quarta-feira, 13 de maio de 2026

O que ELA tem que EU não tenho?


Só quem já passou por isso sabe a dor que vai agarrada nessa frase. Só quem já pronunciou essa sentença de morte da auto-estima, pode mensurar o peso que tem!

É quase uma pergunta retórica! Mas quem pergunta, quer uma lista, quer argumentos, quer comparações! 

“É o cabelo? Eu aliso! Só pode ser o cabelo, aquele maldito cabelo hidratado com Moroccanoil!”

Mas não, eu lamento, não são teus cachos… na verdade, não haverá lista. Tu jamais terás chance de ouvir o rol de itens possíveis que tu imaginas, para comparar!  E o pior… o pior é o silêncio, porque tu não ouvirás nada contradizer-te, depois de pronunciares a frase fatídica! … ou ouvirás, o que é pior! Porque normalmente, apenas uma frase vem em contraponto a “o que ela tem que eu não tenho”. A pior, a mais cruel, a mais canalha: 

“Olha… não és tu. Tu não tens nada de errado, tu és uma pessoa maravilhosa…”

(E prepara-te, que lá vem:)

“… sou eu. O problema está em mim"

Pronto… o pingo de auto estima que tu tinhas, está ali, óh… olha rápido: perto do ralo… foi-se!

Antes tu tivesses ouvido uma lista de defeitos! Porque se lista houvesse, tu poderias contestá-los. Saná-los. Superá-los! Mas a maldição de tu ouvires que não tens problema, e que o problema está na pessoa com quem tu dividias tua vida, é arrasadora!

Se não te elencam defeitos, é pior: tu simplesmente sentes que não és suficiente!

Neste ponto, tu deverias, se a auto estima não tivesse, já, escoado pelo ralo, acabar qualquer conversa, apenas ir para o quarto e fechar-te na solidão, planejando acabar com o pote de sorvete na geladeira, afogando as mágoas, comendo com uma colher de sopa, diretamente no pote!

Mas não… tu ainda arrisca um “eu não sirvo pra ti?”. Ah… que erro terrível! Porque agora sentirás as palavras caindo em ti como uma bigorna cai nos desenhos animados em quem passa na calçada: “olha… tu és uma pessoa incrível! Vais achar alguém melhor que eu, que vai amar-te muito!”

Feito! Receber consolo de quem está te dando o pé na bunda, é a derrota final… é a sarjeta amorosa, é o fim da linha do ônibus com destino à falta de amor próprio!

Agora, imagina o que meu amigo sentiu, quando sua namorada deixou-o, e ele perguntou: “o que ela tem que eu não tenho?”… 

É… nesse caso, acho que é o que ELE tem, que está de alguma forma sobrando…!


Luís Augusto Menna Barreto, em 9 de maio de 2026

Data da postagem original: 14.4.2021

... suficiente!

 


segunda-feira, 11 de maio de 2026

Os Casos da Tonha, do Botóquis e da Dona Mocinha

 


Ameaça pra ser ameaça, tem que meter medo.

Sem “tu vai ver só”…

Pois a Tonha era uma mulher grande. Não era apenas gorda. Era grande! E tinha cara de braba. Já a Augustinha era chamada assim, no diminutivo porque era uma mulher pequena, franzina. Vi que o caso era ameaça, e, assim que as duas sentaram uma em cada lado da mesa, fui logo me dirigindo à Tonha:

— O que houve, D. Tonha, que a senhora andou proferindo ameaças?

— Não ameacei ninguém, doutor. Foi ela (e apontou com o beiço para a Augustinha) que me ameaçou encher de porrada.

— Hein?

— Pois não foi, doutor? Ela me disse que se me pegar olhando pro marido dela de novo, vou pegar muita porrada.

Augustinha quieta, não falava nada. Ficava ali, olhando para a mesa, com uma expressão de “isso nem é comigo”.

Perguntei para a Tonha:

— E a senhora está com medo de que lhe aconteça alguma coisa?

