sábado, 25 de julho de 2020

EU, O PILHA E O CONVITE

Para comemorar um (1) ano do lançamento do livrinho AS AVENTURAS DO PILHA E AS HISTORINHAS DO KADU, o blogue mennaempalavras apresenta:



Eu, o Pilha e o Convite

Foi meio que de repente. 

Antes, a gente ia pra sinaleira umas 9 horas da manhã, e já perto de 4 horas da tarde, cada um de nós já tinha os 8 pilas e eu já tinha até dado o 1 pila do Pilha. Porque a sinaleira é dele, né? 

Desde que a gente se conheceu, no tempo em que eu era bem criança, a gente combinou assim: eu posso pedir na sinaleira, mas tenho que obedecer as regras do Pilha e tenho que dar 1 pila pra ele, todo dia. Mas já teve um monte de dias, que foi o Pilha que me emprestou pra eu pagar pra ele. E teve aquela vez que fui parar no hospital, e o Pilha que trabalhou sozinho pra conseguir até os 8 pilas que todo dia tenho que levar pra mãe, pra não apanhar. 

Mas agora, sei lá o que aconteceu. Quase não tem mais carro. E quando aparecem carros, ninguém mais quer abaixar o vidro. No inverno, sempre foi mais difícil, porque o asfalto fica gelado e dói o pé. No verão também dói o pé no asfalto, mas é diferente. Mas no inverno, os ricos passam com o vidro levantado, e só poucos abaixam. Agora, tem pouco carro e ninguém quer abaixar o vidro. Um ou outro, abre uma frestinha em cima no vidro, e deixa cair uma moeda. Ninguém mais abaixa o vidro e dá na mão da gente. 

Quando a gente vê alguém estacionar e sair do carro, tá estranho. Tá todo mundo usando máscara. Parece que todo mundo virou bandido. Porque bandido que usa máscara e capacete, né?

Outro dia, eu e o Pilha ficamos até de noite no sinal e não deu nem três pilas. A mãe me deu dois tapas que minha orelha ficou zunindo até eu dormir! 

O Pilhão, que é o irmão do Pilha, e que tem banca de DVD pirata no centro, disse que é um tal de “convite”. Que é uma doença que nem gripe. Disse que a gente tem que usar máscara também. Eu não quero usar máscara! Não sou bandido e não ganhei “convite” nenhum. E nem sei pra quê isso tudo de máscara, se é uma gripe. Todo ano, no inverno, a gente fica gripado! É engraçado: a gente fica falando estranho, e tossindo. E tem o campeonato de meleca: a gente tapa um lado do nariz e sopra forte pelo outro: quem tirar mais meleca ganha! Mas só dá pra fazer quando a gente tá gripado!

O que sei, é que não me convidaram pra nada e esse tal “convite" tá fazendo é eu apanhar todo dia. 

Tem dias que eu escapo… porque o Pilha "intera" os 8 pilas. Daí, não apanho. Mas às vezes eu acho que o Pilha nem conseguiu os 8 pilas dele. Mas ele sempre diz: 

— Óh, mané, tá me devendo, que não sou teu pai!

E eu sempre respondo:

— Ninguém é.

E nós dois rimos. Sempre a mesma piada. E sempre rimos. Mas do jeito que o Pilha já me salvou, eu devo estar devendo muito. Eu não sei contar dinheiro depois de dez, mas acho que já tô devendo uns trinta e onze pra ele! 

O Pilha sempre me salva. Um dia, eu que queria conseguir salvar ele. 

Pelo menos, quando a gente brinca no parquinho ele deixa eu salvar! 

Ah!, nem contei: tá tudo muito diferente, e eu acho muito pior com esse tal “convite”. Quase ninguém na rua, umas poucas pessoas andando igual bandido, com máscara… mas tem uma coisa boa: as cutucadoras de celular não estão mais levando as crianças no parquinho. A gente sempre vê o Ranho lá no alto, olhando pela janela… às vezes, ele até abana. Ele nunca abanava pra gente, mas agora que não tem mais crianças com as cutucadoras, ele tá até abanando pra nós. E eu acho isso bom, porque a gente pode fazer de conta que ele é nosso amigo. 

Isso é uma das poucas coisas boas desse tal “convite”: agora, eu e o Pilha podemos brincar nos brinquedos do parquinho, porque quando as cutucadoras estão com as crianças, elas nunca deixam a gente chegar perto e a gente fica só nas árvores. 

