sexta-feira, 14 de junho de 2019

pensamentos perdidos: "Sobre as Tatuagens da Alma"

bora cronicar - pensamentos perdidos

Sobre as Tatuagens da Alma 


Quero encontrar um espelho que ignore minha carne, meus ossos, minhas vísceras… uma espelho que atravesse tudo que me sei e que me prende. Quero que o espelho mostre o reflexo da minha alma!
Haverá o dia de prestar contas. E com os olhos fixos na luz que não me cegará, eu quero despir-me sem medo do corpo que carrego! E então atravessarei os portões do paraíso, levando todo o amor tatuado na alma.

Luís Augusto Menna Barreto

14.6.2019

quinta-feira, 13 de junho de 2019

bora cronicar - A Gata... e a Gata!

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A Gata… e a Gata!

Esta é uma história de realidade. Qualquer ficção terá sido mera conveniência.

Ela não queria. Quando ouviu falar, negou na hora, quase por reflexo, quase sem pensar. Simplesmente não queria!
Mas daí, como é próprio dos adolescentes, ele tinha suas artimanhas: a colega, dona da gata, em prévio conluio com ele, enviou para a mãe que não queria, a foto da gata. Foi a primeira balançada. Tal qual como num ringue, a mãe sentira o primeiro golpe. Balançara. Não fora ainda, derrotada, mas acusou o golpe. Na foto, aquela gatinha de algumas semanas, de pelo branco e amarelo ouro, olhava, com olhinhos de “gato de botas”, para cima, como quem diz: “por favor, adota-me…”.
O garoto estava esforçando-se na escola. Prometeu comportamento exemplar em casa e nunca mais pedir nada até a próxima vez! Então, por ela, cederia! Mas havia, ainda, que falar com a mãe dela, avó dele… (bisavó da gata?).
— Nem pensar! Não vou ficar aguentando xixi de gato pela casa, um bicho pra arranhar os móveis…
— Eu limpo, vó!
— Ele limpa, mãe!
Ela sabia que talvez ele limpasse no primeiro dia… segundo… mas depois seria ela.
O impasse não havia sido vencido. A avó estava irredutível e ela ficava entre os argumentos sólidos da mãe e a ansiedade do filho.
A colega dele, dona da gata, dá o segundo golpe: um vídeo da gata brincando com uma bolinha de papel. Quem resistiria a isso? Como?
Ela passou a noite em claro. Amanheceu decidida a tentar convencer a mãe, avó do garoto. Mostrou o vídeo. A avó viu em silêncio. Silêncio era um bom sinal, não era? Tinha de ser! Mas não jogaria aquele silêncio fora perguntando um surrado “e aí?”. Deixou assim. 
A noite seguinte veio com enxaqueca e mais apelos do garoto. 
— Eu paro com as aulas de violão pra ter dinheiro para as coisas da Lucy!
Eram dois golpes seguidos: deu um nome à gatinha! E dispôs-se, ainda que não fosse durar, a abrir mão de algo que lhe importava. Era demais! Não conseguiria resistir a isso!
Na noite seguinte, mesmo sem falar com a sua mãe, avó dele, foram à pet. Compraram uma cama, caixa de areia, e até brinquedos para Lucy. Sim, Lucy! Não era mais “uma gatinha”. Já era Lucy, a Lucy, o novo membro da família!
A avó viu entrarem com todas aquelas coisas e fechou a cara. Um silêncio pesado a ser enfrentado. Mas Lucy, a doce, meiga e comportada Lucy, haveria de conquistar a avó! Mais uma noite entre sonhos, pesadelos e sonos entrecortados e, depois de trabalhar o dia inteiro ansiosa e recebendo fotos da Lucy, enviadas pelo filho e a colega dona da gata, foram, finalmente, na casa da colega buscar a Lucy.
O envolvimento fora tanto com a pequena Lucy, que ela nem havia reparado como “gata" era a colega de seu filho que, por todos aqueles dias, estreitou o contato com o garoto, por conta da adoção da Lucy.
Assim que chegaram com a Lucy, a avó olhou com alguma censura e sentou-se, como um recado, no meio do sofá. Sim, era um aviso: “aqui, nem pensar”. “Cuidem desse bicho pra lá para o quarto de vocês!” 
Assim o fizeram. Depois de várias horas brincando com Lucy, adormeceram. Ela, depois de noites mal dormidas, praticamente desmaiou. Ele, depois de algumas horas no WhatsApp com a colega, agradecendo ou sabe-se lá o quê, adormeceu. A avó estava trancada em seu próprio quarto. 
Quando amanheceu, havia riscos de unhas em todos os móveis. Xixi de Lucy em várias pequenas poças no chão. O sofá com vários arranhões e, como que por provocação, exatamente onde a avó havia sentado, Lucy havia arranhado mais. O amanhecer trouxe pânico à casa! 
A avó não disse uma palavra, mas seus olhos estampavam a cada segundo o triunfal: “eu te disse”! 
Tentaram outra noite. E outra. Houve alguma melhora. Mas Lucy foi mais forte que todos! Devolveriam Lucy. 
Em meio a lágrimas, soluços e autoflagelação, Lucy fora devolvida. 
O garoto não se conformava e passava horas e horas e horas ao celular com a colega que o consolava. Até que, duas noites depois, quando a mãe e a avó tomavam café, à noite, o garoto chegou em casa… trazendo a colega pela mão.
— Ela vai dormir aqui, essa noite, pra me consolar.
…
Bem, isso aconteceu há um mês mais ou menos. A colega não dormiu lá, claro! 
Entre a gata e “a" gata, ficaram ficaram com Lucy! 
E hoje, a Lucy já aprendeu a fazer xixi na caixa de areia e trocaram as almofadas do sofá… há até quem diga que viu Lucy no colo da avó, quando o garoto e a mãe não estavam em casa!

