A minha infância em Santo Antônio da Patrulha, no interior do Rio Grande do Sul, foi uma infância normal da época. Infância desplugada, com muito joelho ralado, mercúrio cromo pintando joelhos e cotovelos de vermelho, Kichutes amarrados nas canelas, Kongas, Bambas e Havaianas apenas azul claro ou pretas que nós, garotos mais descolados, virávamos ao contrário, para que a parte colorida ficasse pra cima.
Como todo o adulto na segunda metade da vida, eu adoraria voltar. E se pudesse escolher, mudaria algumas coisas. Sim, mesmo da minha maravilhosa infância em que uma tomada era suficiente em uma peça da casa, eu tenho alguns arrependimentos: eu encheria menos o saco da minha irmã (somos em dois e eu sou o caçula, aquele que fica com duas balas quando tem apenas três, aquele que chora e é defendido por ser o menor, aquele, enfim, que apareceu e roubou a atenção e os mimos que antes eram destinados ao mais velho).
Mas afora o arrependimento de ter perturbado muito a mana, tem uma coisa que eu de jeito nenhum faria de novo: eu não atiraria pedras em sapos. Sim, isso mesmo. Eu não atiraria pedras em sapos!
É o seguinte: a gente morava atrás do salão da Igreja da cidade baixa. Naquela época, Santo Antônio da Patrulha, no Rio Grande do Sul, era dividida entre cidade baixa e cidade alta. Morávamos na cidade baixa, atrás do salão de festas da "Igreja de baixo" (da cidade baixa). Quando vinham aquelas chuvas de verão, rápidas, mas de generosas águas, a mãe deixava a gente tomar banho de chuva. E nós (eu e a mana) e mais a gurizada da rua (os irmãos Cuca, César e Dico, o Christian, os então pequenos Suian e Beto) corríamos para as calçadas do salão, porque havia calhas que terminavam a aproximadamente 1 metro e meio de altura e jorravam água como se fosse uma cachoeira. Brigávamos pelas calhas, para ficar embaixo e levar aquele banho todo!
Depois, quando a chuva passava, a gente entrava em casa como um “pinto molhado” e o pai fazia a gente tomar um “martelinho” com vermute, uma bebida bem forte. A mãe reclamava, mas o pai dizia que tinha que tomar pra não ficar gripado!
Acho que funcionava. E, naquele tempo em que nem tudo era politicamente incorreto, e nem havia extremismos legais, não virei alcoólatra por tomar um martelinho de vermute depois das chuvas, aos dez anos de idade. E meu pai nunca foi preso por isso! O incrível é que, nesses dias de chuva, quando começava a cair a noite, acontecia uma reunião de sapos ali na calçada da parte de trás do salão da Igreja. Eu não faço a mínima ideia de por que os sapos reuniam-se ali, mas que era uma espécie de point para os sapos, era! E o que nós, fazíamos? Depois do banho (quente, de chuveiro), voltávamos todos para a rua pra jogar pedras nos sapos sem que aparecesse alguém para dizer-nos “quem nunca coaxou sob as calhas em dia de chuva, que atire a primeira pedra”.
E tantos sapos sucumbiram ante nossa crueldade infantil. Pois esse arrependimento eu tenho. Se pudesse voltar, não atiraria pedras nos sapos. E mais: tentaria convencer meus amigos a não atirarem também. Pobres sapos.
Pois dias atrás, lá em Santo Antônio da Patrulha, uma amiga da Maria Júlia, minha sobrinha havia tido um desentendimento com os pais, e foi dormir lá na casa da mana. Dormiu no quarto da Maria Júlia. Daí que no meio da madrugada, a mana acordou com gritos desesperados da Maria Júlia, à porta do banheiro. Como a mana ainda estava naquele instante em que o brusco acordar mistura-se ao torpor do sonho, ela disse que ficou paralisada de medo! Pelo tom desesperado dos gritos, a mana chegou a pensar que a amiga havia-se enforcado no banheiro e a Maria Júlia, ao levantar-se, deparou-se com a cena e estava, agora, em desespero, gritando! Como os gritos não cessaram, a mana, em um arroubo de coragem, foi lá para arrancar da visão de sua prole, a horrível cena da garota pendurada pelo pescoço. Quando chegou no banheiro, também veio Milena, a amiga, ver o que estava acontecendo, acordada também pelos gritos! Ora, se Milena, Maria Júlia e ela própria estavam ali, quem se havia enforcado no banheiro? Ninguém!