O Pilha já tinha dito que ás árvores são brinquedos que Deus que fez pra gente, e a gente pode sempre brincar. Agora, o Pilha disse que esse “convite" é Deus tirando os outros garotos e convidando eu e o Pilha pra brincar nos brinquedos que nunca podemos.

—… ihhh…. Olha lá: o Pilha tá no balanço tossindo com a mão no peito! Acho que vai ter campeonato de meleca de novo…!


Luís Augusto Menna Barreto

26.7.2020


segunda-feira, 18 de maio de 2020

Máscaras em Tempos de Corona - Uma Reflexão


A verdade é que hoje em dia, ninguém mais sabe direito como começou, ou mesmo quando começou… talvez, tempos imemoriais.

Tanto quanto as roupas, sequer sabemos quem foi o primeiro a usar máscaras. As razões estão, certamente, em um passado que não compreendemos, não vivemos, e, depois, de geração em geração, fomos repetindo. Aceitamos, simplesmente, usa-las. Hoje, sequer as questionamos.

Desde o nascimento, vemos nossos pais com máscaras. Máscaras são postas em nós e, sem nem notarmos, isso faz parte de nossas vidas. As primeiras nos são impostas e, como toda a criança, tendemos a tira-las; é a vigilância dos adultos que nos faz acostumar com elas. Desde pequenos, aprendemos que é uma questão de sobrevivência, que para convivermos socialmente, a máscara é indispensável! Não podemos sair de casa sem máscara… às vezes, em casos mais graves, mesmo em casa nós temos de usa-las… Ainda que hoje, depois de tanto tempo, sequer saibamos as razões…

Quando somos pequenos, usamos as que colocam em nós e nem mesmo questionamos. Depois, à medida que vamos crescendo, e, sobretudo na adolescência, nossa rebeldia quer fazer com que as troquemos, estilizemos com nossos gostos e peculiaridades, e exigimos escolher nossas próprias máscaras. De uma hora pra outra, temos uma coleção delas e há dias que usamos mais de uma, que as trocamos, conforme o lugar que vamos ou conforme a ocasião nos exija…

Nós as usamos tanto, que sequer reconhecemos alguém ou sequer somos reconhecidos quando as tiramos. 

Não, não sabemos quando começou… e agora, com esta pandemia, além de todas as máscaras que usamos por dentro, somos forçados a usar máscara também por fora… 


Luís Augusto Menna Barreto

17.5.2020


Mais uma vez, obrigado! Os expressivos olhos da foto, são da minha amiguinha-modelo Juju (Júlia Freitas Basso - Instagram @juliafreitasbasso) pelo uso da imagem! Tu sempre abrilhantas as postagens!


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quarta-feira, 13 de maio de 2020

Bora cronicar - Coisas do Mundo Pós Corona - 5


— Então, amiga? Foste mesmo?

— Ai, amiga, fui! O Valdinho insistiu muito! 

— Eu não sei se eu conseguiria… expor-se assim, sei lá…

— Ah, amiga, eu confesso que no começo, fiquei meio sem jeito. Mas depois, conforme o tempo foi passando, comecei a me sentir melhor! Vi todo mundo sem, tirei também!

— Tu és louca! Eu acho que não conseguiria ir numa praia de nudismo!

— Eu pensava o mesmo, amiga… mas depois que tirei, confesso que a sensação é maravilhosa!

— Não consigo nem imaginar!

— É uma sensação de liberdade, que tu nem imaginas! O Valdinho disse que quase nem reconheceu minha voz, falando assim, sem máscara, tomando vendo na boca…!


Luís Augusto Menna Barreto

13.5.2020


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terça-feira, 12 de maio de 2020

Bora cronicar - Coisas do Mundo Pós Corona - 4


— Cadê o Pedrinho? Alberto, cadê o Pedrinho? Não estou vendo ele!

— Calma Alzira! Ele estava aqui agorinha! 

— Pedrinhoooooo… ai meu Deus! Fala com a mamãe! Vanderléia, minha filha, cadê o Pedrinho?

— Ah!, mãe, esse moleque toda hora desaparece! Espera que ele volta sozinho!

— Mas nós vamos entrar agora! Pedrinhoooo, onde tu estás?

— Oi, mãe! Tô aqui! É que eu não queria ver museu! Queria ir logo no topo do One World Trade Center! Vamos, vamos!

— Para, Pedrinho! Custei a conseguir reunir a família! Finalmente consegui o programa do Museu! É aquele do filme “Uma Noite no Museu”. Tu vais gostar, filho! Alzira, todo mundo aqui? Vamos?

— Vou fazer a chamada: Alberto?

— Tô aqui, Alzira, tu estás olhando pra mim!

