tijolos na construção onde trabalhava e saboreava a comida da marmita, delicadamente preparada por Tânia. Então, ele pegou o celular com a tela rachada enviou a mensagem por WhatsApp: um emoji com a língua no canto da boca, que simboliza uma deliciosa refeição. E vendo as crianças sorrindo e tendo recebido a mensagem, Tânia havia pensado o quanto era feliz tendo pessoas que amava a sua volta. 
Assim que chegou no emprego, Tânia vestiu o avental, viu o que Aurora já havia feito e soube, então, de onde começar. Ao despedir-se de sua colega de trabalho, Tânia, em ar de cumplicidade, falando baixinho - única forma permitida de falar naquela casa - perguntou à Aurora: “é hoje?”
Aurora sorriu, e, ainda tímida, levantou os ombros… escapou-lhe um “acho que sim!”
Aurora apressou-se para o ponto de ônibus e já fazia os planos de chegar em casa, arrumar-se, colocar aquele perfume maravilhoso que ganhou da senhora Carmem, ainda com algumas gotas, e que havia prometido colocar em uma ocasião especial. 
Marcos estava na “última volta” do ônibus que conduzia e, mesmo com todo o normal stress do trânsito em uma capital, não houve o que lhe tirasse o sorriso do rosto: iria levar Aurora pela primeira vez ao cinema. Escolheu um filme brasileiro, porque ficou com medo de não conseguir ler as legendas. Estava nervoso, mas inevitavelmente feliz! 
À noite, os seis convidados da senhora Carmem e seu marido, chegaram pontualmente às 19h30. O Jantar fora impecável. Os pratos servidos estavam divinos: Autora era, realmente, uma excelente cozinheira, e Tânia havia servido de forma espetacular. A senhora Carmem sorrira e, depois de os convidados já se terem ido, depois de dispensar Tânia, enquanto despia o kimono de seda e deitava no lençol Milleluci de 1000 fios, comprados em Milão por 2 mil euros, pensou o quanto fora agradável a noite e o quanto era feliz em sua vida, com pessoas de boa vontade a sua volta. Pensava ser uma pessoa justa e sentia que tratava bem a todos. Sim, Carmem estava feliz e realizada pela perfeição de mais um jantar oferecido.
Ao mesmo tempo, Aurora e Marcos comiam um cachorro quente, na carrocinha próxima ao cinema. Depois, ele a levou de ônibus até sua casa. E beijaram-se à porta. Um beijo como os beijos devem ser. Que diz muito mais do que saberiam dizer com palavras. Um primeiro beijo, afinal! 
E Aurora sentia-se feliz como nunca estivera.
Marcos, mesmo sabendo que teria dois ônibus pela frente antes de chegar em casa, na periferia, agradecera silenciosamente a sua sorte e o quanto a felicidade lhe sorrira. Fora uma noite perfeita. 
Quando Tânia finalmente chegou em casa e deitou-se, sentiu o marido virar-se para seu lado e abraçar-lhe, mesmo dormindo. Começava uma chuva fraca lá fora e ela podia ouvir os pingos na janela. Ela rezou em silêncio. Era uma oração de agradecimento e o pedido que Deus permitisse que sua vida fosse sempre feliz assim.
Tânia achou-se a mulher mais feliz do mundo.
Aurora achou-se a mulher mais feliz do mundo.
Carmem achou-se a mulher mais feliz do mundo.
Jamais haveria uma régua que oferecesse a medida entre elas.
De alguma forma, as três estavam certas. 
De alguma forma diferente e perfeita, Deus planta a felicidade sem medir nossas posses ou nossos corações!

