Mostrando postagens com marcador pilha. Mostrar todas as postagens
Mostrando postagens com marcador pilha. Mostrar todas as postagens

terça-feira, 11 de agosto de 2026

Eu, o Pilha e o Circo


 

"(...) A graça não “tá” em viver a vida dos outros, otário! … só acho que seria bom poder não ter que viver a nossa vida um pouquinho… (...)"


A minha perna ainda “tava” com gesso. Só na canela, porque a parte que descia “pro” pé, eu mesmo fui arrancando. Queria era tirar tudo, mas o Pilha disse “pra” não tirar porque rico fica com pena de criança quebrada!

Faz tempo que eu “tô” com esse gesso. Nem lembro quanto. E também não sei se já tinha que ter tirado ou não, porque eu e o Pilha saímos fugidos do hospital. “Tava” com medo que me levassem para o juizado e o Pilha me salvou! Ele arranjou uma cadeira de rodas e saiu empurrando à toda velocidade; mas os homens do hospital correram atrás de nós. O Pilha disse que eram os “polícias” do juizado disfarçados… daí, ele jogou a cadeira na frente de um carro e me levou na cacunda!

Depois, nunca mais voltamos no hospital e “tô” com o gesso na perna, ainda!

Anda muito quente de novo… por isso que viemos pro parquinho, ficar na nossa árvore.

— Eu queria voar, um dia…

Eu “tava”  olhando o céu, pelo meio das folhas da árvore… eu achei que tinha só pensado, mas acho que eu falei alto… porque o Pilha falou:

— E eu, às vezes, eu queria ser ator…

Eu fiquei meio sem saber o que dizer. O Pilha nunca falava assim… mas achei que eu tinha que dizer alguma coisa!

— … iiihhh… cheirou cola vencida? Ficou doido, Pilha?

— Doido “é tu”, que quer voar. Até por cima de carro já voou, mané!

— Não sei que graça tem em ser ator, Pilha… ficar vivendo a vida dos outros!

— A graça não “tá” em viver a vida dos outros, otário! … só acho que seria bom poder não ter que viver a nossa vida um pouquinho…

Eu não entendi muito bem… Mas achei engraçado imaginar o Pilha, todo pequeno, numa roupa de gente grande e fazendo biquinho pra falar…! Porque é assim que ator faz, né?!

Mas depois, achei estranho que o Pilha passou o dia mais quieto. Parece que “tava” com o pensamento longe.

No domingo, normalmente o Pilha vai “pro” centro ajudar o irmão dele vender DVD que eles pegam com um chinês. Mas nesse domingo, o Pilha chegou cedo no muro onde a mãe tinha arrumado “pra” gente dormir. 

— Bora mané! 

— Onde Pilha?

— Shhh! Bora. Vamos ganhar uma grana dos ricos!

Eu fui com o Pilha. Ele sempre sabe o que fazer. Acho que caminhamos umas duas ou três horas, atravessando a cidade, até que lá, depois de uma curva na Zona Norte, apareceu uma baita barraca de lona. Era um Circo!

— Vai trabalhar no circo? Virou palhaço, Pilha?

— Cala a boca, mané! “Tu é” muito burro!

O Pilha é mesmo esperto: o ingresso “pro” circo “tava” trinta pilas. O Pilha descobriu um lugar meio escondido, que dava “pra” passar embaixo da lona. Daí, que ele começou a passar umas crianças por baixo da lona, por 2 pilas cada. Eu ficava cuidando, enquanto ele passava as crianças! Mas eu só podia olhar de um lado, né? E o circo é redondo, então, não tinha como cuidar os dois lados! Daí, que um palhaço chegou pelo outro lado e pegou o Pilha! Ouvi ele gritar! 

Eu saí correndo desesperado. Tinha que dar um jeito de salvar o Pilha! Mas como é que se salva quem vive salvando a gente? Quando cheguei correndo, vi o Pilha sendo arrastado pelo braço “pra” trás de um caminhão. Corri o mais que pude, mas quando cheguei não vi mais eles, e nem ouvi os gritos do Pilha!

Fiquei desesperado! Comecei a procurar por tudo que era lugar.

