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domingo, 26 de julho de 2026

-- Tânia

 


— Tânia.
(Mateus 25:40)


Primeiro passei reto. Ela estava na porta da padaria. Algo fez olhar para trás. Eu a vi, depois de te-la feito invisível.

Foi que Deus me perguntou:

— Tu não me pediste, hoje?

— Sim.

— E me negas quando eu te peço?

Comprei o lanche para ela. E perguntei seu nome.


Luís Augusto Menna Barreto
Em 24 de julho de 2026.

sexta-feira, 10 de abril de 2026

Amontoadora de Palavras (@AmontoadoraP)

 


"Cuide bem dos abraços que você não precisou pedir."

11.3.2024 (no twitter)


"Me agrada não ter uma imagem falsa para manter. O que você vê é o que está disponível. Alguns dias sou incrível, outros dias sou uma bagunça, mas todos os dias sou eu."

3.6.2023 (no twitter)


"Sempre que o telefone não tocava, eu sabia que era você"

17.1.2023 (no twitter)


"Não vou te forçar a ficar comigo se você não me ama...

A porta está ai: 

arrebente o cadeado, as correntes, dope os cães, 

fuja dos seguranças, pule a cerca elétrica e vá embora."

7.8.2022 (no twitter)



Nota do blog: Amontoadora de palavras (@AmontoadoraP) é uma das contas mais inteligentes e sagazes que vi entre as redes sociais que já acessei.  Não a encontrei mais... ... enfim, coisas boas acabam. 

A conta ainda está o "X"... ela postava no tempo bom do twitter. 

Vale a pena. 

sexta-feira, 3 de janeiro de 2020

quarta-feira, 1 de janeiro de 2020

pensamentos perdidos - “... vivos!”

pensamentos perdidos: “... vivos!”



Eu acordei 
Não, não é uma coisa qualquer!
Eu me sinto um privilegiado! 
E, se tu estás lendo isso, se estás acordado em 2020, também és! 
Estamos vivos! 
Meu plano para 2020?: acordar em 2021... e saber que com todas as agruras, percalços e dissabores, eu me divertirei durante o caminho!

Luís Augusto Menna Barreto

1.1.2020

sexta-feira, 11 de outubro de 2019

Pensamentos perdidos - … faxina! (texto 2)

Pensamentos perdidos - … faxina! (texto 2)


Varria. 
Havia algo de pressa. E havia muito a limpar. Naquele lugar, havia pedaços, restos, espalhados por todos os cantos. 
Em um canto, estavam partidos em cacos… em outro, havia alguns como que rasgados, jogados… o que ainda estava quase inteiro, estava coberto por poeira. Ele já o havia esquecido e jamais voltara a vê-lo… somente agora que tinha de limpar tudo, relembrou por ínfimos instantes, como se já não lhe fosse importante.
Jamais pensou que pudesse ter tanto acumulado… tantos restos. Tantos pedaços…
Mas agora, era tempo de limpar tudo. 
Finalmente ele a descobriu. 
E sentiu necessidade de que ela entrasse em seu coração, sem que houvesse quaisquer restos de amores velhos! Queria para ela, um coração aberto e limpo, para que então, apenas ela o decorasse.

Luís Augusto Menna Barreto

11.10.2019

quinta-feira, 10 de outubro de 2019

pensamentos perdidos - ... faxina!

Pensamentos perdidos - … faxina!


Eu limpei com carinho
Esse cantinho
Dentro do meu machucado coração.
Para quando tu chegares
Não mais encontrares
Restos de amores velhos, espalhados no chão

Luís Augusto Menna Barreto

10.10.2019

segunda-feira, 7 de outubro de 2019

pensamentos perdidos - ... negação!

Ainda que seja teu 'não', não te apresses… pronuncia-o devagar…
Deixa eu ficar mais tempo olhando o movimento dos teus lábios… mais tempo com o som da tua negação… 
Assim, ainda que nada me dês, levo comigo teus lábios fotografados por meus olhos, teu som reverberando em minha memória…
E, se de tua negação, eu puder pedir algo, nega-me de perto… bem de perto… para minha alma ficar impregnada do aroma do sopro do teu "não" por tua boca.

