segunda-feira, 2 de março de 2026

O Fechadura, a Audiência e a Visagem


Pois tinha esse promotor! Ele sempre “adjetivava" os apelidos!

Daí que quando estava lendo a denúncia, no começo da audiência, estava lá: “fulano de tal, o inconveniente Mala, em concurso com o fulano de tal, o efervescente Sonrisal, acompanhados do adolescente fulano, o intrometido Furão”.

A audiência dos dois maiores (o Mala e o Sonrisal) havia ficado para a tarde, porque o Fechadura (o carcereiro da delegacia) que havia prendido os rapazes, havia perdido a chave da cela! Ficou porre na noite anterior, e não sabia mais onde havia guardado a chave. Dizem que perto das duas da tarde, apareceu uma moça na delegacia e entregou a chave para o delegado… dizem! 

Era por volta de 17h quando começamos a audiência. O expediente, no Estado do Pará, termina às 14h, normalmente. Mas era sexta-feira, e o promotor viajaria de volta para Belém no navio que passa às 22 horas no trapiche municipal e não viria na próxima semana. E os rapazes estavam presos e fora “apenas" uma briga.

Os rapazes foram presos por armarem uma briga na mesma festa em que o Fechadura  tomou seu porre. Confesso que fiquei curioso para saber como o Fechadura, porre, teria prendido os três rapazes…

Assim que eu terminei de ler a denúncia, ouvimos um barulho estranho, vindo lá do fundo do fórum, lá atrás, onde fica a cela, passando o salão do júri, ainda fechado. Parecia barulho de ferro.

—  Goela!  Chamei o meirinho. — Veja o que foi esse barulho, por favor.

Tive a impressão que o Goela havia enrugado a testa. Mas não dei bola, e continuei a audiência.

—  Sim, Mala (não tô xingando, era o apelido!), me falas como vocês foram presos!

— Ah, doutor, nada não, foi só uma briga e como a gente tava apanhando, saímos correndo e o Fechadura que nos prendeu.

— O Fechadura sozinho?  Perguntei.

Barulho de ferro de novo. 

Vi que os presos se olharam. O promotor arqueou uma sobrancelha, e o Goela olhou pra mim. 

— Bora Goela. Descobre o que é isso.

E saiu o Goela de novo.

Entrou o Fechadura para o depoimento. Comecei a perguntar:

— Nome?

Fechadura.

— De batismo?

Ele colocou a mão no bolso detrás da calça, em silêncio.

— Sim, Fechadura, não sabe teu nome, caramba?

Ele pegou a identidade do bolso e estendeu para mim. Li o nome e… é… vamos deixar por “Fechadura” mesmo!

Barulho novamente. Notei como todos ficaram desconfortáveis nas cadeiras. 

Sabe quando se tem a impressão que todo mundo está sabendo alguma coisa e falando com os olhos, menos tu próprio? Pois é. Eu estava assim.

Pela minha lista, eu estava curioso para saber como o Fechadura prendeu os três, saber o que todos ali pareciam saber, menos eu, e o que era o barulho!

Vamos começar pelo Fechadura!

Depois que qualificado, disse para o Fechadura contar a história da prisão.

— Ah, doutor, eu tava na esquina do Bar no Seu Nonô, e vi a correria deles vindo pro meu lado, isso perto de 2h da madrugada. Esperei passar por mim e mandei parar.

— Só isso? Eles pararam? Tu apontaste alguma arma, como foi?

— Não doutor, só falei do jeito certo.

— E que jeito……  Barulho!

Todos se levantaram. Até os presos!

É ele!  Disse o Mala. Todos se olharam como quem concorda. Que diabo de “ele”???

— É o Bento!  Falou o Sonrisal.

Bento? Quem é Bento, pensei? será que era alguém da briga, ou coisa assim? Mas por que o promotor e o Goela estão assustados?

— Bora deixar a audiência pra segunda, doutor.  O Goela falou com uma cara séria como eu nunca havia visto.

Daí, me irritei. 

— Para tudo! Alguém me explica o que tá acontecendo!

— Esse barulho, doutor. Isso é visagem!

— Hein? Visagem? Que é isso?