Luís Augusto Menna Barreto

13.6.2019

quarta-feira, 12 de junho de 2019

bora cronicar - Um Dia Daqueles...

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Um Dia Daqueles…

Tem vezes que desde que tu acordas, já sabes, pelas primeiras impressões do dia, que vais ter um dia daqueles!, né?!
5h20min, soa o despertador! Eu faço o que milhões de pessoas fazem: “só mais uns minutinhos”. Mas a cada minuto que passa, começa, já no início do dia, a acumular as primeiras cargas de culpa… por saber que já despertou e estou cometendo um auto-engano, ao acreditar que aqueles minutos não farão falta! Mas eu não me entrego: eu luto! Resisto. Sei que farão falta, mas sei que em instantes o “snooze" do despertador fa-lo-á soar novamente. A Ana vira-se para o lado, puxa o lençol e dorme! Ignora minha luta exasperada contra os minutos que avançam como colunas romanas lideradas por Cesar e Marco Antônio! Então, acontece: desperta novamente! 
Derrotado pela insistência do despertador, levanto-me por volta de 5h30. Pergunto à Ana se hoje ela vai vir tomar café em casa ou tem algum compromisso que a fará tomar o café antes de sair, sabendo que se a resposta for “hum-rum”, ela tomará o café antes de sair, o que significa que eu que farei o café!
— Hum-rum. — Assim, sem se mexer, encolhida embaixo do lençol, parece saber do meu olhar carregado de alguma inveja, porque meus próximos passos serão pegar o óculos, o livro que estou lendo ao lado da cama, e, depois, em silêncio, sair do quarto e ir até o quarto do João. Abro a porta devagar, com a esperança que o Messi não saia do quarto do João pulando em mim, porque naquela hora da manhã, tudo o que quero, é que ele se comporte… Vã esperança! O cusco pula, como que ligado em uma rotação diferente da minha! Eu o deixo sair do quarto e tenho de ir arrastando uma das pernas porque o mala do Messi simplesmente enrosca-se e começa a querer morder meu pé de tal maneira, que sequer consigo levantá-lo. Então, preparo meu café, o café do João e o café da Ana. Depois, preparo um suco para o João levar pra escola e uma garrafa de água com gelo para ele. Quando eu consigo me sentar para meu café e abro o livro na página em que estava, o Messi começa a arranhar minha perna, pedindo que eu divida o sanduíche. Eu não quero, mas fico dando pedaços do meu pão para que ele pare de encher meu saco. Depois, faltando uns três minutos para 6h, eu pego uma fruta, e o Messi quase enlouquece querendo pedaços. No fim das contas, sempre tenho a certeza que ele comeu mais da fruta do que eu. 
Ouço o relógio despertar, novamente, 6h, junto com o sino da Igreja dos Capuchinhos, distante dois quarteirões de onde moro. Pego o café que preparei para o João e, do trajeto da cozinha até o quarto dele, vejo o sol despontando no horizonte, colorindo de laranja uma faixa entre a terra e o céu. Na passagem pelo nosso quarto, chamo a Ana e o Messi entra no quarto. A Ana levanta-se e eu busco uma almofada para acomodar o João sentado na cama, enquanto toma o café que eu preparei. A Ana deita-se na cama auxiliar ao lado da cama do João, ele toma o café correndo, entrega-me a xícara, e os dois sabem que tem mais 15 minutos para descansar, enquanto eu levo as coisas de volta para a cozinha e vou me lavar, escovar os dentes e me vestir. Daí, termino tudo às 6h20min, e vou até o quarto para chama-los. Abro a cortina, tiro as cobertas do João, ouço ambos reclamarem por eu estragar o bom do sono e corro pro quarto para colocar os sapatos, enquanto o João vai para o banho e a Ana vai se vestir. 
De sapatos colocados, eu vou até o banheiro do João, despeço-me, desejo-lhe um bom dia, pego a mochila que levo para o trabalho, despeço-me da Ana que já está indo pra cozinha, e desço até a garagem. Pego o carro, coloco o podcast do Sala de Redação da Rádio Gaúcha e são 28 minutos até o Fórum de Ananindeua, pela BR que, mesmo cedo, é sempre estressante. Chego no fórum antes das 7h, fico um tempo no carro respondendo às mensagens e contatos do Twitter, e então, subo. 
No gabinete, tento olhar o Diário da Justiça, verificar relatórios e planejar o dia, antes das 8h. Assim que as portas do Fórum abrem, começam os trabalhos, tenho de verificar todos os processos aprontados pela assessoria, despachar processos mais densos, presidir audiências, atender partes e advogados, contemporizar uma ou outra questão entre colegas, responder e-mails da Corregedoria, mais processos, mais audiências, mais partes, mais processos, mais audiências, mais partes, e o tempo, relativo, sempre relativo, pula as horas como se fosse uma brincadeira de amarelinha, e vejo no relógio 14h. Depois, 15h… lembro que não almocei e, normalmente neste horário decido se ainda vale a pena e se dará tempo de almoçar, porque há sempre um processo urgente que se contrapõe ao almoço. Às vezes almoço, outras não, mergulho nos processos e, quando vejo, 17h. Nos dias que "tem Camila", saio no último horário que tenho pra sair, enfrentar a BR começando o horário do rush, e chego em casa por volta de 17h50. O Messi pula nas minhas pernas assim que abro a porta e torço pra que não faça o “xixi da felicidade”. O João corre pra falar comigo, já perguntando sobre alguma brincadeira, ou pedindo ajuda em algum trabalho escolar, antes mesmo de eu conseguir colocar os dois pés dentro de casa. A Ana chega e tem sempre algo que ouviu das notícias mais quentes ou do que está  no topo das timelines, e todos, quase ao mesmo tempo, querem atenção. 
Dividindo-me como consigo, eu tento trocar de roupa e desço comendo alguma fruta, os 10 andares até a academia, torcendo sempre, pra Camila atrasar… Nunca tenho essa sorte, e, se eu respiro um pouco mais alto já no corredor, às portas da academia, ouço: “oooooooi Luís”. Aquele “oooooo" demorado, é ela! 
Conversamos, rimos, eu sinto cada ano da minha vida em cada fibra do meu corpo, e, depois de uma hora, reúno minha energia pra dizer com satisfação: “tchau, Camila”! Acompanho a Camila até o carro para que ela não ande só na rua, à noite, volto, subo 10 andares de escada porque estou muito suado pra dividir o elevador com quem quer que seja, abro a porta, o Messi pula nas minhas pernas, o João corre para ter minha atenção  e a Ana chega com algum assunto de seu interesse. Vou pro banho, muitas vezes com a Ana a conversar na porta do banheiro, junto com o Messi. Saio do banho moído, tento pegar algum livro e vou pra cozinha tomar um café e comer um sanduíche, penso em ficar lendo e a Ana convida-me para ver a série Suits ou o João convida-me para ver a série Sherlock, e o livro fica de lado. 
Terminada a série, está na hora do João dormir e vou pro quarto com ele, pra conversarmos até que ele durma. Tem dias que durmo antes dele. Depois, vou pro quarto e, invariavelmente a Ana está dormindo, o Messi está deitado com a cabeça no meu travesseiro, tiro o Messi da cama e levo-o para o quarto do João.
Então, finalmente, vou escrever alguma coisa, se ainda conseguir manter os olhos abertos. Quando o sono vence-me, vou pra cama.
Penso em todas as coisas que quero fazer, penso nas horas do dia que simplesmente sumiram, e suspiro…
É… foi um dia daqueles… 
…
Então agradeço, e rezo pra que o resto dos meus dias sejam tão maravilhosos assim quanto foi este!