Luís Augusto Menna Barreto

18.3.2019

quinta-feira, 14 de março de 2019

(Co) Incidências

Bora Cronicar


Elô havia acordado atrasada, o que era raro, naquela manhã chuvosa típica dos janeiros de Belém do Pará. O pequeno despertador à pilha comprado na loja de “1,99”, parara de funcionar. Funcionara por mais de seis meses. Mas finalmente, a pilha acabou. Ela fez tudo correndo naquela manhã. Mas, quando desceu as escadas do pequeno prédio sem elevador onde morava, notou que esquecera o guarda-chuva. 
Praguejou internamente, repreendeu-se e teve de subir correndo as escadas, pegar o guarda-chuva e finalmente foi para o ponto do ônibus. Os dias de chuva eram os piores no ponto do ônibus, porque não havia cobertura e as pessoas com guarda-chuvas abertos atrapalhavam a visão. E o trânsito muito mais carregado por conta da chuva, fazia com que alguns ônibus queimassem a parada. Era preciso estar atenta. 
— Tem horas?
Elô não havia prestado atenção, mas, em seguida, ouviu novamente:
— Tem horas?
Uma senhora bem velhinha sorridente, perguntou-lhe as horas. Elô não tinha relógio de pulso e, então, trocou o guarda-chuva de mão e enfiou a mão na pequena bolsa para pegar o aparelho celular para ver as horas e responder. 
Enquanto guardava o celular, viu seu ônibus, que parou sem que ela visse, retomar a velocidade. Estendera o braço sem sucesso. 
Quando finalmente conseguiu entrar em um ônibus e depois de um trajeto de 20 minutos em pé, conseguiu descer, tentou atravessar a rua fora da faixa de pedestres, mas teve de recuar por conta do tráfego e acabou perdendo mais tempo do que se fosse diretamente à faixa de pedestres. Depois de atravessar, bastaria andar mais 50 metros, dobrar a esquina e a loja de materiais de construção onde trabalhava, estaria logo ali. 
Dobrando a esquina de cabeça baixa e guarda-chuva em punho, esbarrou ou sofreu um esbarrão por um homem que vinha sem guarda-chuva, no sentido contrário. Elô caiu e torceu o tornozelo. O homem que a fizera cair preocupou-se, e levou Elô primeiro até uma farmácia, depois no atendimento de urgência da Santa Casa. 
Elô perdeu o emprego. 
Roberto acordou feliz, porque seria seu último dia longe de seu estado natal no sul do pais, para onde estava retornando depois de oito meses gerenciando a implantação de uma filial da empresa em que trabalhava. Entregaria o apartamento e embarcaria no vôo das 13 horas rumo à capital gaúcha. Havia arrumado as duas malas na noite anterior. Planejou acordar cedo, tomar o último café na padaria Santa Clara vendo o movimento dos carros pela avenida Gentil Bittencourt, lendo pela última vez o jornal Amazônia. 
O relógio despertou-o pontualmente. Arrumou-se como planejado e, quando foi sair, aconteceu algo simplesmente imponderável: quebrou a chave na fechadura da porta, pelo lado de fora. Por que diabos, ele tentara dar uma terceira volta na chave, se há oito meses fechava a porta com apenas duas voltas na chave? Praguejou algum tempo, mas decidiu que precisaria encontrar um chaveiro para resolver a situação. 
Depois de algum tempo, conseguiu, por um valor exorbitante, que o chaveiro fosse até o local. Examinada a fechadura, depois de retira-la, o chaveiro falou para Roberto que não seria possível aproveita-la. A força empregada na tentativa de um terceiro giro da chave, causou mais dano do que poderia ser reparado pelo chaveiro. Já eram quase 10h da manhã. A solução menos demorada, seria comprar uma fechadura nova e substituir. 
Foi então que Roberto saiu às pressas, tendo ficado no local o chaveiro, esperando que Roberto voltasse com a fechadura depois de compra-la na loja de materiais de construção indicada pelo chaveiro. 
Na pressa, ao dobrar a esquina, Roberto esbarrou em uma moça desajeitada que caiu e ficou um instante gemendo. 
Roberto queria apenas ir embora, mas não poderia deixar a moça ali no chão. 
Roberto não viajou naquele dia.
Muitos anos mais tarde, enquanto Elô e Roberto estavam passeando de mãos dadas, como faziam há mais de trinta anos, cuidando no neto que corria nos caminhos do Bosque dos Buritis em Goiânia onde moravam, ela distraidamente sorria satisfeita com a vida que levara, com o amor único que tivera, que durara a vida inteira e do qual ainda desfrutava, e bendizia todas as coisas que deram errado naquela distante manhã em que torcera o pé.
Roberto, segurando a mão da mulher para quem entregou seu coração para toda a vida, gostava de pensar o quanto ficara desnecessariamente aflito quando as coisas começaram a dar errado naquela manhã em Belém do Pará, quando literalmente esbarrara no amor de sua vida.
Uns chamariam de destino.
Outros, de acaso.
Alguns chamariam de amor.
Luís Augusto Menna Barreto

15.2.2019

quarta-feira, 13 de março de 2019

bora cronicar - Neto é Neto, Filho é Filho!

Bora Cronicar

Neto é Neto, Filho é Filho!