— Mas doutor! E isso aí (apontou com o beiço para a Augustinha) vai bater em alguém?! Medo nada! Tô é com pena dessa infeliz!

Ora, ali mesmo, encerrei o processo!

Mas tem os que são bons de ameaça! 

O “Botóquis” (estava escrito assim no Termo Circunstanciado) era o tipo de sujeito que não levava desaforo pra casa. E desaforo grande era algum caboclo dançar com uma morena que tivesse recusado a dança com o Botóquis. E como no Marajó, apelido não é por acaso, o Botóquis estava muito longe de ser um deus grego. Era fácil ser recusado. 

Daí que, na festa, o pessoal cuidava: se a mulher chegou perto do Botóquis e saiu, ainda que pra ir no banheiro, nenhum homem mais falava com a pobre moça... Mas tinha sempre um desavisado qualquer, que não sabia da história ou que ja tinha bebido o tanto necessário para não lembrar mais de quem o Botóquis tinha levado o fora! Daí, coitado do caboclo! Se o Botóquis pegava, batia. Mas batia muuuuuito! Só o jeito de olhar, por baixo da aba do boné, já causava temor.

Outra que era boa de ameaça era D. Mocinha, que de mocinha não tinha nada.

Pois assim foi o caso: Feito o pregão, entrou D. Mocinha como autora do fato (quem fez a ameaça). E “Mocinha” era mesmo o primeiro nome daquela senhora. Eu me assustei. Acho que nunca tinha visto um rosto tão enrugado! O passo era firme, mas estava curvada para frente, pensei que tivesse já beirando os 70 anos. A vítima aparentava uns 40.

D. Mocinha tinha uma pequena fruteira e empregava seu neto, a quem prometera fazer Padre. A mãe morreu antes do parto e a criança no ventre foi dada por perdida. Mas nasceu da mãe morta e foi tido por milagre. Ia ser devolvido ao santo, fazendo-se Padre por promessa de D. Mocinha. Daí, quando alguma mulher demorava mais que um instante de comprar uma fruta, falando com o neto, D. Mocinha já achava que era o diabo em forma de mulher querendo desencaminhar o futuro santo. Pegava um terçado e corria atrás da dita, ameaçando furar.

Pois a vítima que estava ali era mais uma entre tantas que dizem que D. Mocinha ameaçava. Confesso que estava torcendo para não ser verdade; ou para que houvesse uma proposta leve do Ministério Público que D. Mocinha acatasse e se visse livre.

— Mas a senhora ameaçou mesmo a vítima, D. Mocinha?

— Ameacei não, doutor! Prometi! Vou furar essa rapariga que quer saliência com meu neto santo.

Não teve jeito. D. Mocinha não aceitou nada do que propôs o Ministério Público, por mais brando que fosse!

— Mas D. Mocinha, a essa altura da sua vida, a senhora ainda vai querer se incomodar com um processo? Por que não aceita a proposta do Ministério Público?

— Não sou mulher de aceitar favor, doutor. Vivi até aqui, com o suor do meu trabalho!

Pois é. Eu fiquei até curioso pra saber a idade daquela coleção de rugas que D. Mocinha trazia na pele. Para matar minha curiosidade, pedi a célula de identidade de D. Mocinha, que logo pegou uma sacola plástica toda enroladinha e de dentro tirou a célula e estendeu-me! Não consegui disfarçar o susto:

— Mas a senhora tem 51 anos, D. Mocinha?

— Pois é doutor. Sei que não parece.

Até hoje eu agradeço por nesse momento ter falado apenas: 

— … é… 

Porque D. Mocinha arrematou:

— Mas isso é porque me cuido, doutor, não sou como essas raparigas de hoje que experimentam tudo que é porcaria e se estragam cedo!


Luis Augusto Menna Barreto, em 9 de maio de 2026.

Data da postagem e texto original: 15 de julho de 2016