Quando eu “tava” olhando um domador dar comida para dois leões que pareciam mais magros que eu, tomei um susto com uma mão no meu ombro! Era o Pilha!

— Bora, Mané! Ainda dá “pra” ganhar mais uns pilas.

— Mas Pilha, o que houve? Como "tu te livrou” do palhaço?

O braço dele “tava” meio vermelho, mas era só. Eu nem imaginava o que ele fez, mas o Pilha sempre dá jeito em tudo!

— Depois te conto, bora!

— E se o Palhaço volta?

— Não vai voltar!

E o Pilha logo logo arranjou mais crianças “pra” passar por baixo da lona! Eu fiquei cuidando de novo. Mas “tava”  apavorado!

Depois, começou um barulhão. Parou de chegar gente! Ia começar o Circo. Eu “tava” louco pra ver. Mas o Pilha disse que a gente tinha que conseguir mais dinheiro. Não entendi muito bem, porque o Pilha não era louco por dinheiro. A gente sempre conseguia só “pro” que tava precisando! O Pilha nunca foi de juntar e ficar guardando. Ele sempre fala que dinheiro que a gente não usa é só papel velho que não serve “pra” nada!

Mas fui com ele. E não sei de onde, ele conseguiu um isopor cheio de refrigerante. Era enorme, a gente quase nem podia carregar!

— Bora vender que fica mais leve! — Ele falou.

Entramos no Circo e começamos a andar pelo meio das pessoas. No começo não vendemos nada, mas, depois da metade, começamos a vender muito. Quando dava, eu espiava um pouco. Mas o Pilha ficava o tempo todo contando o dinheiro e dizendo “pra” gente vender mais.

Antes de terminar, o Pilha me falou pra ficar com a caixa perto da saída que ele já voltava. Eu fiquei. Terminou o circo e ele não voltava. Comecei a ficar com medo, e me escondi com a caixa vazia atrás de uma arquibancada. Vi quando uma menina pouco maior que nós começou a subir lá no alto. Não acreditei quando ela pegou o balanço e começou a se balançar lá em cima! Só num circo, mesmo, “pra” ter um balanço tão alto! Vi que ela caiu e meu coração quase saltou! Mas tinha uma rede… e depois que eu vi que ela começou a pular na rede, achei até bonito. 

Ela saiu, depois, com o cara que deu comida para os leões. E eu tomei outro susto, com outra mão em meu ombro! Quase morri. Era o Pilha de novo! Mas “tava” muito diferente! “Tava” engraçado demais. E ele “tava” muito alegre! A cara toda pintada de palhaço e com uma roupa colorida! E o palhaço que tinha pego o Pilha “tava” logo atrás, com cara de brabo. Mas não correu a gente dali. Chamou:

“Vem moleque. Anda logo, senão não vai dar!”

O Pilha me puxou e foi me levando até o meio, lá no poste com escada. E disse “pra” eu subir. Eu “tava” tão espantado que nem perguntei nada, fui subindo. O Pilha também! Mas ele “tava” numa alegria que era bonito de ver. Daí, eu não sabia se ficava com medo da altura ou feliz com o Pilha. Misturei os dois, e fui subindo. Quando vi, “tava” lá onde tinha o balanço da menina que eu tinha visto. O Pilha disse “pra” eu segurar. Eu “tava” me pelando de medo, mas segurei. E não é que o doido do Pilha me empurrou? 

Acho que dei o grito mais forte da minha vida. E foi tudo muito louco: acho que no circo, as coisas ficam mágicas, porque parece que o tempo começou a ficar devagar, porque eu sei que pensei num montão de coisas, enquanto o balanço foi até o meio, não aguentei o peso de me segurar, e caí… deu tempo de ver o Pilha rindo numa alegria que eu nunca tinha visto, deu tempo de lembrar do dia que eu tinha voado por cima do carro, e lembrei que eu me achei o super-homem… e pensei que eu era o super-homem de novo! Deu tempo de pensar que eu ia morrer quando chegasse lá embaixo, porque nem lembrei da rede… e quando achei que eu ia morrer fiquei feliz de saber que a última coisa que eu ia ver era meu melhor amigo feliz, porque ele “tava” rindo tão gostoso, com cara de palhaço!

