segunda-feira, 23 de março de 2026

Parece Que Foi Ontem



    Primeiro, a gente passa a fieira na parte de cima, faz a volta no cabo minúsculo na parte de cima e desce a fieira na vertical, passando pela parte mais larga e acompanhando toda a lateral de madeira até a ponta feita de prego, porque bom é com ponta de prego! Então, circula a ponta de prego com a fieira e começa a enrolar bem apertado de baixo pra cima, da parte mais fina até a parte larga, de modo que praticamente seis quintos do corpo de madeira fica enrolado pela fieira. O segredo tá em não deixar nenhuma folga, dando voltas com a fieira até ficar um pedaço bem pequeno de fieira solta. Esse pedaço pequeno, a gente segura com minguinho e o seu vizinho (os dedos mínimo e anelar). Daí, segura ele de cabeça pra baixo e coloca o fura-bolo (indicador) na ponta do prego, e o mata-piolho (polegar) no cabo… concentração… daí atira com força, num ângulo de pouco mais de 45º… sem deixar a fieira escapar dos dedos… ele se vai desenrolando da fieira em um milésimo de segundo, e a dica é que antes da fieira se desprender totalmente, a gente dá um último puxão, que é bem no instante em que ele faz o movimento de ficar com a ponta de prego pra baixo! Fica aquele momento tenso… ele quase raspa o corpo no chão, girando em um círculo grande… depois menor… menor… vai ficando mais vertical… e então, em um segundo, está ali, girando com a velocidade do mundo, da pressa da imaginação de criança… girando retinho no chão quase sem vibrar para lado nenhum, como se estivesse parado e fincado no chão. E é nesse momento, em que a gente coloca as “costas" da mão no chão, abre os dedos fura-bolo e pai-de-todos (médio) vai aproximando por baixo a mão, até que a ponta de prego girando como se fosse uma broca em uma furadeira está quase tocando nossa mão onde as falanges unem-se com a palma e, num movimento rápido, brusco, de “tesoura”, fechamos os dedos e vem o momento da apoteose: o pião gira bem na palma da nossa mão e nós a vamos erguendo para mostrar a todos os olhos curiosos em meio às interjeições de “óóóóhh”. Saboreamos o momento em que dominamos o pião, e o exibimos literalmente na palma de nossa mão, ainda girando sem qualquer vibração ou indicação de que perderá a rotação. 

    Para finalizar o espetáculo, trazemos a mão espalmada onde o pião gira, para a linha de nossa cintura e, num movimento quase inesperado para os incautos, lançamos o pião, ainda girando, para o ar, de modo que ele sobe acima de nossa mão, mais ou menos na altura do queixo, e aterrissa no solo, ainda impávido, ainda altivo, ainda girando.

    Então, depois de o pião portar-se exatamente como pretendíamos, nós não o permitimos que tenha um final indigno, e, antes que perca a força, em um movimento rápido e preciso, nós o pegamos de uma vez só, ainda girando, de modo a que descanse ao abrigo de nossa mão, até que, convencido por quem viu o espetáculo, nós o repitamos explicando como se faz.

Eu joguei esse pião no domingo, antes de ontem, frente aos olhos curiosos e maravilhados do meu pequeno João! Ouvi sua expressão de “óóóóhh”.


Tem coisas, que parece que foram ontem… outras, foram!





Luís Augusto Menna Barreto, em 26 de fevereiro de 2019



6 comentários:

  1. Que legal!!! Eu conhecia esse pião.Nunca joguei. Mas o pião da minha época era de lata colorida, grande. A gente fazia um movimento na haste de cima para dar velocidade e os furos faziam o ar vibrar num uhhhhhh como vento. Eu, ainda bem pequena, tinha medo do pião, que era das minhas irmãs. O seu exigia habilidade. Minha filha brincou de ioiô.

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    1. Ioiô... teve um tempo que a Coca-Cola (ou era a Pepsi?) fizeram promoção e a gente juntava tampinhas e mais uns trocados e conseguia um ioiô bem profissional... hoje eles dão códigos de barra em latinhas para a gente ir para algum aplicativo em que ficaremos escravos do algoritmo... (minha luta contra o algoritmo... por isso uma newsletter: não depende do algoritmo entregar, a newsletter entrega diretamente para quem quer!).
      E tinha pipa (pandorga, papagaio - tantos nomes), e tinha latas de Nescau, que furávamos com pregos, colocávamos areia, uma corda e viravam carrinhos... e. tinha o pedaço de pote de iogurte preso com prendedor de roupa, no "garfo" da roda da bicicleta, para ir batendo nos raios e fazendo um "tlec-tlec" delicioso... e tinha cirandas... e cordas que pulávamos... e pneus, e velas... e potes de desodorante que eram de "expremer" (quem aí lembra do "Avanço") e viravam pistolas de água no verão...

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  2. Admirava essa brincadeira de jogar e fazer o pião rodar, que habilidade em pegar na palma da mão, até passar pra outra mão e ainda continuar girando.

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    1. Né, Nice...? Eu tinha pena de deixar o pião perder a força... não gostava de ver ele caindo. Parecia pessoa desmaiando. Gostava de ver girar. Quando ele começava a perder força, eu pegava. Mas tinha vezes que era inevitável, porque uma das brincadeiras era traçar o círculo na calçada (que a gente traçava com pedaços de pedra que funcionavam como "giz" na calçada) e todos jogávamos piões em uma batalha para ver o último que ficava em pé girando. (depois disso, com o João, brinquei de "Bay-Blade", que não deixa de ser um pião moderninho, mais ao menos não tem tela... rsrsrsr)...
      Olhávamos amigos nos olhos, víamos as unhas sujas de terra, os joelhos ralados... medíamos cicatrizes e arrancávamos a "casquinha" do machucado, depois de um dia de mertiolate colocado sem pena pela mãe, que pintava nosso machucado de vermelho!
      Gosto de lembrar... nem quero fazer a defesa de que naquele tempo que era bom... acho que todos nós somos legítimos a achar que o nosso tempo tenha sido o melhor... apenas quero dizer que ter tido aquele tempo para ser criança, foi bom! Sem comparações.
      Aquela foi minha infância, e foi boa. E eu desejo de todo o coração, que as crianças de hoje, tenham o mesmo sentimento daqui 40 anos... que possam dizer que foi bom, com a realidade que deixamos para eles.

      No fim, penso que as crianças de hoje, não tem culpa pelos celulares e iPads e vídeo-games que lhe roubam boa parte do tempo e da vivacidade de ser arteiros.. a culpa é NOSSA... MINHA... da minha geração, que preparou esse mundo torto para eles.
      Se achamos tão bom como era antes, porque não fizemos repetir o mundo...?

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  3. E tinha o telefone sem fio tb com latinhas e saía cada besteira. Eu brinquei com meus filhos disso tb. Eu não tenho netos dessa geração, aliás tenho netos de 4 patas apenas. Não sei como agiria hoje em dia. Meus filhos tiveram uma mãe carinhosa, mas com autoridade; hoje sou uma adulta doce, mas com atitude. No meu canal do Youtube falo sobre isso. Algumas dicas de mãe.

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    1. Sim!!! E tinha o telefone COM FIO… duas latas ou potes de iogurte unidos com um fio!!

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