terça-feira, 14 de julho de 2026

Uma Carta Para Meu Velho Amigo Lico

 

— Já chegou? — Eu exalava ansiedade por todos os poros! Estava suado, apesar do mês de maio não ter sido nada quente na minha imensa  e pequena Santo Antônio da Patrulha. Acontece que a agência dos Correios era (e é até hoje), bem quando termina a parte mais íngreme subindo a lomba que separa a Cidade Baixa (onde eu morava, no Bairro das Pitangueiras) da Cidade Alta. E eu subi a lomba correndo!

— Ainda não.

A senhora que atendia sorriu com paciência para aquela criança ansiosa de 9 anos. Eram por volta de 15 horas. No dia anterior, eu havia ido com a mãe entregar o cupom que recortei na revista do Tio Patinhas, preenchi os dados à mão, com caneta Bic, e a mãe levou-me à agência dos Correios. Não precisava selar o cupom e o pagamento seria na retirada do Supermanual do Escoteiro Mirim.

Era incrível chegar na agência dos correios. Eu achava linda! Um prédio com o pé direito alto, a gente entrava e mesmo no verão vinha aquela sensação geladinha. E era silencioso! Parecia biblioteca! Tudo tão calmo, lá. 

O prédio continua igual, lindo. A agência dos Correios ainda é lá; mas agora, só as encomendas. Às vezes eu ia colocar uma carta para o programa dos Trapalhões, em que, no final, o Didi ia pra cima de uma imensa pilha de cartas, jogava algumas pra cima e pegava três, e os sorteados ganhavam uma bicicleta Calói. Daí, o Didi cantava a musiquinha: “pedalando, pedalando, pedalando com a Calói! Pedalando, pedalando, a poupança nunca dói!” Então ele colocava os quatro dedos em frente a boca, o polegar escondido por trás, passava em um movimento horizontal e estalava os dedos!  E que atire a primeira carta, quem nasceu nos anos 70 ou 80 e nunca imitou o gesto do Didi.

Na década de 80, a gente conhecia o carteiro. O que passava na nossa rua bem atrás do salão da Igreja, era um moreno forte! Eu achava o máximo. Por muito tempo quis ser carteiro, porque era sempre uma alegria quando ele pulava o muro baixinho que tinha na nossa casa, e ia até a janela entregar alguma correspondência. Se não havia ninguém, a correspondência era colocada embaixo da porta! As casas lá, todas tinham muro. Mas eram muros baixos e os portões nunca estavam trancados.

Quando o carteiro parava na nossa casa, era sempre uma alegria. Claro que mesmo naquele tempo, os Correios já entregavam contas. Mas não era como hoje. As contas eram da luz e da água. E só. Quando o carteiro vinha, era sempre algo bom: o pai recebia cartas, ou era alguma entrega da Avon que a mãe recebia, ou era carta de algum parente. A gente nem tinha telefone em casa! 

Ir na agência dos Correios era sempre muito legal! 

Desde o dia que a gente foi colocar o cupom da compra do Supermanual do Escoteiro Mirim, na agência dos Correios, eu passei a ir todos os dias pra perguntar se já  havia chegado! Meu Deus, o mundo havia parado! As horas na aula, na 5ª série na escola Estadual Espírito Santo, em 1980, não passavam. Eu lembro a alegria quando o carteiro chegou em casa com o papelzinho dizendo que o Supermanual havia chegado! Meu Deus, eu fiquei em polvorosa e depois de uns dois ou três ralhos que eu levei da mãe por conta da ansiedade, lá fomos nós, na nossa Belina 78, já com 12 anos de uso, eu no banco da frente, aqueles bancos baixinhos, sem encosto de cabeça, e sem cinto de segurança. Aos 9 anos de idade, a mãe já deixava eu passar a 3ª para a 4ª marcha. 

Eu abri a embalagem lá mesmo! Eu adorei tudo! O cheiro de novo, as páginas grossas, os desenhos… e não poderia haver melhor lugar, do que a agência dos Correios, na lomba da avenida!

Daí, o tempo foi passando, e a imagem que tive dos correios entre os anos 2010, até pouco tempo atrás, era a de um entregador de contas. Havia perdido o charme. Porque quase todos os dias, havia correspondência. Eu já não conhecia mais o carteiro, porque todas as casas tinham grades altas e portões trancados, e as cartas eram empurradas para dentro de um coletor junto às grades. E havia muitas agências dos Correios, sob modelo de franquias, espalhadas em todos os lugares. 

Chegava a conta da luz, da água, o IPTU, TV a cabo, cartão de crédito… nenhuma carta!

Mas, de uns tempos pra cá, acho que a magia tem retornado. Ao menos para mim!