Luís Augusto Menna Barreto

7.10.2019

sexta-feira, 14 de junho de 2019

pensamentos perdidos: "Sobre as Tatuagens da Alma"

bora cronicar - pensamentos perdidos

Sobre as Tatuagens da Alma 


Quero encontrar um espelho que ignore minha carne, meus ossos, minhas vísceras… uma espelho que atravesse tudo que me sei e que me prende. Quero que o espelho mostre o reflexo da minha alma!
Haverá o dia de prestar contas. E com os olhos fixos na luz que não me cegará, eu quero despir-me sem medo do corpo que carrego! E então atravessarei os portões do paraíso, levando todo o amor tatuado na alma.

Luís Augusto Menna Barreto

14.6.2019

sexta-feira, 17 de maio de 2019

Pensamentos perdidos - "... jornada"


Pensamentos perdidos: “…jornada!"

Eu não sei quando a corda vai arrebentar… eu sei apenas que acontecerá o rompimento… não aguentará o peso que ano a ano é colocado.

Eu não sei em qual lado da história estou… estou no meio de alguma das pontas de algum dos lados… mas não descobri se é dos que contam a história, ou dos que perdem…

Estou no caminho, sem saber o quanto já percorri, nem quanto falta para o final…  Tenho medo da linha de chegada dizendo que a jornada acabou. 

Tenho medo da linha de chegada.

Por Luís Augusto Menna Barreto
17.5.2019

domingo, 27 de janeiro de 2019

Pensamentos perdidos: … batalha! /// thoughts lost: ... battle!"

   

Foi quando corri sem destino, que encontrei os caminhos mais precisos. 
Foi sem mapa que cheguei a mim mesmo quando eu nem sequer me procurava! 
Quando o acaso foi meu único plano, eu descobri que a beleza estava no caminho, sem precisar de um final.
Eu não perdi o juízo… foi meu juízo que perdeu a batalha para minha alma, quando ambos, dentro de mim, lutavam por minha vida!

It was when I ran aimlessly, that I found the most accurate ways.
It was without a map that I came to myself when I was not even looking for me!
When chance was my only plan, I discovered that beauty was on the way, without needing an ending.
I did not lose my mind ... it was my judgment that lost to my soul, the battle inside me that both were fighting for my life!

Por Luís Augusto Menna Barreto

quarta-feira, 23 de janeiro de 2019

pensamentos perdidos: ... alma! - lost thoughts: ... soul!

  

Quero ouvir o silencioso estertor da relva sendo dobrada pelas costas que deito na grama... quero acompanhar o efêmero existir do fio de fumaça que subirá da expiação... quero sentir-me conectado à Terra que me envolverá... 
... quero olhos abertos para sentir se era juízo ou alma dentro de mim; e, se havia os dois, qual gritou mais forte...! 

I want to hear the silent rustle of the grass being folded by the back that I lie on the grass ... I want to follow the ephemeral existence of the smoke that will rise from the atonement ... I want to feel connected to the Earth that will surround me ...
... I want open eyes to feel if it was judgment or soul within me; and if there was the two of them, which one of them screamed louder ...!

Por Luís Augusto Menna Barreto

segunda-feira, 9 de julho de 2018

Imagens do Contículo de um Milagre


Olá pessoal,

Vocês lembram do “Contículo de Um Milagre”? 
A maior parte da ação passa em uma igreja em Belém do Pará.
Eu lembro que no conto, eu tento descrever a igreja, o mesanino e a escada que leva ao mesanino.
Pois eu estou fazendo esta postagem, porque fiz as fotos do local para ambientar os amigos que leram o conto.
Para quem quiser relembrar esse conto, é só clicar no link abaixo.
Espero que gostem de ver os locais onde aconteceram as cenas…!
(Igreja dos Capuchinhos, bairro São Brás, em Belém, Pará)
Um imenso abraço.