Luís Augusto Menna Barreto

12.6.2019

terça-feira, 11 de junho de 2019

bora cronicar - Pequeno Conto de Um Amor Tatuado

Pequeno Conto de Um Amor Tatuado


Essa é mais uma história daquelas tão incrivelmente comuns, em que a gente diz: “ninguém poderia imaginar…”!
E a turma da escola comentava mesmo: como logo ela, foi acabar namorando um garoto como ele? 
Ela tirava sempre as melhores notas. Era a queridinha dos professores. Trazia os trabalhos escolares mais caprichados… Enquanto as outras meninas da turma conversavam sobre namoros, ela sempre ficava mais quieta, escutava mais do que falava e admirava-se a cada história de beijos roubados, desejados, reais ou imaginários. 
Ele era da turma acima. E era mais velho que todos, porque havia repetido de ano em outra escola (era o que diziam!). Tinha uma tatuagem em cada um dos braços, uma tatuagem na mão e punho direitos, uma tatuagem no pescoço e, nas aulas de educação física, que ele não gostava mas era obrigado a fazer, podiam ver que tinha tatuagem na panturrilha de uma perna e no tornozelo da outra; usava camisas com as mangas arrancadas, transformadas em coletes, usava colares grossos, brincos e, às vezes, pintava as unhas de preto. O cabelo nunca era com o mesmo corte, penteado ou cor, de uma semana para outra. 
Ele tinha modos agressivos, e os professores não nutriam qualquer simpatia por ele.
E foi logo por ele, que ela - justo ela! - deixou-se apaixonar.
… ninguém poderia imaginar…
O tempo foi passando e, como era de esperar, as notas que ela tirava caíram. Ela mudou o modo de vestir-se e de falar. Começou a ouvir rock’n’roll… 
Todos acharam que aquele namoro não iria durar, mas acabou a escola (ela sem ter feito as melhores notas como antes) e eles ainda estavam namorando. Ela prestou vestibular para comunicação, não medicina como todos esperavam, e ele, quando terminou a escola, estava, já, com uma banda de rock. Com o tempo, houve mais tatuagens em sua pele.
Ele contou para ela, a história de cada tatuagem, e das lembranças que cada uma trazia! Havia o nome da irmã em uma delas. O nome da mãe em outra. Sobre o ponto de interrogação tatuado na panturrilha, no meio de uma névoa, ele nunca falava, mas ela sabia que aquela significava seu pai. E houve, depois de algum tempo, o nome de Dylan, o cachorro, que havia morrido depois de conquistar também a ela. 
Um dia, depois de algum tempo, quando ela aceitou morar com ele, para desgosto dos pais, sem o casamento que a mãe sonhara, ele tatuou o nome dela em uma linha vertical, no meio do peito, em letras grandes que iam do pescoço ao umbigo. 
Antes que vivessem a aventura de ter filhos, como eram os planos deles, ele adoeceu. Uma doença rápida e sem volta. 
E ela ficou ao lado dele, como fizera desde que se conheceram na escola quinze anos antes. 
Naquela época, ninguém poderia imaginar… como ninguém imaginou que se as notas dela caíram um pouco, as dele melhoraram significativamente. Ninguém imaginou que, quando ele terminou a escola, vários professores abraçaram-no com um sorriso sincero. Ninguém imaginou que ele se havia tornado um pouco ela, enquanto ela se havia tornado um pouco ele… 
E os anos que passaram juntos, foram ora difíceis, ora mais tranquilos… mas sempre, intensos!
Quando ele estava para deixa-la, sem mágoas, culpas, ou desejos frustrados, ele olhou pra ela, como olhava ainda nos tempos de escola, e falou:
— Você nunca fez uma tatuagem minha.
Ela sorriu, apenas, como fazia quando falava direto com o coração dele. 
E ele sorriu de volta o melhor sorriso, compreendendo que estava tatuado nela pra sempre!
Porque as lembranças carregadas de amor, são as tatuagens da alma!