… mas daí, parece que bati numa coisa mole. Era como se Deus tivesse me pegando no colo de um jeito bom e me jogando pra cima de novo! Então, parece que eu acordei e vi que eu “tava” balançando na rede! E Vivo! Foi ali que eu vi que o circo era mágico, porque hoje, cada vez que penso em tudo, levo um tempão lembrando! Não dava “pra” pensar em tudo no tempo só de cair! Eu sei que de algum jeito o mundo tinha dado uma freada!

Depois, quando saí da rede e o Pilha desceu, ele tirou a roupa engraçada que tinha colocado e devolveu “pro” palhaço que ficou o tempo todo com a cara fechada, olhando a gente da porta do circo. E o Pilha também deu todo o dinheiro “pra” ele. 

— Tá faltando dez “real”.

— Mas é só o que consegui."

— Tá. Vazem, moleques. 

Quando voltamos lá no muro, a mãe “tava” furiosa. Eu “tava” com medo. Mas o Pilha tirou um saquinho da cueca. Tinha dez pilas. 

— Toma, não vai apanhar no dia que “tu voou”!

Era verdade! Eu disse que queria voar, e o Pilha me fez voar! 

Nossa! Eu tinha voado! 

Não sei o que deu em mim, mas dei um abraço no Pilha!

— Tá doido, mané?! — … mas deixou eu abraçar.

E enquanto me abraçava, ele falou: 

— Acho que se não fosse tu, eu não ia ter sido um palhaço, hoje… foi tão bom não ser eu.

Daí, ele me largou de repente e saiu correndo:

— Tchau, mané. Chega cedo amanhã no trabalho, que tu “tá” me devendo dez pilas!

Fiquei pensando depois, em como o Pilha ficou diferente e feliz vestido de palhaço. Parecia que ele tinha ficado triste quando voltou a ser ele de novo.

Daí, eu não ri mais. Acho que fiquei triste… porque eu adoro minha vida… e quando ficar mais velho, tudo o que quero, é ser sabido como o Pilha…!


Luís Augusto Menna Barreto


N.A.: O Pilha é meu personagem mais caro... sempre sinto vontade de pegá-lo no colo. Quero conversar mais com ele... protege-lo... 

Sinto vergonha por saber que passo por tantos Pilhas e não faço nada... sou um dos "ricos" que o tem por invisível...


O Pilha tem várias aventuras publicadas no blog, tem um livro publicado, e tem dois contos em capítulos. Procure-os... ou deixe comentário que eu envio diretamente para você. 

terça-feira, 17 de fevereiro de 2026

Eu, o Pilha e os 35 Pilas (a 5ª aventura do Pilha)

*Este texto contém nota da curadoria ao final.