Luís Augusto Menna Barreto








domingo, 20 de maio de 2018

Contículo de Um Milagre


Antes da fama, ele tinha fé. Por algum motivo que ele não soube explicar, lembrara-se disso olhando o desenho de uma lágrima em chamas tatuada na mão, enquanto o avião que levava a banda de rock do momento, da qual ele era o vocalista, voava por entre pesadas nuvens em direção à Capital do Estado do Pará, onde em poucas horas, fariam um show e em seguida rumariam a um festival de Rock na Cidade do Panamá, a 7ª cidade mais competitiva economicamente, da América Latina.
De repente, não muito longe de Belém, o aviso luminoso de apertar o cinto acendeu e a voz do piloto avisou que enfrentariam uma área de turbulência. Mal deu tempo de o piloto terminar o aviso, o copo de uísque caiu no carpete do jato executivo que há meses era o local onde a banda passava mais tempo. Ele já havia enfrentado turbulências antes, mas aquela, somada às lembranças que rememorara, deixaram-no particularmente apreensivo. Num gesto instintivo, levou a mão ao pescoço, onde durante quase toda a vida usara um escapulário, o qual fora descartado por recomendação do produtor e da diretora de imagem da banda. Com o coração acelerado, o efeito da última carreira cheirada passando e algum álcool na cabeça, tentou lembrar de alguma das orações da infância e não conseguiu. Então, talvez agarrado às lembranças que estava tendo da infância vivida sob a fé ensinada pelos pais, reforçada na escola de freiras, e na amizade com os Padres da Igreja próxima a sua casa da infância, ele fez uma promessa!
Algum tempo depois, naquele mesmo dia, em uma Igreja de um dos bairros de Belém, a equipe responsável pelas músicas da missa estava, já, reunida no mezanino, acima da entrada cujo único acesso é por meio de uma escada em espiral, que permanece fechada, para que ninguém não autorizado suba. Naquela igreja, a equipe da música não fica aos olhos dos fiéis e, nos momentos de cantar, apenas o som dos instrumentos e vozes dos cantores espalham-se em toda a nave da Igreja.
Pois a equipe, composta de um frade capuchinho que cantava, um leigo de aproximadamente 50 anos que tocava violão e sua filha de 20 anos que tocava um teclado eletrônico, fora surpreendida com um rapaz de capuz, que pedira para cantar as músicas da missa. Enquanto o leigo ficara em silêncio com um ar de interrogação no semblante, o frade cantor aproximou-se para explicar que não era permitido subir ao local… mas fora interrompido pela tecladista, que, de olhos vibrantes, pegara no braço do frade e falara-lhe, com alguma empolgação, ao seu ouvido, pedindo que lhe deixasse cantar, e explicando quem seria o rapaz de capuz. Até mesmo o frade já ouvira falar em seu nome. 
— Podem ser estas músicas? — perguntou o rapaz, entregando à equipe um pedaço de papel com uma lista de músicas antigas, mas ainda conhecidas. O frade mostrou-as à equipe e todos concordaram, embora não desse mais sequer tempo de falar com o Padre celebrante para avisa-lo da mudança das músicas.
A igreja não estava lotada naquela sexta-feira à noite, chuvosa. Havia muitos bancos vazios. Assim que começaram os primeiros acordes, e iniciou-se a marcha de entrada do séquito seguindo a Cruz levada com devoção pelo primeiro dos cinco coroinhas, o Padre estranhou por não ser a música que lhe fora informada, mas reconheceu-a, embora há muito não mais a ouvisse. Assim que entrou o vocal, quase todos na Igreja repararam. Era diferente. Vibrante. Foi difícil ouvir sem a pele arrepiar, tamanha força e emoção que transbordavam na voz. Alguns mais jovens quase levaram um susto. Poderiam jurar que a voz era a do vocalista daquela banda famosa que nesta noite faria show no Hangar, em Belém! 
Feita a saudação inicial, a benção, e a primeira oração respondida, veio o canto penitencial. Ali, muitos já tinham a certeza de que conheciam aquela voz. E que interpretação! As pessoas na missa pareciam poder sentir lágrimas nos olhos do cantor ao entoar os versos "embora eu me afastasse / e andasse desligado / meu coração cansado / resolveu voltar”.