— É o Bento, doutor. Morreu por causa de um processo aqui do fórum, faz uns dez anos! E agora, quando tem gente de noite aqui, o Bento fica revirando tudo, atrás do processo. Bora deixar pra segunda, doutor!

Eu tava admirado. Parecia que todos falavam sério! Só eu não sabia daquilo, pelo jeito!

— Vocês estão ficando loucos? Visagem o caramba. Os guris estão presos! A gente tem que resolver isso hoje!

— Tem nada nã o doutor!

— Hein?

— Tem nada não, doutor!  Era o Sonrisal.

— Como assim, não tem nada?

— A gente espera até segunda!

É! Concordou o Mala.

— Espera o quê?

— A gente fica na cadeia até segunda, doutor, daí o senhor faz a audiência de manhã.

— É.  Concordou de novo.

Mais um barulho! Todos levantaram! Até o promotor. 

Quando eu me virei para o Barganha, que estava datilografando a audiência, ele já tirou a folha da máquina de escrever, antes de eu ditar qualquer coisa:

— Tá pronto doutor. Coloquei que o senhor suspendeu a audiência e continua na segunda pela manhã.

Dali, para saírem todos do fórum, foi menos de dois minutos! 

Descobri que o fórum era assombrado. 

Só não estar certo da assombração.


—————


Texto revisto e aprovado pela curadoria de Dona Grafos



Luís Augusto Menna Barreto, em 3 de junho de 2016


6 comentários:

  1. Hahaha imagino vc tentando entender o povo de lá. Até aprender a lidar com as situações. Achou o Visagem alguma vez ou rezou uma Ave Maria?

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    1. Na verdade, rezei MUITAS. Houve um tempo, em que o Poder Judiciário mantinha uma pequenina casa como moradia para os Juízes. Mas por algum motivo que nem sei bem, acabei DESPEJADO! Na emergência, dividi o imenso gabinete, e fiz um pequeno quartinho dentro do Fórum mesmo. O Fórum lá é lindo, uma construção antiga, na beira do rio, com pé direito muito alto. E com uma característica deliciosa: um imenso e largo corredor e todas as salas para um lado e outro. E olha: com JANELAS internas! Isso, JANELAS, igual como se fosse para o lado de fora, com vidraça e "portas" de madeira que as fecham, como nas casas do Rio Grande do Sul. Um dia, estava eu dormindo e ouvi umas batidas na janela. Acordei. Achei que fosse meu amigo Roberto Carlos, que alguns dias trabalhava até mais tarde na promotoria. que ficava na sala ao lado de onde eu dormia. Normalmente ele ficava até mais tarde quando o Promotor chegaria no dia seguinte. Achei que fosse ele, tipo avisando que já estava saindo. Dormi. Novamente batidas... gritei pelo Roberto e nada! Daí, acendi todas as luzes que consegui e fui ver: nada. Ninguém! Porta do Fórum fechada. Fiquei com medo e arrepiado, claro! Voltei para a cama. Mais batidas. Bom, daí resolvi simplesmente falar: "ei, se é alguém vivo, espera seja lá o que for até amanhecer e começar o expediente; se for morto, fala logo que vou voltar a dormir!
      Na verdade, eu estava com tanto sono aquele dia, que entre o medo e o sono, escolhi o último.

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    2. Todos temos histórias inexplicáveis. Daí eu rezo e digo se for alma descanse kkkkkk. Por isso não gosto de filmes de terror. Durmo sozinha.

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    3. Rsrsrsrs... foi uma noite interessante.... e confesso que quando acordei e vi pela fresta da janela que o dia já havia nascido, eu fiquei aliviado!

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  2. Que poder tem essa assombração né? Promove um medo coletivo e ainda transfere a audiência, eita, só no Marajó mesmo rsrsrsrs

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    1. Visagem, Nice!!! "Deusulivre"! Aho que o Bento até hoje quer que revejam-se processo. Depois que eu saí de lá, soube de mais dois juízes que, "pelo sim e pelo não" (como diria meu pai), acabaram colocando dinheiro na garrafa da benzedeira. Um dia ainda lembro de perguntar se a nota ainda é a de 50 reais, ou se o morto já inflacionou o mercado para se "aquietá"!!!!

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