Quando eu era criança, tinha lá meus 6 anos (nem quero lembrar quanto tempo faz!), eu ouvi uma piada que eu demorei anos pra entender. Acho que só entendi quando eu tinha uns oito ou nove, quando eu ouvi novamente. Era a seguinte: um casal velhinho conversando e a esposa velhinha fala para o marido:
— Foi uma vida boa, né meu velho?!
— Foi.
— Pena que a gente não teve filhos pra deixar nossa herança.
— Não tem problema, minha velha. A gente deixa para os netos.
Hoje em dia, eu nem encaro mais como piada. Pra mim, é um texto triste. Incrível como a gente vai mudando a percepção das coisas, né? O texto não mudou ao longo dos anos. Eu que mudei. Primeiro não entendia. Depois, entendi e ri muito, era uma piada absolutamente engraçada. Depois, veio um tempo em que a piada simplesmente perdeu a graça, era infantil demais, óbvia demais. Depois, indiferença. Hoje, sinto melancolia, imaginando o casal de “vovôs" sem netos nem filhos.
E eu estava pensando justamente nos netos. Na utilização da palavra “neto” ou “neta”. Aliás, deixe eu fazer um parênteses: eu conheço vários “Netos”, aquelas pessoas que recebem o nome do avô, e, ao final, é acrescida a palavra “Neto”. Fulano da Silva Neto. Ou até mesmo, “Neto alguma coisa”; mas “Neta" eu conheci só uma. Ela vendia passagens na empresa de um dos navios que fazia a linha Belém-Breves, que por tantos anos eu viajei. Mas foi a única. Não é comum meninas herdarem nome e sobrenome da avó. 
Mas afora os nomes próprios (Neto e Neta), eu estava pensando na utilização do substantivo “neto”.
Eu acho muito legal o tweet fixado na conta da “Amontoadora de Palavras” (@AmontoadorP): “A tua avó também te dava dinheiro como se estivesse passando droga?” Porque avós tem muito em comum, né? Isso contado pela Amontoadora de Palavras, é bastante comum entre avós Eu já recebi dinheiro assim. Não era de um avô, era de um tio. Mas um tio com idade pra ser meu avô. Antes de se despedir, o tio Raul preparava algumas notas dobradas e colocava no bolso. Daí, ele se despedia apertando a mão minha e da mana, e até de algum amigo meu que estivesse lá em casa, com uma nota na mão, segurando-a em forma de “concha”. Então ele colocava a mão no bolso, e depois dava o aperto de mão, passando a nota. Colocava a mão no bolso e apertava a mão de outro. E assim ele fazia. Quando meus amigos descobriram que o Tio Raul passava notas no aperto de mão, sempre que ele ia visitar a gente, todos queriam brincar lá em casa!
O Tio Raul não era meu avô (claro, né!), mas ele me chamava pelo meu apelido, ou se referia a mim por “esse menino”.
Minha avó Izolina, que morava em Canoas, no final da linha do “Rio Branco”, também não me chamava de “neto”. Ela me chamava pelo apelido. Ou menino. 
Na frente da minha casa, quando eu era pequeno, morava a família do meu amigo Cuca. A casa dos avós dele era na frente e ele morava na casa dos fundos.  A vó “Ciça”, como a gente chamava a vó do Cuca, não chamava ele de neto. Era de Cuca, ou “esse menino”. 
No Marajó, onde passei 11 anos, há muitas famílias, em que netos são criados por avós. Mas muitas mesmo! E eles não são chamados de netos. São chamados, na maioria, de “filhos”. E eles chamam as avós de “mãe”. 
O Nando Reis, cantor que eu sou muito fã, tem uma música que eu acho maravilhosa, chamada “Meu Mundo Ficaria Completo (com você)”, que tem versos que eu simplesmente adoro e fico até com inveja que não fui eu que escrevi: 
"O problema é que eu te amo.
Não tenho dúvidas que com você daria certo.
Juntos faríamos tantos planos,
Com você o meu mundo ficaria completo.
Eu vejo nossos filhos brincando,
E depois cresceriam e nos dariam os netos.”
Ele fala em netos, bisnetos e, na última estrofe, se a gente pensar direito, ele fala em tetranetos (os tais tataranetos)! Eu não sei se o Nando Reis já tem netos, mas quer saber? Acho que ele não os chama de “netos”. 
Realmente, nunca vi alguém, vir cumprimentar seu avô e receber uma resposta assim: “oi neto”; ou alguém vir pedir a bênção ao avô e ser respondido: “Deus te abençoe, neto”.
Repare aí, quando você presenciar essa cena. É muito comum, ouvirmos o avô responder assim: “oi, filho”, ou até mesmo “oi meu filho”, ou “Deus te abençoe, meu filho”!
Por algum motivo que eu não sei, muitos avós, quase todos, aliás - e todos os que eu conheço, referem-se aos netos como “filhos”.
Desafio você a encontrar um avô falando com seu neto e chamando-o por neto! “Vem cá, meu neto”; “venha tomar a bênção da sua vó, meu neto”; “você quer mais um suquinho, neto?” Não! Você não ouve isso! 
Por quê? Por quê? Acho que está na hora de parar com isso, com esse erro de nomenclatura, essa coisa de chamar neto de filho! É errado! Filho é filho, neto é neto!
E agora, vou terminar essa crônica porque estou indo no aeroporto pra buscar minha mãe que está vindo lá de Porto Alegre pra Belém pra visitar-me e assistir à peça de teatro que escrevi. E o João que não se faça de bobo: filho sou eu! Quem tem que ganhar os mimos da mãe sou eu! Vou logo avisar pros dois!
Luís Augusto Menna Barreto