Naquele momento, contra todas as recomendações, várias cabeças voltavam-se para trás e tentavam olhar o mezanino, embora não fosse possível enxergar quem quer que fosse. 
No canto de glória, a voz por vezes propositadamente grave, porém suave, inundou a Igreja, e para desaprovação do Padre celebrante, muitos dos mais jovens sacaram seus celulares e, então, começou uma enxurrada de mensagens de texto e, até mesmo, áudios dos que haviam gravado o final do canto de glória. Só podia ser ele! Muitos dos fiéis eram fãs da banda, não poderiam estar enganados acerca daquela voz! Em poucas horas, a banda tocaria no Hangar! Talvez fosse algo promocional. Era incrível e inacreditável, mas tinha de ser ele, o vocalista de rock mais celebrado do momento! E bem ali, cantando na missa!
Já durante o canto de ofertório, a Igreja começou a ficar lotada. Já não havia nenhum lugar nos bancos e os espaços laterais começavam a ser preenchidos por pessoas em pé, na maioria jovens. O frade cantor teve de descer de modo a evitar que qualquer pessoa vencesse a tentação de subir pela escada em espiral, e postou-se no no primeiro degrau da escada, impedindo qualquer acesso, e recomendando silêncio. Mas decidiu que iria fazer uma selfie com o rapaz e pedir que gravasse um “oi" para a irmã adolescente que não seguira os mesmos passos religiosos que ele.
Quando da procissão da comunhão, já era difícil até mesmo entrar na nave da Igreja. Nem sentados, nem em pé, nos amplos espaços laterais, cabia mais alguém. Jamais a Igreja estivera cheia assim. As redes sociais em minutos ficaram inundadas pelos áudios das canções na missa, por imagens do mezanino, sem, contudo, que se pudesse ver o rapaz de capuz que cantava segurando o microfone com as duas mãos, exibindo a mão tatuada com uma lágrima em chamas.
Terminada a procissão da comunhão que, pela quantidade de gente, levara quase quatro vezes o tempo normal, antes que o Padre celebrante levantasse para a benção final, o rapaz começou, à capela, uma canção. E quase todos foram às lágrimas, tamanha dor que a voz transmitia ao cantar os versos finais: “… e, se jamais acreditei / perdoa-me Senhor / Pois hoje eu te encontrei”.
A Igreja inteira, ficou em transe. Poucos olhavam para o altar, a quase totalidade das cabeças voltadas ao mezanino. Os dois músicos, pai e filha foram até o muro do mezanino e foram recebidos por uma avalanche de cliques de fotos e vídeos de celulares e gritos de fãs que esperavam a aparição do rapaz. O Padre celebrante conformou-se em proferir a benção final para um mínimo de pessoas que prestavam atenção, embora jamais a Igreja tenha estado tão cheia. O frade tinha imensa dificuldade de conter os jovens que se empurravam tentando subir. Havia confusão. 
Quando o frade foi finalmente vencido, quase arrancado dos degraus, e os primeiros fãs alcançaram o mezanino, houve decepção. Havia ali, apenas os dois músicos, pai e filha. Estiveram olhando a agitação na nave e, quando se viraram os primeiros fãs da banda já estavam chegando no mezanino. Perguntaram por ele! Onde estava? Todos queriam fotos e vídeos com o astro do Rock.
Não estava lá. Os dois músicos ficaram com uma profunda interrogação! Teria ele saído quando estavam olhando a nave? Mas por onde? Ninguém soube responder. Somente depois de muito tempo, os fãs convenceram-se de que ele não estava mais lá. Restava, então, correr ao Hangar para ver o show, cujos ingressos já se haviam há meses esgotado.
Naquela noite, horas mais tarde, uma multidão gritava impaciente no Hangar, frente ao palco vazio, apenas com os instrumentos da banda, aguardando a entrada que era sempre espetacular. O atraso passava do comum para tais eventos.
Até que um homem subiu ao palco, com um semblante tenso. Ao mesmo tempo, os noticiários espalhavam no mundo a mesma notícia:
“É com profundo pesar que informamos a queda do jato comercial que trazia a banda para Belém. O piloto conseguiu um pouso forçado em uma fazenda, salvando quase todos os passageiros e tripulantes que tiveram apenas ferimentos leves. Infelizmente, houve uma morte: a do vocalista.”