Logo que fiquei mais ou menos bom, me mandaram embora do hospital. O Pilha falou que eu havia sido atropelado e voei por cima do carro. Não me lembro direito… mas eu me imaginei com uma capa bonita, igual o Super-homem, vendo o mundo ali de cima.
— Super-mané, que não enxerga um carro grandão!  Disse o Pilha.
A mãe não foi me buscar. Quando me tiraram da cama e me botaram sentado com a perna enfaixada, numa sala cheia de gente, mandaram eu esperar que um adulto tinha que vir me buscar. Mas de adulto que me conhece, só tem a mãe, e acho que ela nem sabia que eu fui atropelado. Ainda bem que minha perna ainda tava machucada e enfaixada, senão ela nem ia acreditar, e eu ia apanhar por não ter voltado pra trabalhar na sinaleira.
Daí eu tava ali sentado e vi o Pilha, da porta:
— Pssssssiu… psssssssssiiiiu … e fazia com a mão e mexia a boca falando sem som: “vem, vem”…
Mas a moça disse que eu tinha que esperar ali. Daí o Pilha entrou, meio desconfiado, porque acho que enquanto eu passei esses dias no hospital, ele foi expulso mil vezes!
Mas entrou e sentou do meu lado.
— Vambora, mané! 
— A moça disse que tenho que esperar um adulto.
— Ficou sequelado batendo a cabeça? Vão chamar o juizado! Tua mãe não vem te buscar. Bora…
Meu coração começou a bater forte. Será? Juizado?
Tentei levantar e ir com o Pilha, mas não consegui caminhar. 
— Peraí, vou dar um jeito.  O Pilha sempre resolve tudo. É a pessoa mais inteligente que eu conheço.
— Não sai daí.
— E vou sair como? Ficou doido? — Tá bom, nem sempre ele é tão inteligente!
Mas ele voltou ligeirinho com uma cadeira de rodas! Nem sei onde ele conseguiu.
Subi na cadeira e fomos saindo…
Um homem de branco correu atrás de nós. A cadeira virou e caímos. Na mesma hora, já pensei que a gente ia ser pego, apanhar e por minha culpa, o Pilha ia parar no juizado comigo. 
Ah… mas o Pilha sempre pensa em alguma coisa: jogou a cadeira pro meio da rua quando vinha um carro! Foi o maior barulho! e confusão! Daí, ele se inclinou e gritou: 
— Vem na minha cacunda! E a gente escapou.
Mas tinha o maior problema de todos: a mãe.
Eu tinha certeza que ela não ia acreditar e ia pensar que eu machuquei a perna caindo da árvore no parquinho, em vez de estar trabalhando. Já fazia cinco dias que eu não dava o dinheiro pra mãe. Ela devia estar furiosa!
Sempre levava oito pilas. O Pilha me ajudou a fazer a conta. Dava quase trinta e cinco!
Eu contei pro Pilha que tava com medo. Mas ele disse o que sempre me dizia: 
— Deixa comigo. Vou lá contigo.
Mesmo assim, fiquei com medo.
Quando chegamos lá no nosso muro, onde a mãe fica, ela já começou xingar de longe, quando me viu.
O Pilha logo falou:
— Eu que levei ele pra um trampo melhor. A gente enfaixou ele pra ganhar mais, que rico sempre tem pena de criança enfaixada!  O Pilha chamava de "rico" quem andava de carro.
A mãe olhou desconfiada. 
— Toma. — O Pilha botou a mão na cueca e puxou um dinheiro num saquinho plástico de sacolé. Deu pra ela.
Ela contou. Tinha 29 pilas.
— Tá faltando  Ela logo gritou.
— Tá nada. Faz a conta  o Pilha falou com autoridade. — Óh, cinco dias a oito pilas: conta comigo, 8, 14, 19, 24, 28! Tem até um pila a mais!
Os dois ficaram em silêncio. Um encarando o outro.
— Tá, mas bora voltar que hoje ainda tá cedo. Vai daqui, moleque, vai logo pra sinaleira!
Ufa… saí tão aliviado. Não existe amigo como o Pilha. Vou ser amigo dele até morrer. Trabalhou por mim quando eu tava doente.
— Oh, tá me devendo, mané! Não sou teu pai.  Ele me falou.
— Ninguém é.  Eu respondi. 
Rimos.
— Mas Pilha! Tu não falou que cinco dias a oito pilas dava 35?
— E tua mãe lá sabe fazer contas? 

... Bora, vamos no parquinho!”


OBS: Para ler o texto original, antes do refinamento pela curadoria, CLIQUE AQUI! 
ADVERTÊNCIA: as mudanças e cortes são muito sutis... somente o olho mais atento notará.

Luís Augusto Menna Barreto


*Primeira publicação no blog, em maio de 2016/

domingo, 31 de agosto de 2025

Eu, Pilha e a Caixa na Árvore

Eu, o Pilha e a Casa na Árvore


          Eu já atirei pedra no cachorro da pata torta*(1). Vários garotos já atiraram… isso foi antes do cachorro ficar com o velho Muleta, que todo dia sentava no banco da praça, à tarde.

Quando o cachorro aparecia na praça, perto do parquinho, o Ranho*(2) era o primeiro a pegar pedras “pra” atirar nele. Até paravam as brincadeiras de atirar pedrinha no Uálquim, “pra” todos correrem atrás do pata torta, tentando acertar ele. O Pilha ia junto, mas eu sei que ele não jogava pedra no pata torta. Eu sei que o Pilha jogava sempre a pedra perto do pata torta de propósito, “pra” fazer ele sair correndo antes que eu ou outro garoto acertasse ele. O Pilha às vezes parece burro, não entende como é a brincadeira, e faz errado. A brincadeira de atirar pedra no Uálquim*(3), também foi Pilha que estragou. Ele se meteu na frente das pedrinhas dos garotos e começou atirar de volta. Agora, as cutucadoras de celular que levam os garotos no parquinho, nem deixam mais atirar pedrinha no Uálquim. Daí, só tinha o cachorro pata torta “pra” gente atirar pedras, mas o Pilha sempre atrapalhava.