14.3.2019

terça-feira, 12 de março de 2019

bora cronicar - Deixa Que Eu Pego

Deixa Que Eu Pego


— Deixa que eu pego.
Era comum ouvir o Antônio dizer isso, e logo ver seus movimentos ágeis e precisos para executar a tarefa. No caso do “deixa que eu pego” acima, era um grampeador. 
Estávamos todos nós em uma reunião no Bamerindus do Brasil, lá no início da década de noventa, e o Antônio estava lá: relativamente perto do gerente geral da agência centro, a maior entre as mais de dez agências do Banco Bamerindus em Porto Alegre. Sempre de terno e gravata. Sapatos lustrados. Gravata alinhada, presa num prendedor de gravata dourado do qual ele se orgulhava, como vários gerentes, sem a noção de que a Cláudia Matarazzo reviraria os olhos se alguém treinado por ela em etiqueta ousasse usar um daqueles. Ou qualquer prendedor de gravata, na verdade. 
Mas lá estava ele! Com o nó duplo na gravata, mãos nos bolsos, esbanjando confiança. Olhar atendo a todos. Como ele sempre dava um jeito de ficar perto do gerente geral, sempre olhava para quase todos os demais funcionários, de frente, quase encarando-os. Atento como um cão de guarda. Então, quando o gerente geral, durante sua explanação deu por falta de um grampeador, o Antônio apressou-se como nenhum outro:
— Deixa que eu pego. 
E em segundos, havia um grampeador.
Teve uma vez, em Marajó City, que eu lembrei do Antônio. Eu estava em um Termo Judiciário, município que não era sede de comarca, e que eu tinha de viajar três horas em um barco não muito grande, ou uma hora em uma voadeira (aquelas lanchas pequenas e relativamente velozes) para sair da cidade onde eu era titular e atender ao Termo Judiciário. Pois chegando lá, depois de boas horas balançando na rede do barco a motor Arco Íris, logo na primeira audiência já havia uma quase confusão: era muita gente para a pequena sala de audiências que virava atração quando em funcionamento, porque havia uma grande janela de vidro e as cortinas eram pequenas demais para tapar toda a janela. Uma vez eu cheguei a comentar:
— Essas cortinas são pequenas. Deveriam ter feito cortinas maiores.
— Não doutor, — disse-me o Marreta, secretário do Termo — a janela é que foi feita muito grande.
Era a lógica do Marajó, afinal. 
Mas, enfim, eu estava dizendo que eu lembrei do Antônio, naquela audiência lá no Marajó. Era muita gente para a sala pequena: cinco pessoas, para quatro cadeiras. Foi que então eu comentei:
— Vai faltar uma cadeira.
Nada. Nadinhas. Ninguém se mexeu. Tentei de novo.
— Falta uma cadeira. 
Nada. Fui direto:
— Marreta, por favor, pegue uma cadeira em outra sala!
O Marreta, prestativo que era, não teve dúvidas:
— Nik (esse não é apelido, é nome mesmo!), pega uma cadeira pro doutor!
O Nik era o auxiliar judiciário do Termo, o “número 2” por lá. Foi então que o Nik tomou uma atitude:
— Goela, pega uma cadeira pro doutor.
O Goela olhou para os lados e na sala não havia mais ninguém. Eu até fiquei curioso, porque o Goela saiu apressado. Fiquei surpreso ao ver o Goela, que normalmente apronta alguma, indo pegar uma cadeira obedecendo simplesmente ao Nik.
Alguns segundos depois, o Goela voltou para a sala de audiências, sem a cadeira. Mas com o Régua. Assim que o Régua entrou na sala, o Goela falou:
— Régua, vai buscar uma cadeira para o doutor!
O Régua foi. O Régua era o estagiário local. Não havia ninguém abaixo dele.
Foi daí que lembrei do Antônio. O Antônio não era gerente. O Antônio era estagiário. Mas fazia questão de ir trabalhar de paletó. E ele estava sempre atento. Quando notava que algum dos gerentes precisava de algo, ele se apressava em pegar. Se chegavam três clientes para atendimento por algum gerente em mesas que por padrão tinham apenas duas cadeiras, antes que pedissem, o Antônio aparecia com uma. 
Era servil? Não. Era esperto e orgulhoso! Não esperava a cadeia de comando e, antecipando-se a uma ordem, o que ele fazia aparentava gentileza e prestatividade. Havia clientes importantes do banco, que juravam que o Antônio era gerente ou sub gerente. Alguns clientes ligavam para o banco e resolviam diretamente com o Antônio. 
Lá no Marajó, sem essa esperteza do Antônio, ficou clara a cadeia de comando! O Goela, por orgulho, não se contentou em buscar a cadeira. Preferiu ter mais trabalho e chamar o estagiário, para mostrar alguma autoridade. 
Pois dias atrás, lembrei do Antônio novamente. 
Um casal de amigos veio visitar-nos com um filho. Como estava uma noite agradável, a Ana sugeriu que fôssemos para a sacada do apartamento. Ela comentou:
— Ah, mas vai precisar de mais uma cadeira.
Eu me apressei e peguei! 
Afinal, não tem porquê colocar em dúvida quem manda aqui em casa, né?!