Por Luís Augusto Menna Barreto
20 de maio de 2018


quarta-feira, 16 de maio de 2018

Contículo de Uma Tragédia Alheia

Contículo de Uma Tragédia Alheia

Sentiu o sangue gelar quando viu os sapatos brancos entrando pela porta daquela lanchonete/bar insalubre. 
Ele detestava o barulho e o cheiro de fritura no ar, misturado ao cheiro e fumaça de cigarros que começava pelo dono do lugar, um gordo sem asseio que passava o dia fumando e anotando jogo do bicho, o tempo inteiro com um engordurado rádio de pilha ligado em uma frequência AM.
Ele lavava pratos, irritado com o cheiro da gordura e fumaça. Irritado com a mistura de sons do rádio engordurado, TV engordurada pendendo no suporte da parede, murmúrios dos clientes de aspectos tão desprezíveis e dos hambúrgueres sendo amassados na chapa por aquela mulher tão silenciosa e estranha que se limitava a faze-los o dia inteiro sem dizer uma palavra. A chuva lá fora emprestava um aspecto ainda mais lúgubre, tonalizando de escuro, cinza e pingos, a única janela do local, e aumentava os ruídos em sua mente já tão preocupada com a notícia que recebera de sua namorada, única namorada que tivera na vida, que conhecera há quatro meses, sem família, sem parentes, sem passado saudável: iria ser pai! Foi o único motivo que o fez aceitar o emprego naquele lugar miserável; mas em nenhum outro lugar aceitariam um garoto de 18 anos recém feitos, que não sabia nada além de lavar os pratos dos padres e das orações que aprendera no seminário.
Então, ele viu os sapatos brancos entrando. Sabia que poderia ve-los a qualquer momento. Há dois dias ela vinha sentindo dores fortes e sangrando muito. Por isso chamaram o médico de sapatos brancos que decidiu que ela deveria ser internada. Agora, os sapatos brancos estavam ali, vindo em sua direção. Ele dera ao médico de sapatos brancos o endereço de onde trabalhava, porque era o único endereço que tinha, desde que a menina fora internada e ele tivera de desocupar a pensão porque não teria como pagar o médico e a pensão.
Os sapatos brancos dirigiram-se lentamente, quase se arrastando, até o balcão, até que ele não os enxergasse mais, mas recusava-se a olhar mais acima, recusava-se a olhar nos olhos do médico de sapatos brancos. Concentrou-se nos pratos branco que lavava, esperando ouvir a voz do homem, como quem espera que o carrasco desfira o golpe do machado brandido no ar. Quando ouviu a voz do médico de sapatos brancos, não era ainda a sentença, e sentiu-se mais apreensivo. O médico pediu um duplo, com uma voz cujo timbre parecia carregar uma infinita melancolia. Ele lavava os pratos brancos. não ousava sequer se virar.
Dez minutos. Dois duplos. Vinte minutos. Quando o médico de sapatos brancos pediu o terceiro duplo, ele não aguentou mais. Largou o prato branco que lavava, secou as mãos em um pano que havia sido branco um dia. Virou-se lentamente…
Naquele exato momento, não viu o rosto derrotado do médico de sapatos brancos. Não notou as olheiras de mais de quarenta horas insones lutando por uma vida, não conseguiu sequer ver as lágrimas que o próprio médico beberia de volta por caírem no copo de uísque. Ele via apenas o sorriso da menina grávida que entrava devagar pela porta do bar imundo. Pulou o balcão em um ímpeto e com a velocidade do amor, do alívio, do sonho, estava a abraça-la! 
Um instante depois, lembrou-se do médico de sapatos brancos. Colocou a mão em seu ombro e interrogou-o com o olhar.
O médico de sapatos brancos olhou pra ele, e seu rosto era indecifrável entre um sorriso forçado e uma dor lancinante que tentava perscrutar uma ironia ferina do destino que lhe era impossível entender. E neste misto de emoções, quase em um espasmo último, saiu-lhe o fio de voz, seguido de frêmitos soluços:
— Minha esposa morreu…
O rapaz pediu um duplo.


Por Luís Augusto Menna Barreto