Até que o velho Muleta acabou ficando com o pata torta e não deixou mais ninguém atirar pedra. Não entendi o dia que o Pilha ficou feliz que os garotos levaram xingada do velho por atirar pedra, e o pata torta foi “pra” baixo do banco em que o Muleta “tava”.

Eu acho é engraçado que o velho Muleta que tem uma perna curtinha, tem um cachorro igual ele, de pata torta!

O Pilha acha menos engraçado, porque quando ele vê os dois, ele não dá risada como eu e aqueles garotos ricos do parquinho. Ele sorri, só. Eu acho o Pilha muito inteligente, mas tem coisa que ele não entende muito, coisa que ele é burro.

No dia que o Ranho e outro garoto atropelaram o pata torta*(4) e ele ficou preso na roda, o Pilha pulou lá do galho altão da nossa árvore e saiu correndo “pra” lá. Mas antes dele chegar, a surda do coco enrolou o pata torta num pano e tirou ele da roda. Depois saiu correndo com o pata torta e o velho Muleta saiu tentando correr de muleta atrás deles.

Levou um tempão “pra” gente ver os dois na praça, de novo. E depois de um tempo, o velho Muleta não veio nunca mais. Acho que ele se mudou e deu o pata torta “pra” uma velha que conversava com ele depois do atropelamento. Acho que ela é a mãe da surda da barraca de coco. Ela fica ali, sentada onde o Muleta sentava, e o pata torta vem e vai com ela. Mas nenhum dos garotos joga mais pedra no pata torta.

Daí, outro dia, a gente “tava” na nossa árvore, e vimos os garotos juntando pedras de novo. E a gente não entendeu direito, porque a velha com o pata torta nem “tava” lá, e nem foram para o lado do Uálquim. Os garotos correram “pro” meio da pracinha. Dai que eu e o Pilha vimos um gato com um pelo todo feio, meio cinza, que o Pilha diz que é branco, sair disparado do meio do canteiro de flores perto do balanço. Eu acho que o Pilha “tava” com saudade de brincar de jogar pedras, porque ele deu o pulão do galho alto e já foi juntar uma pedra. Daí eu desci da árvore também, bem ligeiro (eu não pulo como o Pilha, eu tenho medo) e peguei umas pedras… mas o Pilha atirou uma de longe, por cima dos garotos e a pedra estourou numa árvore! Os garotos levaram o maior susto, e as cutucadoras de celular saíram correndo e xingando o Pilha. Daí eu e o Pilha fugimos, claro!

Eu fiquei brabo, porque o Pilha estragou a brincadeira outra vez!

— Ei, Pilha, “tu é” muito burro “pra” essas brincadeiras de atirar pedra!

— Que burro o quê, mané?!

— Claro que é Pilha! Era “pra” acertar naquele gato ralado, e “tu joga” nos garotos! Ainda bem que “tu errou”!

— Eu não errei, mané!

— Mas “tu queria” acertar a árvore? Que graça tem se a árvore nem se mexe! Daí fica fácil! Era “pra” acertar o gato!

— Por quê?

— Porque ele foge, é engraçado, oras!

Daí, o Pilha parou e fez aquela cara de quando parece que ele quer e não quer dizer alguma coisa ao mesmo tempo. Então, eu já sei que vem uma coisa nada a ver, ou que eu não vou entender.

— A gente é igual aquele gato, mané…

E eu não entendi nada mesmo. Mas parece que quando o Pilha fala assim, ele fica triste. Então, eu só fico quieto com ele. Acho que quando a gente é amigo, mesmo que a gente não saiba por quê, a gente fica triste junto com o amigo.