Luís Augusto Menna Barreto

18.2.2019

segunda-feira, 11 de março de 2019

bora cronicar - O Olhar do Messi

Bora Cronicar

O Olhar do Messi

A crônica que eu publiquei ontem, segunda-feira, eu havia escrito no domingo passado. E eu lembro que eu fiquei falando do cronista David Coimbra que eu sou fã. Pois ontem (segunda-feira) eu estava tomando café com o Messi (o cachorro, não o jogador de futebol) e estava novamente lendo um dos livros de crônicas do dito jornalista.
Ele estava falando sobre cachorros. Bem, na verdade, cachorros foi o mote que ele usou para uma grave crítica social. Ele contou que ele, que mora em Boston, USA, não vê nem crianças nem cachorros desacompanhados nas ruas. Crianças, eventualmente, até vê, mas nunca em horário escolar, porque é simplesmente proibido por lá, crianças desacompanhadas na rua, em horário escolar. E cachorros… bem, não sei direito o porquê de não ter cachorros desacompanhados nas ruas por lá, mas ele contou que outro dia, enquanto ele estava almoçando numa cantina italiana, houve uma muvuca porque alguém teria visto um cachorro na rua. Sem coleira! Sem o dono! Acionada a polícia, esta chegou em 5 minutos e levaram o cusco. E as pessoas estavam apavoradas porque havia um cachorro sem dono, na rua. Caso de polícia!
Foi então, que ele contou que um jornalista que mora nos Estados Unidos há anos tava pensando em voltar a viver no Brasil e veio visitar a família, pra fazer uma “prova" sobre como seria voltar a viver aqui. E ele conta que o jornalista desistiu quando viu um cachorro vira-latas na rua e ninguém se importou com isso! 
Bem, cá entre nós, eu acho que se esse jornalista aí viu apenas um (1) cachorro vira-latas, é porque nem sequer demorou muito na sua visita!
Foi daí que eu tava com o Messi, o nosso cachorro, que toma café comigo todas as manhãs, e eu li a crônica para ele. Ele fica paradinho escutando (ainda mais quando eu leio a crônica dando a ele pequenos pedaços de banana, que ele adora).
Daí, uma coisa levou à outra, e fiquei com vontade, também, de escrever sobre cachorros. Porque o que eu queria mesmo é falar que, sem base científica nenhuma, eu posso afirmar que os cachorros, de alguma maneira, vão como que absorvendo a personalidade do dono.
E isso eu notei mais forte, agora que o meu pequeno (já nem tão pequeno assim) João tem o Messi e o meu afilhado e sobrinho Lucas, tem o Bolt.
A raça do Messi é Yorkshire (eu tive que ir no Google pra saber como escrever) e a do Bolt eu não sei mas é da raça do Bolt, o Supercão, aquele filme da Disney. Aliás, o nome que deram ao cachorro é mesmo “Bolt”. Tem um sobrenome, por conta do tal pedigree, mas eu não sei qual é. O Messi parece que tem esse pedigree também, mas eu nem sei qual o sobrenome. Eu, como passei anos no Marajó, chamo o Messi por apelido. Chamo-o de “guri" ou “gurizão" e ele entende. Pelo menos, toda vez que tenho alguma fruta na mão e chamo ele de guri, ele vem correndo.
Pois observando os dois garotos, ainda que morem a mais de 5.000 quilômetros de distância um do outro, eu reparo que os dois cachorros, de alguma forma que é muito mais que coincidência, foram adquirindo personalidades e mesmo hábitos como seus donos. Por exemplo: o João não gosta muito de ficar sozinho, e costuma assustar-se com barulhos altos e que ele não conhece. Pois o Messi também! O João, é um garoto muito carinhoso. Aceita carinho e gosta quando está assistindo televisão junto com a Ana e ela fica fazendo carinho nele. Pois o Messi age igualzinho! 
Já o Lucas, apesar de ser realmente um garoto excelente, é um tipo mais “ogro" (no melhor dos sentidos que essa palavra pode ter). O Lucas (e o Bolt) são do tipo que jogam bola com chuva, na lama, e entram correndo em casa. O João e o Messi? Estariam enrolados vendo Netflix embaixo de um lençol! Quando o Lucas com a família veio visitar-nos em Belém, nós fomos numa casa de hambúrgueres, chamada “GeekBurger” e lá, o pessoal serve o hambúrguer com aquelas luvinhas de plástico, pra não melar as mãos quando a gente morde e escorre aqueles maravilhosos molhos, ou a mostarda… O Lucas e o João colocaram imediatamente e se divertiram com as luvas. De fato, nenhum dos dois sujou ou melou nem um centímetro da mão. O único porém, é que quase no fim do hambúrguer, o Lucas resolveu coçar a cabeça com as duas mãos… sem tirar as luvas!
Pois o Bolt, é como o Lucas. Um cachorro querido, realmente querido… mas cuidado: ele é uma avalanche em tom branco e pelo áspero! Divertido, mas distraído.
Pois outro dia, o Messi estava deitado no sofá, e eu fui sentar-me pra ver televisão. Daí, como o Messi estava realmente no lugar mais confortável do sofá, eu o chamei, para que saísse dali. Ele nem “tchuns" pra mim. Chamei mais uma vez. Ele mal levantou os olhos.
Bom, daí, evidente que eu fui até o Messi, pronto pra tira-lo do lugar. 
… e foi então que o cusco olhou-me de um jeito que na hora cheguei quase a arrepiar. Não era um olhar de cachorro brabo, ou um olhar que me indicasse que ele poderia avançar e morder. Era outro tipo de olhar. Como quem desafia. Eu poderia jurar que se o olhar do Messi falasse ele diria apenas: “… experimenta…”. 
O problema é que isso vai contra minha tese, porque o João não faz assim, o João sairia do lugar no momento em que eu dissesse para ele sair. Mas foi daí que lembrei: Eu saio cedinho de casa todos os dias, menos final de semana. O João tem escola. E a verdade é que, no fim das contas, o Messi passa bastante tempo com a Ana.
Eu sabia que eu conhecia aquele olhar!
Por Luís Augusto Menna Barreto