Luís Augusto Menna Barreto

11.6.2019

segunda-feira, 10 de junho de 2019

bora cronicar - As Asas da Lalá

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As Asas da Lalá

Lagartas não são bonitas. 
Tudo bem, tu podes ser um biólogo, ou um “lagartólogo”, ou sei sei lá, alguém com olhos maravilhosamente generosos que aprecia todas as criaturas e vê beleza nelas… mas, cá entre nós… não são bonitas. Lagartas, não são bonitas!
Mas daí, vem aquela parada toda: A Lalá ( vou chamar nossa lagarta de “Lalá” para criarmos alguma intimidade com ela até o final da crônica e justificar o título) enche a pança de folhinhas, e vai ficando ali, “lagarteando”, paradinha, começa a formar um casulo… vai-se enrolando, enrolando, até que pronto: cadê a Lalá? Nunca mais! “Babaus”! Foi-se! Já era! Se tu a achavas feia ou bonita, lamento, mas nunca mais verás a Lalá! Pode ser ate que existam bilhões de outras (alguém aí tem o número da população mundial de lagartas?), mas aquela lagarta, aquela do começo desta crônica, a Lalá, nunca mais! 
Então, se tu não és cientista e foste um aluno normal, daqueles que não lembra direito a função de uma mitocôndria, tu não sabes o que acontece lá dentro do casulo! Tu até sabes o resultado, mas o que acontece lá dentro durante aquele período de uma semana até um mês, tu não sabes. Ou tu és um entomologista? Se não és, tu não sabes!
O que sabemos todos é que alguma coisa acontece! E vou afirmar do alto do meu conhecimento atestado pelo certificado de palpiteiro: nem a lagarta sabe o que está acontecendo com ela! 
Na verdade, a Lalá dentro do casulo, assim que se sente completamente envolvida, já não tem consciência de si mesma. Por mais que já possa ter sido desvendada a descrição do que acontece, com nós, humanos, senhores de todos os conceitos, tendo dado nome a cada fase, a cada elemento químico do processo de transformação da Lalá, não conseguimos explicar o que acontece. Veja-se que descrever é diferente de explicar. Assim como sentir é diferente de explicar. Há mil exemplos disso, e o amor é um dos melhores, porque em geral, sentimos e não sabemos explicar. Muitas vezes até descrevemos o que sentimos, mas não conseguimos explicar. 
Pois a Lalá estava lá, sem mais nem se saber Lalá, sem mais nem ter consciência de que era Lalá, sem ter consciência, sequer, do que era. Não se sabia mais lagarta. Não sabia das transformações em si. 
A Lalá levava sua vidinha de alguns meses, com uma única preocupação: encontrar folhas saborosas e ir devorando, com calma, arrastando-se por galhos próximos uns dos outros, enchendo sua pança, até que, por simples instinto, sentiu-se satisfeita, enrolou-se e… ganhou asas! De repente, sem nem saber que fora um dia Lalá, viu-se de asas e passou a ganhar o mundo. Jamais voltou ao casulo. Jamais soube sequer que fora “Lalá, a lagarta”. 
Por que estou falando na Lalá? 
Bem, hoje eu estava sem idéia nenhuma. Nada. Parece que meu cérebro estava somente comendo folhinhas, e seguindo em frente. Daí, em uma das redes sociais, respondi a um comentário (enquanto escovava os dentes e lia “Contagem Regressiva” do Ken Follet - tudo mais ou menos ao mesmo tempo) e tive a idéia pra falar sobre a Lalá.
Porque às vezes, acho que a literatura, os textos, poemas, crônicas, são como lagartas… ficam ali, de alguma forma tranquilos, simplesmente alimentando-se… em algum lugar encontram folhas em nosso cérebro e ficam como a Lalá, engordando. Até que, de repente, resolvem “encubar-se”, “casular-se”… e, de repente, viram letras! 
Assim que damos letras aos pensamentos, perdemos o controle sobre eles. Sequer eles podem pertencer-nos mais. São livres para serem vistos e cada um os vê e apropria-se deles conforme sua própria visão, conforme seu próprio sentimento. 
Então eu descobri que os pensamentos formam-se em casulos no nosso cérebro.
…
As letras, são as asas do pensamento. 

(Obrigado Cida Celistre)
“Mas que lindo…  peço licença para compartilhar”
- Sobre o pequeno texto “…batalha!”

“Jamais precisas pedir licença… 
quando o pensamento transforma-se em letras, ganha asas…!

Luís Augusto Menna Barreto

10.6.2019

sexta-feira, 7 de junho de 2019

bora cronicar - O Noivo Foi no Casamento?

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O Noivo Foi no Casamento?