No outro dia, a gente foi no parquinho e não viu o gato ralado. Os garotos que as cutucadoras de celular levam, tinham feito um montinho de pedras cada um, mas não apareceu o gato. Eu e o Pilha ficamos na nossa árvore. Ele ficou olhando lá de cima, do galho alto que eu tenho medo. Ficava olhando “pra tudo” que é lado. O Pilha “tava” estranho.

No outro dia, quando eu “tava” indo trabalhar, eu vi o gato ralado. Ele “tava” jogado perto de um bueiro na rua do valo grande no meio. Acho que tava “morrido”, lá. O pelo dele, que já era todo sujo, agora “tava” mais sujo ainda, e misturado com sangue.

Quando cheguei, contei “pro” Pilha.

— Ei, Pilha, acho que alguém conseguiu acertar em cheio uma pedrada no Ralado. Acho que vi ele “morrido”.

— Onde, mané? — O Pilha ficou agitado.

— Eeeh, Pilha, nem adianta querer ir, que acho que ele tá “morrido”, nem adianta ir atrás pra tacar pedra.

— Onde?

Eu falei. Daí, o Pilha disse “pra” eu ficar trabalhando, porque se a gente não cuida da nossa sinaleira, vem outros e pegam! Eu tenho medo de ficar sozinho, porque sou pequeno, e se vem algum grandão, eu não sou corajoso como o Pilha “pra” brigar. Mas fiquei. O Pilha saiu igual foguete (porque foguete é rápido, né? Eu falo isso, mas “nem nunca”  vi)!

O Pilha demorou, naquele dia. Quando voltou, eu já tava cheirando minha esponja com cola, porque já até tinha passado da hora da gente tentar achar alguma coisa pra comer, nos estacionamentos das lanchonetes. Ele “tava” com uma cara triste. Depois, passou o dia todo meio triste. Dava “pra” ver que ele fazia força “pra” sorrir nas janelas dos carros. Porque ele mesmo ensinou que rico não gosta de criança triste. E é verdade! A gente ganha mais moedas, quando chega sorrindo e quando conversa!

Acho que foi a primeira vez que eu consegui ganhar mais que o Pilha.  Naquele dia, o Pilha saiu mais cedo e disse que a gente se encontrava no parquinho! E nos outros dias mais “pra” frente também foi assim. O Pilha chegando atrasado e saindo correndo. E eu vi que o Pilha andava cheirando mais cola, antes do nosso horário de ter fome. Porque a gente sempre começa a cheirar nossa esponja, quando dá fome, e daí, quando a gente consegue comida, a gente não cheira mais. Foi o Pilha que me ensinou que esse cheiro matava a fome. Mas ele começou a cheirar mais vezes. Eu não perguntei, porque acho que ele andava mais triste. Será que esse cheiro é bom “pra” quem tá triste também?

Nesses dias, eu “tava” ficando mais um pouco na sinaleira, depois ia e encontrava ele lá no parquinho, e ele já “tava” lá em cima, bem no altão da árvore. Quase não dava “pra” ver pelo meio das folhas.

— Ei Pilha… tá virando macaco?! O que “tu tanto faz” aí em cima?

— Que mané macaco?! Peraí, que já desço.

Mas ele demorava. Parecia que “tava” mexendo em alguma coisa por lá, mas não dava “pra ver”.

Até que teve um dia, que em vez de ir cedo “pro sinal” eu resolvi ir lá no parquinho. Então, eu subi até onde sempre subia e tentei ver se tinha alguma coisa lá no alto. Parecia ter, mas eu não conseguia ver direito. Daí, eu rezei “pro” São Jorge me dar coragem e se pudesse, me proteger, que eu ia subir e ver o que era. Eu não gosto de ficar pedindo “pro” São Jorge, porque ele já me salvou duas vezes*(5)… e eu não quero ficar gastando meu pedidos com ele por qualquer coisa, porque tenho medo de um dia precisar e ele ficar com saco cheio de mim! Mas dessa vez eu pedi, porque queria ver o que “tava” fazendo o Pilha ficar tanto tempo fora do trabalho.