12.3.2019

domingo, 10 de março de 2019

bora cronicar - David Coimbra

Bora Cronicar

David Coimbra

Eu estou um pouco perturbado, hoje. E o culpado é esse cara aí do título, o David Coimbra.
Ele não me conhece. Eu nunca o encontrei. Na verdade, ele nem sabe que eu existo. Aliás, tem um outro escritor e maravilhoso cronista, que é o Luís Fernando Veríssimo, que tem uma frase maravilhosa (entre tantas): “Só acredito em coisas que eu posso tocar. Luísa Brunet não existe”! Pois nessa linha de pensamento, em vez de eu não existir para o David Coimbra, quem não deveria existir era o David Coimbra pra mim! Porque eu não causo qualquer problema pra ele, ele realmente não imagina que um gaúcho que vive no norte do país, que sequer é jornalista como ele, está perturbado por sua causa. Os dias passam tranquilamente para o David, lá nas poéticas calçadas de Boston (sim ele mora em Boston, USA, e as calçadas são poéticas. Você tem que ler Davi Coimbra pra saber o porquê do “calçadas poéticas"). É de lá que ele envia seus textos e de onde ele participa ao vivo dos programas do grupo RBS, especialmente o jornal Zero Hora, e a Rádio Gaúcha, além do portal GZH.
Você deve estar-se perguntando por quê, afinal, estou irritado com ele. Pois bem, vamos lá: em primeiro lugar, o cara é bom! Todos os dias, todos mesmo, há uma nova crônica de David Coimbra. O texto flui, prende, instiga e informa. Dificilmente, é uma crônica sobre um passarinho na janela. Não raramente, ele opina sobre os principais acontecimentos, inclusive política, interna e externa, até culinária e futebol, comportamento e turismo, enfim, tudo! Até sobre os americanos, ele se mete a opinar. 
Normalmente, eu tomo meu café da manhã às 5h, na companhia do Messi (o cachorro, não o craque argentino), lendo crônicas de David Coimbra. Atualmente, estou lendo o volume “O Que Você NUNCA Deve Perguntar a um Americano”.
É irritante. Porque além da fluidez do texto, além de ele tornar assuntos banais interessantes, eu sempre acabo aprendendo muito com o David Coimbra. Ainda hoje (hoje, mesmo, minutos antes de eu me sentar aqui e descontar minha irritação no teclado do meu pobre Mac) eu estava lendo uma crônica em que aprendi a origem da palavra “seminário”, tanto quanto da expressão “é um clássico”. Quer saber o que é pior? Tal conhecimento sempre esteve a minha disposição. Talvez nem precisasse recorrer a nenhum léxico, bastaria eu pensar um pouco com o subsídio cultural que já tenho, e eu poderia chegar à mesma conclusão. Mas não! Esperei que o David Coimbra jogasse isso na minha cara. E tem mais: ele é um historiador. Tem um livro dele, pra lá de interessante, que se chama “Uma Breve História do Mundo”, que é realmente um livro de história; mas que você lê como se fosse uma crônica. E sem perceber, você vai aderindo conhecimento, com algo que lhe dá prazer! Isso beira o ridículo! E tem outro, que mais me irrita, que se chama “Jogo de Damas”, em que ele conta a história de grandes mulheres e fatos que determinaram o que ele entende como supremacia feminina. O livro é tão bom, que é daqueles que a gente lê em um dia, e fica irritado, porque quando vê, percebe que terminou o livro e parece que a gente leu apenas uma crônica. E transborda conhecimento.
Mas até agora só falei coisas boas, você deve estar pensando. 
Não! Isso me perturba. Ele antevê, ele quase adivinha. Eu estou pensando em um roteiro para uma montagem teatral de apenas 15 a 20 minutos, para um evento específico. Daí, estou pensado em algo bem “Shakespeareano”, com dramaticidade e frases que tem profundo sentido. Daqueles textos em que nem mesmo uma vírgula é colocada por acaso. 
Pois exatamente quando estou pensando nisso, pensando que começaria a trabalhar no roteiro logo após o café (hoje o café às 8h, em companhia da Ana, porque é manhã de carnaval, feriado), eu abro o livro pra ler, e bem na página marcada com o marcador de página com a foto do João, estava lá, na página 220: “Como Tornar o Texto Interessante”, ele citando Shakespeare, uma frase de Rei Lear: “Tu não devias ter envelhecido antes de te tornar sábio!”. (Eu acho que tem um equívoco de colocação pronominal, mas quem vai ligar pra isso? É Shakespeare, traduzido por Millôr Fernandes e citado por David Coimbra! Quem liga pra colocação de um maldito pronome oblíquo?!)
Ah!, mas isso me irritou! A Ana reparou. "O que houve?”. E então, destilei minha perturbação, vociferando sobre David Coimbra. “Mas tu também escreves”, foi o contra argumento da Ana.
Tá, escrevo, né?! Mas não dá pra comparar. O cara tem uma cultura, que só lendo muito, só em se dedicando com afinco ao conhecimento - de livros e de bares - consegue-se! Antes que ela dissesse que eu leio muito, eu já saí dizendo: não dá pra competir. O cara vive fazendo duas coisas: lendo e escrevendo. Lendo e escrevendo. E mora em Boston! Boston! Ele lê, escreve, mora em Boston… e GANHA merecidos salários pra isso!
Daí, que eu disse pra Ana. Já sei: vou no Sirotski da vez (bam-bam-bam do grupo RBS, fundado por Maurício Sitotski Sobrinho) e digo pra me contratar. Minha proposta é simples: ele me contrata, eu me mudo pra Boston com minha família, igual ao David Coimbra, passo a escrever todos os dias para o grupo RBS, passarei a ganhar a vida lendo e escrevendo e a RBS não vai gastar nem um centavo a mais por isso. 
“Você vai trabalhar de graça?”, você se está perguntando nesse momento. Pois a Ana também perguntou. Simples, meu caro leitor: vou propor o seguinte ao Sirotski da vez: contrata-me e divide o salário do David Coimbra entre eu e ele. Eu aceito trabalhar para a RBS pela metade do que o David Coimbra recebe. Daí, a RBS fica com dois cronistas pelo preço de um! E ambos em Boston! Chiquérrimo e econômico para o grupo RBS.
“Mas o cara vai te odiar”, disse-me a Ana. 
Eu pensei nisso também! Há tempos atrás, houve uma briga (na verdade duas, mas uma delas foi especial, rolou até uma bengalada no ar, durante o programa Sala de Redação na Rádio Gaúcha) entre o David Coimbra e o falecido expoente do jornalismo gaúcho, Paulo Santana. E com a briga, a rádio experimentou os píncaros da audiência! Foi ótimo para a rádio. Acorreram patrocinadores, não haveria derrotados, mas apenas vitoriosos na briga havida! 
Pois eu não me importo se o David Coimbra brigar comigo. Vou continuar sendo seu fã. O maior risco seria a bengalada… 
Mas a bengala era do Paulo Santana!
Luís Augusto Menna Barreto