A maioria das contas, já não são entregues pelos Correios. Vem diretamente por e-mail, ou mensagem de texto com anexo. É verdade que não recebo mais cartas. Mas todo o mês, eu espero ansioso o carteiro, quase com aquela alegria infantil. Ele me traz a revista National Geographic! Eu assino a versão digital, também. Mas nada supera o cheirinho das páginas e a maravilha de ver as fotos, às vezes em páginas duplas! 

Os Correios recuperaram, para mim, um pouco da magia. 

E não desisti de receber cartas: há poucos dias, nas férias, antes de viajar para o Rio Grande do Sul, postei uma carta no correio de Belém. O destino: Rua Plínio Flores de Jesus, em Santo Antônio a Patrulha, Rio Grande do Sul. O destinatário? Lico. Meu velho amigo de infância. Quis encontrar-me comigo, virar criança de novo na casa da mãe, e receber a carta de mim mesmo!

… na esperança que de alguma forma, aquela criança envie-me uma resposta.


Luís Augusto Menna Barreto

2.8.2019

domingo, 12 de julho de 2026

O Sapo e a Enforcada


A minha infância em Santo Antônio da Patrulha, no interior do Rio Grande do Sul, foi uma infância normal da época. Infância desplugada, com muito joelho ralado, mercúrio cromo pintando joelhos e cotovelos de vermelho, Kichutes amarrados nas canelas, Kongas, Bambas e Havaianas apenas azul claro ou pretas que nós, garotos mais descolados, virávamos ao contrário, para que a parte colorida ficasse pra cima.

Como todo o adulto na segunda metade da vida, eu adoraria voltar. E se pudesse escolher, mudaria algumas coisas. Sim, mesmo da minha maravilhosa infância em que uma tomada era suficiente em uma peça da casa, eu tenho alguns arrependimentos: eu encheria menos o saco da minha irmã (somos em dois e eu sou o caçula, aquele que fica com duas balas quando tem apenas três, aquele que chora e é defendido por ser o menor, aquele, enfim, que apareceu e roubou a atenção e os mimos que antes eram destinados ao mais velho). 

Mas afora o arrependimento de ter perturbado muito a mana, tem uma coisa que eu de jeito nenhum faria de novo: eu não atiraria pedras em sapos. Sim, isso mesmo. Eu não atiraria pedras em sapos!

É o seguinte: a gente morava atrás do salão da Igreja da cidade baixa. Naquela época, Santo Antônio da Patrulha, no Rio Grande do Sul, era dividida entre cidade baixa e cidade alta. Morávamos na cidade baixa, atrás do salão de festas da "Igreja de baixo" (da cidade baixa). Quando vinham aquelas chuvas de verão, rápidas, mas de generosas águas, a mãe deixava a gente tomar banho de chuva. E nós (eu e a mana) e mais a gurizada da rua (os irmãos Cuca, César e Dico, o Christian, os então pequenos Suian e Beto) corríamos para as calçadas do salão, porque havia calhas que terminavam a aproximadamente 1 metro e meio de altura e jorravam água como se fosse uma cachoeira. Brigávamos pelas calhas, para ficar embaixo e levar aquele banho todo! 

Depois, quando a chuva passava, a gente entrava em casa como um “pinto molhado” e o pai fazia a gente tomar um “martelinho” com vermute, uma bebida bem forte. A mãe reclamava, mas o pai dizia que tinha que tomar pra não ficar gripado! 

Acho que funcionava. E, naquele tempo em que nem tudo era politicamente incorreto, e nem havia extremismos legais, não virei alcoólatra por tomar um martelinho de vermute depois das chuvas, aos dez anos de idade. E meu pai nunca foi preso por isso! O incrível é que, nesses dias de chuva, quando começava a cair a noite, acontecia uma reunião de sapos ali na calçada da parte de trás do salão da Igreja. Eu não faço a mínima ideia de por que os sapos reuniam-se ali, mas que era uma espécie de point para os sapos, era! E o que nós, fazíamos? Depois do banho (quente, de chuveiro), voltávamos todos para a rua pra jogar pedras nos sapos sem que aparecesse alguém para dizer-nos “quem nunca coaxou sob as calhas em dia de chuva, que atire a primeira pedra”. 

E tantos sapos sucumbiram ante nossa crueldade infantil. Pois esse arrependimento eu tenho. Se pudesse voltar, não atiraria pedras nos sapos. E mais: tentaria convencer meus amigos a não atirarem também. Pobres sapos.