Eu já fui em alguns casamentos, claro.
Tu também já deves ter ido, caro leitor. Mas eu tenho uma pergunta: tu foste como convidado do noivo, ou da noiva? Ah!, isso faz, sim, muita diferença!
Por exemplo: teve uma vez que fui convidado para o casamento de um amigo de infância. Quando cheguei na Igreja, já tinha bastante gente e fiquei lá no fundo. Conheci poucas pessoas, na verdade… Mas eu havia chegado poucos segundos antes da noiva entrar, então, achei que era porque eu estava muito no fundo da Igreja. Então, quando fomos para a festa, que seria no salão ao lado da Igreja, fui procurar os amigos comuns -processo natural para quem vai em festas de casamento. 
A festa era relativamente simples, embora muito bonita. Mas não havia mesas numeradas ou lugares marcados. Então, saí pelo salão procurando os amigos. Encontrei dois deles, ainda solteiros, como eu, na época. Acabamos sentando em uma mesa no fundo do salão. Encontrei, ainda, um outro camarada, mas que já estava casado e, então, não ficou com a gente. Ficou bem longe de nós, lá perto da mesa dos noivos. De amigos mesmo, da nossa turma, foi só esses que vi.
Mais um tempo passou e, já namorando a Ana, fomos convidados para um casamento de uma das amigas da Ana. Festão! Eu não conhecia quase ninguém. Mas a Ana, amiga da noiva, conhecia muita gente. Ficamos em uma mesa muito boa, logo depois das mesas dos parentes… da noiva!
Daí comecei a reparar mais nas festas de casamento. Havia um certo padrão: se eu ia como convidado da noiva, ou acompanhando a Ana como convidada da noiva, normalmente havia muitos conhecidos e acabávamos ficando em uma mesa boa, próxima da pista de dança, ou da mesa da noiva. Mas quando eu era convidado do noivo, nunca encontrava toda a turma e, normalmente, ficava em mesas perto de alguma parede!  Comecei a notar isso, também, na cerimônia da Igreja: convidados das noivas ocupavam vários bancos, normalmente, os primeiros. Chegavam antes, inclusive! Convidados do noivo eram poucos, poucos bancos. Uma vez, em um casamento em uma Igreja bem pequena, porém, muito linda, já aqui em Belém, até os bancos da Igreja estavam organizados para os convidados: havia vários, bem na frente, reservado aos convidados da noiva. Daí, havia 1 lugar para a mãe do noivo, no primeiro banco, e, depois, na quinta fileira de bancos, no lado esquerdo, havia 1 banco reservado aos convidados do noivo! Um!
Na festa, de novo: atrás de mim, só a parede!
Outra coisa que comecei a notar, nos casamentos, era que durante a festa, todos os comentários eram acerca da noiva e seu vestido! Ate convidados do noivo, comentavam sobre a noiva! 
Foi aí que eu meio que me flagrei de uma coisa: o casamento é para a NOIVA. Pois é! Eu sei que isso deve ser algo que todo mundo sabe, mas eu demorei pra descobrir! 
Num casamento, o noivo é apenas… necessário, digamos assim. Mas só isso! O noivo é aquele sujeito que estará no altar esperando a noiva, para que ela, maravilhosamente ela, não esteja sozinha. É o acompanhante da noiva! Tanto assim, que o noivo entra primeiro, sem maiores pompas. Nem é preciso levantar para a entrada do noivo. Não tem música para o noivo! Mas, quando a noiva entra… ah…. Todos em pé, frio na barriga até de quem já casou 4 vezes… música de casamento! 
Até o padre! O noivo entra, e o padre nem tchuns! Muitas vezes, nem saiu da sacristia! Mas pense quando a noiva entra: tá lá o Padre, com todos os paramentos, batina passada, banho tomado, até perfumado!
Daí, que passa o tempo, e todos ainda lembram do vestido da noiva, do véu, de como ela jogou o bouquet, do penteado e da maquiagem… e o noivo? Báh, dois dias depois, o único que lembra da roupa do noivo, é o atendente da loja de aluguel de roupas, porque a roupa ainda precisa ser devolvida!
Em resumo: se tudo correr absolutamente bem no casamento, se tudo der realmente certo, o noivo não será notado! Então, meu caro leitor homem, e, quem sabe, pretendente ao casamento: se tu quiseres um bom casamento, dê um jeito de não ser notado. Isso! Se ninguém te perceber, saibas que passaste o casamento, incólume. Em outras palavras, foste perfeito! Entendas: o casamento é da NOIVA! Tu somente serás notado em uma hipótese que tu tens que dar a vida para não cometeres! Presta atenção: haverá casos em que seria preferível a noiva chorar uma viuvez, do que tu aguentares a ira da noiva ao tu teres sido notado no casamento! Porque só há uma, umazinha, uma só maneira do noivo ser notado no casamento: se fizer alguma coisa errada! 
Nenhuma gafe será perdoada ao noivo… e tudo que ele fizer de absolutamente certo, não será notado!
Eu levei tempo pra entender isso. E achava francamente injusto! Até que…
…
Igreja cheia… marcha nupcial… todos levantam… meu coração dispara! Não havia nada entre meus olhos e a porta… e então eu a vi entrando. O mundo parou. 
… e eu entendi, finalmente!

Luís Augusto Menna Barreto

7.5.2019

quinta-feira, 6 de junho de 2019

bora cronicar - Até Tu, Pedro?

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Até Tu, Pedro?