11.2.2019

sexta-feira, 8 de março de 2019

bora cronicar - Sabe o Que Ela Tava Pensando?

Bora cronicar

Sabe o Que Ela Tava Pensando?

Tá bom, vou chutar o balde e falar logo: “sabe o que eu tava pensando?”
Pois então, essa é uma expressão que também me deixa preocupado. Ela não me apavora propriamente, mas me deixa preocupado. E não é que a expressão em si deixe-me preocupado. É apenas quando a Ana diz isso!
A Ana tem umas coisas curiosas. Ela é uma das pessoas mais determinadas que eu conheço. E quando digo determinadas, estou falando em foco total. Então, acontece não raramente, de ela, do nada, perguntar alguma coisa no meio de uma conversa em que eu fico sem entender coisa nenhuma… Porque a conversa, na verdade, estava acontecendo apenas na cabeça dela, mas ela pergunta como se eu soubesse de tudo que ela estava pensando. 
Por exemplo, ela já perguntou assim:
—Porque você prefere o 1.5, né?
—Hein? 
Isso foi quando ela decidiu que eu precisava de um carro pra ir trabalhar. Porque quando eu estava no Marajó, eu não precisava de carro. Talvez uma lacha, mas não um carro!
O fato é que ela estava pensando e tratando disso em sua mente, enquanto eu assistia a um jogo do Inter; ela perguntou isso, como se fosse no meio de uma conversa em que já teríamos discutido sobre vários outros itens. Mas essa pergunta que ela fez, escapou porque, sobre isso, ela deve ter ficado indecisa na conversa mental que ela estava tendo comigo. Daí, perguntou e ficou me olhando como se fosse evidente que eu deveria saber o que ela estava pensando, enquanto o D’Alessandro entregava um passe milimétrico de mais de 30 metros para o centroavante colorado que perdeu o gol!
Esse foco da Ana, muitas vezes diverte o João, porque, no fim, tanto ele como eu, achamos engraçado. Às vezes, nós estamos os três, Ana, João e eu embalados em algum assunto, e, no meio da conversa, vem uma pergunta que foge completamente do contexto. Ao menos do contexto em que eu e o João estamos, mas certamente é do assunto que estamos os três tendo na cabeça da Ana:
João: — Papai, essa semana nós vamos ter apresentação do trabalho de ciências.
Eu: — Que legal, filho, temos de treinar a apresentação, então.
Ana: — Vocês não acham que a gente deve chegar em Porto Alegre e ir direto na loja de tapetes?
Mais ou menos isso. Eu e o João nos olhamos, e acabamos rindo!
Mas algumas vezes, muitas aliás, ela está pensando e introduz o seu pensamento com uma pergunta meramente retórica: “sabe o que eu tava pensando?”, e já emenda o assunto em que está focada.
Eu até tento acompanhar, mas o problema é que quando a Ana fala “sabe o que eu tava pensando?”, a velocidade das informações é muito maior do que minha capacidade de processamento. Quase não tem vírgula, ela quase não respira a partir do “sabe o que eu tava pensando?”, o ponto de interrogação dura menos do que as descargas elétricas dos meus neurônios sendo ativados, e, de alguma forma, a impressão que eu tenho é que sempre tenho que ficar correndo atrás da informação e do raciocínio dela.
Daí, que eu decidi que precisava arrumar alguma forma de ganhar tempo. 
Foi então, que eu pensei em fazer o mesmo que faço com quem me fala aquele maldito “oi?” Com ponto de interrogação em algum depoimento:
— Foi o senhor que entrou na sacristia e roubou o celular do coroinha?
— Oi?…
— Oi! — Respondo assim, seco e olhando nos olhos, e o sujeito entende que meu “oi" significa a repetição da pergunta e a palavra: “desembucha" tudo num “oi" só.
Pois depois de ter bons resultados com a técnica do “oi respondido”, decidi: vou responder à pergunta retórica e com isso ganho tempo. Só que com a Ana não seria tão simples. Seria preciso concentração, alguma preparação, ensaio. Precisaria estar pronto pra ser pego até de surpresa e reagir. Como eu me aprontaria pra isso?
Treinando! 
Pensei em quem usa esse tipo de expressão (ainda que não com a velocidade e determinação da Ana). A Isabella! A Isabella é uma estagiária de direito que trabalha na equipe da 3ª Vara, e pelo menos um dia por semana, ela quem digita as audiências pra mim. E ela fala algumas vezes justamente isso:
— Doutor, sabe o que eu tava pensando?
Ela fala com suavidade e fluidez como falaria uma parisiense. Aliás, o nome dela nem é Isabella. Mas eu realmente a chamo assim, porque ela tem cara e jeito de Isabella. Eu tenho certeza que ela deveria ter nascido em Paris e ser batizada como Isabelle, e alguém no setor de remessa de bebês, lá no céu, fez alguma bobagem. Mas, enfim, a Isabella às vezes fala: “doutor, sabe o que eu tava pensando?”. 
Daí que, embora ela não merecesse, o teste seria com ela! Dito e feito: no primeiro  “doutor, sabe o que eu tava pensando”, eu tasquei:
— Não! 
Ela parou. Não esperava a resposta. Demorou três segundos (eu cronometrei), riu e disse algo tipo:
— (riso francês) Desculpa, claro que o senhor não poderia saber… Sabe o que é…
Aproveitei o “sabe o que é”, improvisei e mandei outro:
— Não! 
Mais uns dois segundos até a reação da Isabella! 
Depois, até expliquei pra ela a situação e ela ficou aliviada. 
Bem, o teste havia sido realizado com sucesso. O “não" à pergunta retórica tinha rendido três segundos, depois mais uns dois… calculei que com a Ana eu ganharia ao menos uns dois segundos no total, mas cada milésimo seria importante.
Passei uns dois ou três dias concentrado, até vir o primeiro “sabe o que eu tava pensando?”. Foi à noite, enquanto eu lanchava depois do trabalho. Eu estava degustando o romance vencedor do prêmio Leya de 2017, na companhia do Messi, e ela entrou na cozinha: 
— Sabe o que eu tava pensando?…
Ah!, eu estava preparado. Concentrado. Pronto. Armei minha melhor expressão de “tenho tudo sob controle”, e disparei:
— Não!
— … amanhã, tu vais com meu carro, que quero levar o teu pra lavar que tá muito sujo, e…
Pois é. Era a Ana. Atropelou meu não sem nem notá-lo. Não fez nem cócegas no foco que ela mantém. 
Tentei, né?!
Luís Augusto Menna Barreto
8.2.2019