Havia um sapo no banheiro! Isso, um sapo. E Maria Júlia tem pânico de sapos.
Nos tempos de criança, não teríamos dúvida: correríamos e pegaríamos uma pedra. Mas mana pegou uma toalha, colocou sobre o coaxante e calmo anfíbio, pegou-o e colocou-o no pátio de casa, com toda a delicadeza.
Ela também se arrepende de ter atirado pedras em sapos: eles voltam para assombrar nossa descendência…
Luís Augusto Menna Barreto
27.3.2019
Uma doçura ler sua crônicapela manhã. To esperando a muié vampiro pra tirar meu sangue. Odeio jejum. Apesar de ser mais velha q vc tb nao gostava de me machucar e gritava: mertiolate não, mercúrio por favor!!! Papai tb nos dava licor depois de pegarmos chuva e passava álcool nos pés para nao pegarmos resfriado. Como sou cria de cidade nunca fui com a cara de insetos, répteis e outros bichos. só gritava se visse um e corria. Atualmente meu apto tem tela em tudo. Se entrar por descuido uma barata (qdo dedetizam o condomínio)é a unica "koiza" q mato e é um stress. Vassoura e Raid.
ResponderExcluirQueria voltar... pedir perdão aos sapos... espanta-los...
ExcluirEu não conseguia matar passarinhos com funda (bodoque, atiradeira...). Em pouco tempo, meus amigos não me convidavam mais para "sair para caçar", porque logo perceberam que eu errava o alvo de propósito, e muitas vezes eu atirava nas folhas das árvores, o que fazia espantar todos os passarinhos por lá. Mas sapos, por uma estranha razão, eu matava... espero que haja perdão para isso. Eles não faziam mal... ficavam lá, coaxando.. só isso.
Pena q nao tem como editar um comentário. So nas férias q viajávamos para uma região mais bucólica.
ResponderExcluirEu acho, escritora, que o Google não investe mais em desenvolvimento do blog, diante de tantas redes sociais com rolagem infinita, capturando nosso tempo. Um blog em que o barato não é gerar ansiedade e fazer consumir, não parece mais ser o alvo de desenvolvimento.
ExcluirAssim, temo que não haja melhorias do tipo novas funcionalidades que permitissem editar, que permitissem, quem sabe, cadastrar um número de algum contato que permitisse enviar as postagens diretamente no whatsapp ou outro meio.
Sinto que até mesmo o e-mail tem ficado no ostracismo.
Eu nunca atirei pedras em sapos, pega tanajura eu pegava, manga só pé do quintal do vizinho e cajá manga! Eu né atendi das brigas com os primos! A gente levava surra dos tios e pais. Bom que se arrepende rsrs.
ResponderExcluirEra um tempo bom, hoje em dia as crianças nem na lama posa, a gente pisava em cocô de vaca e nem tínhamos nojo! Gostinho bom de saudades essa crônica! 🥹🥲 Liu
Eu desejo que as crianças de hoje, simplesmente gostem da infância, e a lembrem como nós lembramos a nossa.
ExcluirSe o mundo está digital, está "IA"... que Deus permita que construam boas lembranças assim... que selfies de hoje, sejam as memórias nos nossos "cocôs de vaca" e que causem neles a mesma nostalgia que temos...
Desejo que sejam felizes...!
Obrigado, Liuuu!!!!!
Nao se culpe por atitudes q vc nao tinha compreensão como tem hoje.
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