“Nem te arruma, que tu não vais mais”!
Essa expressão fez sucesso algum tempo, no Marajó, entre meus amigos. E, depois, virou um chavão, uma frase feita, dessas que a gente recorre quando quer dizer alguma coisa sagaz! 
Eu não lembro ao certo quem estava demorando a arrumar-se, e todos iriam sair. Então, com a intimidade que amigos tem, uma menina que trabalhou um tempo no fórum, falou para o “embromão”: “Nem te arruma que tu não vais mais”.  Pegou!
Eu sempre quis ser o “dono”, ou o “inventor" de uma expressão dessas, que fica famosa ou cai no vocabulário popular. Outra que eu ouvi pela primeira vez em Breves, no Marajó, foi do Oficial de Justiça Luís Otávio que contou que certa vez um amigo ligou pra ele convidando para sair. O diálogo foi mais ou menos esse:
— Alô, Luís?
— Fala, “bróder”.
— Bora bem ali tomar uma?
— Na hora. Mas tu podes quebrar uma pra mim?
— Qual é?
— O pagamento não saiu ainda. Banca essa que depois te dou a forra.
— Égua, parceiro! Não vai rolar. Bora deixar pra outra vez.
— Poxa, não vais fazer essa pro teu “bróder”?
— Desculpa aí, mas… liso fica em casa!
Pronto. Quando o Luís Otávio contou dessa tora que ele levou, foi muita risada e virou gíria: “liso fica em casa”.
Até hoje a gente usa essa expressão. Não sei se ela já era corrente, mas a primeira vez que eu ouvi foi com o Luís Otávio contando essa potoca pra nossa turma do Fórum de Breves.
Eu não escondo que tive uma certa inveja de cunhar uma frase que depois é repetida por todos. Acho que deve ser mais ou menos como fazer uma música de sucesso, que cai no gosto popular. Deve ser uma satisfação ouvir que está na boca de todos. Pois eu queria essa sensação.
Na história, há várias destas frases. Mário Quintana era expert em cunhar pequenas frases que são repetidas exaustivamente. Quem nunca falou “eles passarão, eu passarinho”? Ou quando o prefeito de Alegrete, cidade natal do Quintana, quis homenageá-lo, com um busto seu em bronze, e o poeta teria recusado, demonstrando alguma modéstia, e justificando que “um erro em bronze é um erro eterno”. Pois o prefeito cunhou a frase em bronze e homenageou-o colocando uma placa de bronze com a frase, bem, onde seria o busto!
Barbaridade! Mais do que ter uma frase repetida é uma frase cunhada em bronze na praça, e ninguém precisar sequer ler, porque todos a sabem de cor! Imagina uma homenagem ao meu amigo Luís Otávio: um busto seu, na praça, e a placa em bronze: “Liso fica em casa”! Eu me contorceria de inveja!
E, cá entre nós, frase por frase, tem o imbatível Getúlio, que termina sua carta suicida com “saio da vida para entrar na história”! Mas báh, acho que essa é a maior de todas. Mas uma dessas, não quero! Quero continuar vivo e desfrutar do sucesso da frase!
Dai que tem outro figurão da história que também cunhou boas frases: Júlio Cesar. Isso, o imperador romano! Ou alguém aí nunca ouviu “vim, vi, venci”? Francamente espetacular essa! 
E é de Júlio Cesar, também, uma das mais famosas frases de todos os tempos. Preparados? Lá vai:
“Até tu, Brutus, filho meu?”, depois, contraída para apenas “até tu, Brutus?”. Cesar teria dito, já nos estertores, quando várias vezes apunhalado, viu, entre os senadores que o apunhalavam, seu filho adotivo, Brutus! A frase, pois, passa à história, como um sinônimo de acusação de traição. Quantos já disseram, usaram, ou viveram a experiência de olhar para alguém e olha-lo com aquela expressão de “até tu, Brutus?” 
Penso que todos os brasileiros disseram isso, em seu íntimo, quando o Zico, em 1986, na copa do mundo, cobrou o pênalti para a defesa do baixinho goleiro da França, Joel Bats! Zico perdeu o pênalti. Zico! 
Bem, o fato é que esta é uma das frases mais incríveis de todos os tempos! 
E vou dizer por que estou falando nisso! Porque se eu não cunho frases famosas, ao menos inspiro alguns a dize-las! Pois eu o fiz! 
Outro dia, contei a todos a minha saga com a minha Personal, a Camila, nas crônicas “Hoje Não Tem Camila” e “Hoje Tem Camila”. Pois saibam que normalmente quando eu chego na academia, está lá um vizinho de 14 anos, o Pedro! Ele também faz academia com a Camila! Ele era, até um tempo atrás um garoto que aparentava algum sedentarismo, mostrando formas acima do peso. Pois o guri está afinando, definindo músculos, e ganhando força aeróbica! 
Então, ele está com todo o gás e eu chego, com aquela minha suuuuuuuuper disposição: arrastando as pernas, ombros baixos, ar de cansado e torcendo pra Camila ter-se atrasado, o que nunca acontece. O Pedro contrasta comigo na energia!  A Camila sempre o adverte para que jamais se inspire na minha chegada! 
Pois terça-feira, que era “dia de Camila”, ao sair da academia, o Pedro, ao despedir-se, surpreendeu-nos:
— Tchau ‘tio' Luís, tchau Camila! Ah, amanhã vai ser ótimo, amanhã não tem Camila!
Tamanha surpresa da Camila que sem pestanejar ela falou:
— Até tu, Pedro?
…
Ouvindo aquilo, deu até vontade de comemorar. Mas eu tava sem dinheiro. Pensei em ligar pra algum amigo, mas nem pensar né?! Vai que eu ligo e recebo na cara dura um “liso fica em casa”?!