Eu fui subindo louco de medo. Mas fui. Quase me arrependi, mas não podia desistir, porque já tinha pedido “pro” São Jorge, e muito pior era eu desistir se ele me ouviu pedir, né? Daí que ele não me ajudava mais, mesmo Então, eu consegui. Levei um tempão! Eu “tava” daquele jeito que parece que a gente vai vomitar o coração, porque ele meio que sobe e fica batendo no pescoço da gente! Quando passei da metade do caminho, deu “pra” pra ver uma caixa de papelão. “Tava” bem escondida nas folhas e parecia bem presa nos galhos. Fiquei muito curioso! Até que cheguei lá. Assim que consegui olhar dentro da caixa, peguei um susto que quase caio!

Primeiro a caixa se mexeu, depois um barulho que parecia quando a gente risca um fósforo… e então eu vi o Ralado dentro da caixa! Ele tentou levantar e não conseguiu. O pelo “tava” todo arrepiado e uma das patas estava pra cima, com as unhas de fora, e ele mexendo como se fosse arranhar!

Naquele dia que eu vi o Ralado no canto da rua e contei “pro” Pilha, eu não achava que ele ia conseguir desmorrer. Mas agora eu tô entendendo muita coisa! Foi por isso que o Pilha saiu correndo, e é por isso que o Pilha “tá” saindo mais cedo. Acho que ele que fez o Ralado desmorrer e “tá” cuidando dele, até dividindo a comida, e por isso que ele “tava” cheirando cola mais cedo, porque ele reparte com o Ralado e fica com fome! Tinha resto de comida e de cocô dentro da caixa. E ela “tava” fedorenta! Acho que o Ralado não consegue sair da caixa nem pra fazer xixi.

Eu voltei “pro” sinal e não falei nada “pro” Pilha. Não queria contar que eu fui bisbilhotar o segredo dele, mas não queria mentir “pra” ele. Sim, porque quando a gente esconde alguma coisa do amigo é igual mentir, né? Porque eu sei que mentira é tudo que não é verdade. E seu eu não conto alguma coisa, eu “tô” escondendo a verdade, né? Mas eu não sabia como falar, então eu quis pensar primeiro. Não sou bom nisso. Sempre que precisa pensar, quem faz isso é o Pilha!

O Pilha saiu cedo de novo. Eu sabia que ele ia ver o Ralado. Eu deixei ele ir na frente, e quando ele desapareceu na esquina, eu também saí. Mas eu primeiro fui em outro lugar.

Quando eu cheguei na árvore, o Pilha “tava” lá no altão, na caixa do Ralado. Mas com o Pilha lá, eu nunca tinha ouvido o Ralado fazer o barulho de riscar fósforo que fez “pra” mim. Daí, eu subi até o galho que sempre subo… e comecei ir mais alto. Lá onde “tava” o Pilha. Fiquei com medo que ele ficasse brabo por eu subir. Mas ele não ficou. Acho que o Pilha nunca ficou brabo comigo!

— “Êh, mané! “Tá” ficando corajoso?

Eu vi que eu “tava” mesmo. E agradeci no pensamento ao São Jorge por isso! Mas não fui até onde o Pilha “tava”. Só até onde a minha mão podia alcançar a dele.

— Toma Pilha, pega aí!

Eu estendi a mão pro Pilha, com o saquinho plástico que a Tia Zélia me deu com comida de gato. Foi lá que eu fui, quando saí da sinaleira, antes de “vim” “pro” parquinho.

O Pilha demorou “pra” entender. Mas quando entendeu, sorriu.

Eu não sou esperto como o Pilha… mas não demorei nadinha pra entender que tem sorriso, que abraça a gente mais apertado que os braços!


Luís Augusto Menna Barreto1º  de março de 2025


Referências:


*1 O “cachorro da pata torta” e o velho “Muleta” que o amiguinho do Pilha refere, são o Garrincha e o Clarêncio do conto “O Velho e o Garrincha”, que ainda será postado aqui no blog mennaempalavras, e também será publicado e em uma coletânea de contos, disponibilizado em livro.


**2 Vide a aventura “Eu, o Pilha e o Ranho”.


***3 Vide a aventura “Eu, o Pilha e o Uálquim”


****4 Aconteceu no capítulo 3 do conto “O Velho e o Garrincha”


*****5 Vide as aventuras “Eu o Pilha e o São Jorge” e “Um Conto do Pilha”