— Vanderléia?

— Ai, mãe, aqui. Vamos logo com isso, por favor?

— Zenaide?

— Aqui, mãe. Precisamos mesmo visitar esse museu?

— Vamos! Não abro mão de fazer tudo o que tínhamos planejado! Pedrinho?

— Pedrinho? Ah!, vou matar esse moleque! Sumiu novamente?

— O Pedrinho tá com a Rute, mãe, não se estressa! E a senhora sabe que ele nem quer saber de Museu. Aliás, eu também não quero… 

— Parem de reclamar todos vocês! Nós vamos todos em família e pronto!  Pagamos por três anos essa viagem, e agora eu faço questão de conhecer tudo o que pla… … mos! …nã… …gué…………………

— Mãe? Mãe? Pai, o que houve? Cadê a mamãe?

— Não sei Rute… espera. Ela está me ligando no fixo… a cobrar.

— Pessoal, aqui é o pai. A internet da mãe caiu, porque ela extrapolou o plano de dados. A visita ao Museu de História Natural de New York ficou pra quinta! Quero todos vocês nessa live! Boa tarde! E vocês, meninas, nada de ficar enviando a cara sem máscara pelo whatsapp. 

— Ai, pai… pára. E não é “cara sem máscara”, pai, te atualiza! É enviar “face nudes”!


Luís Augusto Menna Barreto

12.5.2020


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segunda-feira, 11 de maio de 2020

Bora cronicar - Coisas do Mundo Pós Corona - 3


Engarrafamento.
Fila da pipoca no cinema.
Fila do banco.
Fila do supermercado.
(Tá bem, qualquer fila).
Espera no consultório do dentista, com a sala cheia.
Avião lotado com criança chorando.
Ônibus lotado.
Dar voltas pra procurar vaga no estacionamento do shopping.
Ficar para o próximo elevador, porque tá lotado.
Ter que juntar o cocô do Messi (o cachorro) no meio do parque cheio de gente.
Levar bronca da professora por falar com a col…
— O que é isso, Marcelinho? Lista das coisas que te incomodam?
— Não, mãe, minha lista de desejo.

Luís Augusto Menna Barreto
11.5.2020

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sábado, 9 de maio de 2020

Bora cronicar - Coisas do Mundo Pós Corona - 2

— Ah, pai, deixa de drama… não tem nada de mais…

— Nada de mais? Nada de mais?! Meu Deus, meu Deus, o que eu fiz de errado? Por que essa desgraça está se abatendo sobre mim?

— Minha nossa Senhora, pai! Quem vê o senhor falando assim, pensa que alguém morreu!

— É quase como se fosse! O que vão pensar de mim? Todos vão apontar pra mim, por causa do que tu fizeste! Tu não tens vergonha? Não pensaste na tua família? Na minha reputação?

— Pai, eu já pedi desculpas, estou arrependida… mas é que na hora, parecia que tava pegando fogo… foi mais forte que eu…

— Pára! Nem mais uma palavra! Antes tivesse pensado em nós, na nossa honra, antes de ter feito isso! 

— Mas pai…

— "Mas" nada! Deus, Deus, o que vai ser de mim…? O que foi que te faltou para que tu me tenhas feito isso, Eduarda Cristina? Alguma vez na tua vida faltou álcool gel? Faltou água sanitária? Tiveste as melhores escolas virtuais que se pode ter! Jamais neguei que participaste das lives das festas… o que mais eu podia fazer? O que pode ter faltado?

— Pai, não faltou nada, tá tudo bem… é muito drama!

— Drama, Eduarda Cristina, drama?

— Pai, duvido que a tu e a mamãe também não tivessem feito, enquanto namoravam!

— O quê? Ah, não, isso é demais! Já pro teu quarto Eduarda Cristina! Já pro quarto! Saiba que tua mãe só tirou a máscara e mostrou os dentes pra mim depois de casada! Depois de casada! 


Luís Augusto Menna Barreto

10.5.2020


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sexta-feira, 8 de maio de 2020

Bora cronicar - Coisas do Mundo Pós Corona - 1


— Vóóóóóó…

— Maria Estela, tu estás mexendo nas minhas gavetas?

— Ai, vó, a senhora sabe que adoro procurar coisas antigas suas! O que é isso?

— Ah, minha filha…

— Neta, vó!

— Isso é “batom”!

— Hein?

— Batom. Há muitos anos não fabricam mais isso! Mas quando eu era adolescente, antes da 1ª onda da grande pandemia, era muito comum!