Se você gostou e quer ler "Sabe o Que EU Estava Pensando"

quinta-feira, 7 de março de 2019

O TEATRO - 16 e 17 de março, 19 horas, no teatro Margarida Schivasappa em Belém do Pará

O TEATRO

Baseado no conto homônimo de minha autoria - O TEATRO -, a Companhia Paraense de Potoqueiros encenará nos dias 16 e 17 de março de 2017, às 19 horas, no Teatro Margarida Schivasappa, no CENTUR em Belém do Pará, a peça O TEATRO, com direção de Alex Vilar e Breno Monteiro.


“O TEATRO”

Montagem: 
Cia. Paraense de Potoqueiros

Roteiro:
Luís Augusto Menna Barreto

Direção:
Alex Vilar e Breno Monteiro 

Quando:
16 e 17 de março, 19h

Local:
Teatro Margarida Schivasappa
Centur - Belém - Pará

Quanto:
R$ 30,00 inteira; R$ 15,00 meia.

quarta-feira, 6 de março de 2019

bora cronicar - O Paletó Engordou - O Capítulo Final da "Saga do Paletó"

Bora Cronicar

O Paletó Engordou
O Capítulo Final da “Saga do Paletó"

Tem coisas que é difícil pra mim, hoje em dia. Não porque tenha mudado tanto assim, talvez, mas por causa de como eu vejo as coisas, simplesmente. E eu sei que posso estar errado no meu jeito de ver. 
Por exemplo: na escola do meu pequeno João, agora tem prova toda sexta-feira. Daí, que praticamente toda a semana, vira um stress, com a preocupação da prova na sexta! E o guri fica numa rotina de estudos, e, ao mesmo tempo, os 11 anos dele ficam a reclamar atenção para as coisas importantes da vida, como o iPad, o videogame, o ping-pong, e não só essa coisa de estudar. Dai, que nem me lembro se era tão diferente assim no meu tempo, mas eu sei que EU era diferente. Acho que a primeira vez que eu realmente peguei em livros pra estudar, foi pra prestar concurso pro serviço púbico. Nem pro vestibular eu estudei, afinal, a prova era de “x" no lugar certo e eu sempre tive muita fé! 
Mas tem umas coisas que eram diferentes. No meu tempo, quando eu estava na sétima e na oitava série (um tempo em que a gente entendia as coisas, havia um primeiro grau com oito séries, um segundo grau com três, e pronto. Ah!, e a gente rodava naquela época, acreditam? Se não tinha aproveitamento, ficava de recuperação enquanto os outros entravam em férias e, se mesmo com a recuperação não desse jeito, a gente simplesmente rodava, repetia o ano e pronto!)… mas eu tava dizendo que havia diferenças. A partir da sétima série, a gente tinha um turno extra em um centro de atividades técnicas (CAT), que depois virou Centro Inter Escolar (CIE), que alunos de todas as escolas iam, e as turmas eram “misturadas" entre as escolas e os alunos integravam-se em aulas como marcenaria, metais, agricultura, noções de escritório, cerâmica, culinária e técnicas domésticas - a gente aprendia a varrer! Isso, aquela coisa de pegar em uma vassoura e varrer, ensinavam isso! Também aprendi a costurar e pregar botões!
Naquele tempo, não existia essa coisa de bullying… ou existia mas não tinha esse nome. O fato é que eu sofri isso. Mas não me deixou traumatizado nem nada. Nunca tive que fazer terapia, pelo menos. O problema, é que eu quase rodei nas matérias de marcenaria e eletricidade. Na marcenaria, o máximo que eu consegui, pra não repetir o ano, foi fazer uma tábua de bater bife pra mãe (que ela, pra agradar o filho, deve ter usado uma ou duas vezes), e um porta guardanapos… que eu tive realmente que explicar pra mãe que era um porta guardanapos, porque parecia três pedaços de madeira muito mal pregados por sinal. E na aula de eletricidade, eu lembro que a primeira coisa que o professor falou, na sua aula inicial foi que em dezesseis anos de magistério dele naquela matéria, jamais um aluno havia levado um choque. Eu levei dois! Acho que ele ficou traumatizado com isso!
Mas se você está-se perguntando se foi por isso que eu teria sofrido o bullying, eu respondo: não! Na verdade (acabo de suspirar) eu sofri o bullying porque tirei nota 10 em cerâmica e em técnicas domésticas. Daí, teve uma vez que na aula de agricultura, cada um tinha um canteiro próprio, e, depois de ter ido mal em marcenaria e eletricidade e bem em cerâmica e técnicas domésticas, eu tava fazendo o maior esforço na aula de agricultura, minha última chance de ir bem nessas tarefas mais brutas. Eu me dediquei muito ao meu canteiro. No final do semestre, quando fomos colher nossa plantação, a minha até que tava bem bonita… eu achei que tudo seria diferente… Mas foi daí que tinha o Ladimir! O Ladimir era um guri da zona rural da minha bela, querida, saudosa, distante e lendária Santo Antônio da Patrulha. E quando cada um da turma foi visitar o canteiro do outro, o do Ladimir tava um arraso. Minha alface parecia uma folha de trevo perto da alface do Ladimir, por mais que a mãe tenha comido e jurado que foi a melhor alface que ela comeu na vida! 
Por que eu lembrei disso tudo e do Ladimir? Já conto em seguida! Antes, quero falar da Iracecília! 
A Irá (como chamamos na intimidade) trabalha comigo e é dessas pessoas iluminadas para fazer os outros se reconciliarem. Ela é conciliadora judicial e é dessas pessoas que a gente nunca vê falando alto, ou fazendo uma piada de mau gosto. Ela tem aquele dom (ou defeito) de sempre olhar tudo pelo melhor ângulo. 
Foi daí, que, na sexta-feira, um dia antes da prova final do paletó, eu com a fome que meu regime proporcionava, quase entrando em crise de abstinência cada vez que eu via a Lola pelos corredores sem trazer guloseimas, veio a Irá:
— Toma, doutor, pro senhor fazer um lanchinho!
Era uma cheirosa maravilha da indústria de alimentos desnecessários, uma Club Social recheada… de chocolate! Ai meu Deus. Pareceu sabotagem. Mas eu me segurei. Pra provar que sou mais forte que meus instintos, deixei o pacote de bolachas ali, olhado pra mim, bem em cima da minha mesa. Decidido que, quinta-feira, eu, sem nem ao menos dar chance de o pacote decifrar-me, devora-lo-ei!
Cheguei em casa, na sexta, depois do trabalho, orgulhoso de mim mesmo. Fui pra pesagem: 80 kg. O paletó foi feito quando eu tinha entre 76 e 78 kg. Veio o sábado. O grande dia. Começo pela academia, com a personal / formanda, decidida a fazer-me entrar no paletó, afinal, ela havia investido alto em cada convite, e eu que não ousasse não entrar no paletó. Suei bicas sob a rígida orientação da Camila. 
Dia tenso, de poucos sabores. Um quase jejum. Chegou a hora. A prova final. 
Não sei se contei, mas é claro que, em se tratando de Ana Karina, havia um plano B. Eu tenho um paletó um pouco mais folgado, mas não é o paletó feito sob medida, que ela queria que eu entrasse! Mas estava ali, o plano B. Como o plano B era bem mais antigo, estava com o plástico da lavanderia, porque é claro que a Ana mandou lavar e deixar impecável, em caso de uma emergência.
Banho. 
Pesagem final: 79,6 kg. Uma incógnita no ar. Talvez um caso de emergência. 
Com medo do resultado, ansiosos e nervosos, decidimos que eu provaria primeiro o plano B, só pra garantir. Lá fui… pânico: o paletó encolheu! Estava apertado. Talvez mais que o plano A. Não restava mais o que fazer. Era o tudo ou nada. Decidido, comecei:
Roupa de baixo. Perfume. Camisa. Calças… mas sem fechar, porque eu colocaria primeiro o sapato. Tinha medo de que não conseguisse me abaixar pra amarrar o cadarço caso ficasse muito apertado. Sapatos amarrados. É agora. E… 
Fechou! Estava dentro! Respirando! Dei voltas pelo quarto! Alívio e sorrisos! 
Agora, ao som de “we are the champions”, dei o nó na gravata! Nó duplo, elegante, como o pai ensinou-me! Ficou lindo. Visto o casaco do paletó e vou abotoar os dois botões superiores do total de três, como manda a boa etiqueta… e… o inesperado, o imponderável, o pânico nos olhos da Ana, quando tento fechar:
Os botões estão despregando! Meu Deus, depois de tudo, os botões estão caindo! Tanta preocupação com as calças, com o regime, com tudo, e os botões estão caindo!
Eu vi a expressão de pânico no rosto da Ana. Sozinhos em casa, 22h, onde conseguiremos uma costureira? 
Eu sorri. Ela não entendeu. Eu disse: 
— Traga-me linha e agulha.
Ela o fez, mais por estar em estado de choque, do que por qualquer entendimento.
Eu peguei a linha, agulha, os botões quase caindo, e em cinco minutos, tudo estava perfeito, com furos cirúrgicos no paletó, com os furos do botão em paralelos perfeitos, e a distância exata da borda. 
Eu tire 10 em técnicas domésticas. Chupa essa, Ladimir!

Luís Augusto Menna Barreto

7.3.2019