Pois dias atrás, lá em Santo Antônio da Patrulha, uma amiga da Maria Júlia, minha sobrinha havia tido um desentendimento com os pais, e foi dormir lá na casa da mana. Dormiu no quarto da Maria Júlia. Daí que no meio da madrugada, a mana acordou com gritos desesperados da Maria Júlia, à porta do banheiro. Como a mana ainda estava naquele instante em que o brusco acordar mistura-se ao torpor do sonho, ela disse que ficou paralisada de medo! Pelo tom desesperado dos gritos, a mana chegou a pensar que a amiga havia-se enforcado no banheiro e a Maria Júlia, ao levantar-se, deparou-se com a cena e estava, agora, em desespero, gritando! Como os gritos não cessaram, a mana, em um arroubo de coragem, foi lá para arrancar da visão de sua prole, a horrível cena da garota pendurada pelo pescoço. Quando chegou no banheiro, também veio Milena, a amiga, ver o que estava acontecendo, acordada também pelos gritos! Ora, se Milena, Maria Júlia e ela própria estavam ali, quem se havia enforcado no banheiro? Ninguém!

Havia um sapo no banheiro! Isso, um sapo. E Maria Júlia tem pânico de sapos. 

Nos tempos de criança, não teríamos dúvida: correríamos e pegaríamos uma pedra. Mas mana pegou uma toalha, colocou sobre o coaxante e calmo anfíbio, pegou-o e colocou-o no pátio de casa, com toda a delicadeza. 

Ela também se arrepende de ter atirado pedras em sapos: eles voltam para assombrar nossa descendência…


Luís Augusto Menna Barreto

27.3.2019


 

segunda-feira, 6 de julho de 2026

Virada - parte 2

 

Eu não gosto de escândalo.

Sei que pode não parecer, mas detesto. Com todas as merdas do pai, nunca vi a mãe dar escândalo. Acho que isso, de alguma forma dignificou ela. Ela mandou ele embora de casa, sem escândalo. Ela enterrou ele sem escândalo quando nenhuma das putas dele apareceu no velório.

Acho que isso herdei dela, não dele. Que bom. Dele, já tenho muita merda na minha herança genética.

Daí, quando disse pra D. Carmem, na frente do chefe, que ele tinha me despedido, acho que me arrependi na mesma hora. Foi na frente da sala de audiência. Corredor do Fórum com bastante gente. Vi a veia do pescoço dele saltar. E fiquei com medo que D. Carmem também desse um piti, porque ela tem grana, mas não é exatamente um exemplo de elegância e comportamento. É perua. Mas do tipo que esteve lado a lado com o marido construindo a fortuna, tendo de gritar com muita gente.

Eu poderia ter evitado tudo. Mas eu tava com isso engasgado. Daí foi meio que uma vingança. Fiz de propósito. Não deveria. Pensando bem, em retrospectiva, fiz por merecer. Mas foda-se. Não sou de ferro.

Mas assim que soltei minha frase afiada, senti o peso da tensão. Daí, usei uma arma que só os fumantes tem: acendi um cigarro. Pronto. não deu tempo do barraco se formar, e veio o segurança dizer que eu não poderia fumar ali!

Os minutos entre ir até o elevador, descer e sair do Fórum foram suficientes. Não teve barraco. Acho que deu tempo para todos pensarem. D. Carmem olhou para ele e disse:

— A Dra. Zoe é minha advogada!

O chefe tava a ponto de explodir. Mas ele não é do tipo que rasga dinheiro. Não com uma separação em que a fortuna envolvida pode chegar em muito milhões.

Antes que ele falasse alguma coisa, D. Carmem virou pra mim e disse:

— Segunda, no Pobre Juan do Barra Sul, meio dia.

D. Carmem saiu para a frente do Fórum, onde algum motorista devia estar esperando. O chefe me olhou com olhos injetados de quem diz: “precisamos conversar”. Mas manteve alguma elegância e não disse nada. Ninguém se mantém rico por acaso. Mas eu vi o esforço que ele fez pra não explodir.

Fiquei sozinha, com sol e o vento frio. Resolvi não desperdiçar o cigarro que acendi e apaguei lá dentro do Fórum: naquele momento, não tinha emprego. Não tinha compromisso. Fumei. Depois fui pro ponto de ônibus.


(Se você perdeu ou quer ler novamente a parte 1, CLIQUE AQUI: VIRADA - parte 1

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Zoe. Escrevendo no balcão do bar no iPad do Espinha (não sei o nome dele).


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Olá, pessoal. 

Demorou, mas Zoe Ferraz acabou enviando a segunda parte do texto,

Eu adoro o jeito tão autêntico como ela escreve, como ela se auto-escreve, sem medo de falar o que pensa, sem medo de expor-se, inclusive nos medos e nas falhas. Isso é raro e eu tenho por virtude (dela). Eu certamente escreveria sem os palavrões, vocês me conhecem...! Mas acho que no caso dos textos da Zoe, cada palavrão tem uma função expressiva no texto, que não é um xingamento, ou algo vulgar. É a Zoe. Despida de pudores para falar das coisas como ela enxerga. 

Que bom que ela me enviou este. 

Desejo que degustem. Que vejam além do texto. E que possam cada um dos amigos e amigas do blog, registrar suas próprias interpretações.


Luís Augusto Menna Barreto, em 6 de julho de 2026.