— Como funciona.. opa, peraí, consegui tirar a tampa! E como usava isso? Era pra escrever?

— Era pra pintar os lábios, minha filha!

— Neta, vó! Pintar os lábios? Eca, que nojo! Pra quê, se ninguém nunca vê?

— Ah… o mundo era diferente… naquela época, ninguém usava máscara!

— Que horror, Vó… então… era tipo Adão e Eva? Andavam com a boca de fora?

— Tipo Adão e Eva, minha filha… o mundo, era um paraíso…


Luís Augusto Menna Barreto

9.5.2020


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quinta-feira, 7 de maio de 2020

Bora cronicar - O Corona, o Goela e a Confissão do seu Passado


“Chamada a cobrar. Para aceitá-la fique na linha após o sinal!” 

— Alô…?

— Doutor, pelamordeDeus, eu vou acabar contando tudo pra Afrodite, Doutor, o senhor tem que me ajudar.

— Goela?

— Eu, doutor! Por favor me conte alguma coisa, pelo amor de Deus! Só o senhor pra me ajudar numa hora dessas… 

— Eu não tô entendendo, Goela…

— Não tem muito o que entender, doutor! Eu vou acabar contando tudo! Eu não sei mais o que faço, eu vou contar pra Afrodite todas as minhas escapadas, todo o meu antes e durante, ela vai me matar, doutor! O senhor tem que me ajudar!

— Calma, Goela! Respira, o que houve?

— É o corona, doutor, é o corona! Só o senhor pra me ajudar!

— Como assim, Goela, não tô entendendo? Acho que nestes 3 anos que passaram desde que eu saí daí, eu me “desacostumei" com essa tua velocidade. 

— Pois eu liguei pro senhor porque só o senhor mesmo, doutor, eu estou desesperado, a Afrodite vai me matar, eu sei que ela vai!

— Calma, peraí. Vamos tentar organizar: tu aprontaste alguma coisa?

— Muita, muita, não aprontei, doutor; um ou outro carnaval, uma ida em Belém, essas coisas, doutor…

— E isso foi recente, Goela?

— Nada, doutor, tô quieto há muito tempo. Os anos vão passando, doutor, a gente vai se acomodando…

— Mas então, se isso faz tempo, o que tu vais mexer nisso agora? Ela descobriu alguma coisa?

— Não, doutor. Mas vou contar, doutor! E ela vai me matar!

— Mas por quê tu vais contar, Goela? Bateste tua cabeça?

— É o corona, doutor!

— Meu Deus! Tu estás achando que vais morrer? 

— Tô, doutor. E quem vai me matar é ela, doutor. Vou contar tudo e ela vai me matar!

— Mas por quê? Tu estás com alguma crise de consciência, queres te redimir, é isso? 

— É nada, doutor, é o corona, já falei!

— Tu estás infectado? Testaste positivo?

— Não, doutor! É essa coisa de corona! Eu vou falar pra ela, doutor, e ela vai me matar, eu sei. Eu vou morrer nessa pandemia, mas não vai ser desse vírus! Vai ser a Afrodite, doutor! O senhor tem que me contar alguma coisa!

— Como assim, Goela? Contar o quê?

— Não sei, doutor, qualquer coisa! PelamordeDeus, conta qualquer coisa!

— Goela, tu estás ficando doido!

— Tô doutor! É esse corona que deixa a gente assim! Não sei mais o que fazer, doutor, vou contar tudo pra ela… 

— Calma… queres que eu fale com ela?

— Não, doutor! Eu é que preciso falar com ela, mas pra isso, preciso que o senhor me conte alguma coisa!

— Caramba, Goela, não tô entendendo é nada! Tu já tentaste falar com alguém por aí?

— Já doutor! Claro. Até o padre eu já tentei, doutor. Mas não adiantou nada! Só posso contar com o senhor, doutor. 

— Mas o que tu queres, afinal, Goela?

— Que o senhor me conte alguma coisa, doutor! Já falei mil vezes, o senhor parece que não entende!

— Não entendo mesmo. Explica!

— Não tá tendo esse negócio de corona, essa essa coisa de panda que mia, ou sei lá o quê?

— Pandemia, Goela.

— Isso! Pois é. Não tem isso?

— Tem. Mas o que isso tem a ver com contar teus deslizes pra Afrodite se tu nem tá morrendo, Goela?  Ah, meu Deus… É a Afrodite? Ela que tá infectada?

— Tá nada, doutor! O problema é esse loquidáu, aí, que o Governador decretou, agora ninguém pode sair de casa!

— “Lockdown”, Goela! 