Luís Augusto Menna Barreto

6.6.2019

quarta-feira, 5 de junho de 2019

bora cronicar - Memória Seletiva

bora cronicar

Memória Seletiva

Papa-Capim; Rola-Rola, Arranca Toco, Arrasa Quarteirão e Inácio Gaiola; Eram protegidos pelo Espalha Gato. Formação clássica, os dois meias eram Rapidinho pela direita e o craque Deixa Que Eu Chuto. Clássico trio de atacantes com dois pontas e um centro avante: Corre-Corre, Reservinha e Esquerdinha. 
O que é isso? Meu time de futebol de botão. Botões puxadores. Um de cada cor, com tamanhos e espessuras diferentes, escolhidos criteriosamente para o melhor desempenho em cada posição. Eu os colocava com galhardia no Estrelão, e via o adversário engolir em seco, já prevendo a goleada! Nunca esqueci dos nomes que eu dava a cada um dos Botões Puxadores do meu time!
Sim, eu lembro! Outra:
“Para ser poeta era preciso sofrer com desespero os embates da paixão desordenada e sentir na vida boêmia os negros pesares do infortúnio. Era preciso descrer da felicidade e morrer jovem.” Essa frase é de alguém chamado Dino Fontana, que eu confesso, não sei quem é ou quem foi. Eu li a frase em algum livro de literatura, recomendado pela Professora Francelina, no segundo ano do 2º grau, quando a gente estava estudando o romantismo na literatura. 
Eu li essa frase uma vez na minha vida. E ficou ali: arquivada na minha memória!
"Iracema" de José de Alencar, eu li duas vezes. Mas na primeira eu já decorei toda a primeira página, que começa com “Verdes mares bravios de minha terra natal, onde canta a jandaia nas frondes da carnaúba…”. Nunca esqueci.
Eu sei também o final de “Memórias Póstumas de Brás Cubas”, que eu nem gostei, mas achei o final divino, e sei o final de Cem Anos de Solidão, palavra por palavra.
Ah!, e eu sei que a força de atração ou repulsão é diretamente proporcional às cargas elétricas e inversamente proporcional ao quadrado da distância. Aprendi na aula de física da professora Zeliza! Eu também sei a fórmula de Bhaskara, mas essa nem vou me gabar, porque tem um montão de gente que nunca mais esqueceu (acho que essa traumatizou muitos e apaixonou alguns).
Tudo bem. Tu deves estar-se perguntando, caro leitor, o que uma coisa tem a ver com a outra? Que diabos a escalação do meu time de futebol de botão que eu jogava com o Cuca, aos 9 anos de idade, tem a ver com Iracema ou com a força das cargas elétricas?
Vou dizer: eu lembro! Nunca esqueci! 
Por que eu lembro disso? Ah… Essa  é a pergunta! Não faço idéia! Eu simplesmente lembro! 
Sei a escalação da seleção de 82, aquela famosa que perdeu pra Itália por 3 x 2 no Sarriá. Mas isso não é vantagem nenhuma, porque muitos da minha geração jamais esqueceram aquela escalação. 
Mas querem saber? Eu não lembro o nome da Sophia que trabalha todos os dias na mesma equipe profissional que eu. Na verdade, o nome dela não é Sophia. Mas eu nunca lembro e, então, eu olho pra ela e vejo: “Sophia”! Daí, eu a chamo assim e ela tem a delicadeza de não ficar chateada comigo. Aliás, agora que ela vai ler isso e descobrir que eu a chamo de Sophia com “ph”, acho que ela vai ficar mais feliz ainda. 
A mesma coisa acontece com a Isabella (com dois “L”), cujo nome também tenho muita dificuldade de lembrar! Ou com a Vera Mossa (não, não a jogadora de vôlei da seleção), a que trabalha na equipe também. Eu a chamo assim, justamente porque ela é alta e joga vôlei, uma ponteira com pancada forte. Daí, como nunca lembro o nome dela, eu a chamo de Vera Mossa, como uma homenagem!
Um tempo atrás, a Ana comprou uns dispositivos que são uns quadradinhos pouco mais grossos do que um cartão de crédito, porém menor. A Ana disse pra eu colocar um no chaveiro do carro e outro na minha carteira. Eles são localizadores. Emitem um som, quando acionado o aplicativo pelo celular e mostra na tela do celular a localização deles. Porque eu vivo esquecendo onde larguei a carteira ou a chave. 
Ontem mesmo, uma amiga vendeu-me um alfajor, e, quando eu fui pagar, descobri que eu esqueci a carteira em casa. Inclusive a de motorista e os documentos do carro! E estava bem tranquilo, andando por aí, inclusive na BR!
Acontece, que pelo rumo que minha vida tomou, eu penso que tem muita coisa que eu poderia “deletar" e ocupar o espaço francamente ativo da minha memória com informações mais importantes! Por exemplo: eu trocaria agora mesmo a lembrança da fórmula de Bhaskara, pela lembrança dos nomes das servidoras que trabalham na minha equipe!
Eu trocaria a escalação do meu time de futebol de botão (eu anoto em um papel e deixo na gaveta, se eu precisar lembrar) pela lembrança de onde largo as chaves, ou minha carteira.
Hoje mesmo, no trabalho, eu penei para encontrar o artigo trezentos e trinta e… bah!, esqueci! Sério! Eu vi hoje mesmo, quando um colega estava trocando idéias comigo sobre a improcedência liminar da ação! Eu sabia que isso existia e estava regrado no Código de Processo Civil, eu até disse pra ele, porque isso o ajudou a solucionar um problema! Daí, ele me perguntou: “qual o artigo?” E eu não sabia! Espremi a memória tentando achar, e nada! Nadinhas. 
Depois de alguma pesquisa no índice remissivo, consegui encontrar, mas houve esforço. E eu já esqueci e sei que amanhã, já nem vou lembrar que é ali pelo artigo trezentos e pouco! Pois eu trocaria agora mesmo a fórmula da força das cargas elétricas por alguns artigos de lei, especialmente os mais usados! 
Amanhã mesmo, eu tenho um caso na minha mesa, que vai resolver-se pela interpretação da previsão legal da possibilidade de renovação compulsória de contratos de alugueres não residenciais… e eu sei que existe a previsão legal, mas não sei o artigo! 
Isso é algo que eu deveria ter na memória! Isso é meu dia a dia! Eu trocaria o final de Memórias Póstumas de Brás Cubas por esses artigos, trocaria a frase de Dino Fontana, trocaria…
…
Não! Ok, pra tudo há um limite! Passo o resto da vida procurando todas as vezes o mesmo artigo, mas não negocio “Iracema" nem “Cem Anos de Solidão”!

Luís Augusto Menna Barreto

5.6.2019

terça-feira, 4 de junho de 2019

bora cronicar - O Xixi da Felicidade

bora cronicar

O Xixi da Felicidade

Eu ia escrever sobre outra coisa… mas eu preciso, simplesmente PRECISO desabafar!
Vou escrever sobre o Messi. Não, não o craque argentino. O Messi mala, aquela bola de pelos que me deixa estressado. Isso, o nosso cachorro!

Eu lembro como era chegar em casa há dois anos e pouco atrás: se havia alguém em casa, eu gritava um original “cheguei”, e o João (se estivesse em casa) ou a Ana, depois de um tempinho, apareciam na porta pra saber as novidades. 
Se nenhum dos dois estava em casa, eu chegava, largava as coisas com calma, ia trocar de roupas e pegava algum livro ou mesmo ia para o computador, e esperava alguém chegar! 
Mas com o Messi… ah, não! 
O Messi parece que tem um “radar” muito acurado. Quando o elevador vai chegando no nosso andar, ele levanta as orelhas antes mesmo de o elevador abrir as portas. Quando alguém sai do elevador, especialmente o elevador de serviço, o mala começa a cheirar a porta, arranhar com as patas e começa a pular na porta e eu tenho certeza que se ele tivesse uns dez centímetros a mais, ele abriria a porta, pulando no trinco para abaixa-lo. 
Daí, falando em abaixar, acontece um problema: o Messi começa a pular nas pernas de quem chega! Ah, tá, é bonitinho e tal… arrã, vai nessa: basta alguém se abaixar pra cumprimentar o cusco que ele “solta as pregas”… tá eu sei que é indelicada a expressão, mas com a fúria que eu estou, não consigo ser mais delicado! Sendo claro: ele faz xixi, mija-se todo e, eventualmente, a pessoa a quem ele está querendo agradar também é “presenteada" com pingos de felicidade do Messi. Daí, o cachorro entra num estado tal de vergonha, que ele meio que se encolhe todo, o toco de rabo que ele tem some de uma tal maneira entre as pernas do bicho, e ele sai quase arrastando a bunda para debaixo do armário da pia da cozinha, ou para debaixo da nossa cama! 
Só que às vezes deixa um rastro de xixi! 
É o tal “xixi da felicidade”. Precisa isso? Eu ficaria contente até com uma lambida da felicidade! Ou uma farejada da felicidade! Forçando a barra, até com um latido da felicidade eu ficaria contente! Mas precisa ser um “xixi da felicidade”?? 
Então, todo mundo que chega aqui em casa, a gente adverte: “não abaixa pra fazer carinho”. Claro, quando chega alguém diferente, nós até prendemos o cusco na cozinha, com um portãozinho daqueles que a gente compra para evitar que bebês passem para uma peça “proibida” da casa. Era o portãozinho do João, agora é do Messi! 
Bem, caro leitor, tu deves estar-se perguntando: “mas se eu sei que o mala faz o “xixi da felicidade” em caso de alguém abaixar, qual é o problema?”
O problema é que ele anda “aprimorando" sua técnica. Agora, quando eu chego e não tem ninguém em casa, assim que eu entro no corredor saindo do elevador até nossa porta, eu já ouço o Messi arranhar a porta! Da pra notar a excitação do cachorro! Mas quando abro a porta, ele começa a fazer um “dengo" novo pra chamar a atenção: sem fazer xixi nenhum (parece bom, né? Mas espera!) ele faz aquela expressão toda de vergonha e vai como um coitado condenado à forca subindo no cadafalso, e enfia-se embaixo do armário da pia, e fica fazendo aquele “chorinho" de cachorro que não passa de um ganido.
Tu resistirias a isso? Pois é, eu também não! Daí, mesmo ainda com roupa de trabalho, largo a mochila em cima da mesa da cozinha, telefone, tiro os fones de ouvido, e eu me presto pra abaixar-me bem, enfiar um dos braços lá embaixo e puxar a “pobre vítima” pra fora, coço a barriga do cachorro e ele começa, bem devagar, a perder a timidez! 
Ah, que lindo!… não! Nã-nã-ni-nã-não!
Porque daí, ele espera eu me distrair, vai atrás de mim onde eu vou, fica enroscando nas minhas pernas, até que eu simplesmente esqueço que recém cheguei… e cometo o erro crasso: eu me abaixo pra fazer carinho no mala!
… 
Eu acabei de chegar em casa! faz exatamente 22 minutos (nesse momento). Estou escrevendo rápido, pra conter a minha fúria! Nem sinal dele! Mas eu sei onde ele está: embaixo da cama! Com o rabo no meio das pernas! 
A Ana e o João chegarão em minutos! 
Vou terminar aqui, antes que eles cheguem! 
Eu me abaixei. Agora vou pagar o preço:
Vou ter de limpar a poça de xixi que está bem ali, olhando pra mim!

Luís Augusto Menna Barreto

4.5.2019