— Isso esse lóqui aí!

— O que tem isso, Goela?

— Doutor, a gente não pode sair de casa, doutor! Faz dois dias que estamos juntos o tempo todo, doutor, o senhor sabe, minha casa não é grande! A gente já conversou tudo o que tinha pra conversar duas vezes, doutor! Não aguento mais ter que repetir as coisas, doutor, é 24 horas junto, já não tem mais assunto, doutor! Se o senhor não me contar alguma coisa pra eu poder contar pra ela, vou acabar contando o meu passado porque é o único assunto que me resta; e se eu não morro do vírus, ela me mata, doutor!

Eu acabei contando pro Goela uma ou outra história, que, com o talento que ele tem pra espichar um assunto, com muita sorte daria mais algumas horas… Ainda não sei o que aconteceu, porque foi ontem que ele havia ligado e eu não soube mais notícia!

Por que ele disse que só eu poderia ajudar?

Porque, como sempre, ele tá sem crédito no telefone, e só pode ligar a cobrar… eu sou o único que aceita ligação a cobrar dele…!


Luís Augusto Menna Barreto

7.5.2020


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quarta-feira, 6 de maio de 2020

Bora cronicar - Encontro de Amigas em Tempos de Corona


— Oi, amigaaaaa… que linda!

— Ai, obrigada! 

— Fala logo onde compraste essa máscara?! Tá um tudo!

— Então, nem te conto: o Beto que me deu de aniversário de noivado!

— Ai, amiga, “aniversário de noivado”, que deprimente!

— É, eu sei… mas ele primeiro quer ter segurança! Disse que não quer casar pra fazer eu passar necessidade. Mas olha: faltam só mais 8 prestações do plano 100, pra gente ter nosso próprio galão de álcool gel!

— Não acrediiiiiiiito! 

— Verdade, amiga! Ai, um sonho, né?!

— hummmmmmm então finalmente, vocês vão poder… hmmmmmm!

— Ai, finalmente! Não vejo a hora de me entregar pra ele toda embebida no álcool gel!

— Ui, vocês vão pegar fogo, amiga! Rsrsrs

— Ai, nem brinca! Fiquei sabendo que o “acidente” da Mariana com o Leandro, foi porque ele bebeu umas e outras e quis namorar depois do churrasco! Estavam lambuzados de álcool gel e parece que voou fagulha da churrasqueira!

— Noooossa!!

— Esses sim “pegaram fogo”.

— Que coisa. Cada vez a gente tem de tomar mais cuidado, né?!

— Pois é! Eu e o Beto, só vamos usar o álcool gel depois de casar! 

— Ai, que sonho… eu e o Marcos foi com água sanitária mesmo, mas a gente não aguentava mais. Deu no que deu: a Lulu e o Carlinhos!

— E tu, amiga, o que estás fazendo aqui?

— Vim na C&A comprar máscara infantil para as crianças.

— Sim, amiga, tu viste a foto que a Mariza postou?

— Vi, amiga! Ostentação! 

— Desnecessário! 

— Total!

— Imagina, ficar postando foto usando máscara Chanel em casa?!

— … e com Galão de 4 litros de álcool gel no fundo!

— Quer aparecer, amiga!

— E tu viste o Insta da Ritinha? 

— Vi, mas é fake, miga! 

— Não acredito!

— É sim! A Jandira disse que outro dia a Ritinha tava na feira pechinchando água sanitária em vidro de 50ml, e agora posta máscara Dior?! Fake!

— E essa sacola? Conta: o que tem aí?

— Ai, nem te conto: olha…

— CHOQUEI! Não acredito: lencinho umedecido em álcool 70, da Carolina Herrera?!!! Que tudooooo!

— Fiz de 5 vezes, mas comprei! Vou abafar no casamento daquela esnobe da Sílvia!

— Ai, nem me fala! 

— Diz que a lembrança aos convidados vai ser spray de espuma de álcool 70, de 20 ml! Faz todo esse bafo, mas a lista de presentes é só coisa de barão: álcool gel 150ml, água sanitária de 2 litros, conjunto de máscaras com os dias da semana…

— Que horror! Quem é que pode pagar por isso? O que tu compraste?

— Ah!, amiga, eu não quis nem saber: comprei uma caixinha pra cartela de hidroxicloroquina… mas sem a cloroquina…


Luís Augusto Menna Barreto

5.5.2020


Obrigado à minha amiguinha Juju (Julia Freitas Basso - Instagram @juliafreitasbasso), por gentilmente ceder a foto que ilustra esta postagem!