Conto de Bella
Escolhas - parte 8 - final
— Bella…
Ele segurou a mão de Bella por cima da mesa… Do parquinho, mesmo em meio ao leve burburinho do restaurante, já começando a esvaziar, chegavam os sons das crianças no parquinho.
Ela lembrou do dia em que, já com dezesseis, quase dezessete anos, terminando o último ano de escola, estava sentada no mesmo brinquedo da infância… no dia em que ele descobriu que ela havia guardado a folha da revista.
…
— Eu nunca pintei nosso brinquedo, né?
Bella não conseguiu olhar nos olhos dele… continuou olhando a folha de revista:
— E eu ainda não saí daqui…
Naquele dia, ele teve a certeza que os sonhos de Bella eram muito mais distantes do que ele poderia realizar. Eram muito maiores do que um restaurante e um brinquedo pintado. Ele era alguns meses mais novo que Bella… e recém havia conseguido o emprego de garçom. A garrafa de refrigerante e o copo tremiam na bandeja, na primeira vez em que serviu Bella. Mil vezes brincaram, quando crianças, que ele a servia… mas naquela primeira vez, em que não era mais brincadeira, ele tremia.
…
Sentindo a mão dele segurando a sua, com as vozes distantes de crianças felizes chegando até os dois, ela finalmente disse, como quem tira um suspiro que se havia incrustado na alma:
— Desculpa eu ter brigado com você.
— Eu nunca lhe culpei por isso. Nem a culpo por nada, Bella.
— Eu acho que briguei, naquele dia, pra tornar as coisas mais fáceis pra mim. Acho que quis ter raiva de você, pra poder ter coragem de deixá-lo.
A briga a que se referia, foi dois dias depois que ele a viu olhando a folha de revista. Ela o encontrou no parquinho, em um dia quente de sol. Ele estava sem camisa, com algumas manchas de tinta e pintava o brinquedo.
…
— Por que você está fazendo isso? — Bella perguntou.
— Porque eu lhe prometi um dia. No dia em que vi o seu sorriso mais lindo.
E, de repente, ela simplesmente se zangou, e passou a gritar com ele:
— Que coisa idiota! É ridículo ver você pintando esse brinquedo estúpido. Não somos mais crianças. A gente cresceu e você parece não entender! Parece que você quer passar a vida toda dando voltas nesse carrossel velho e é por isso que nunca vai sair do lugar! Eu vou embora! Vou embora daqui! Não aguento mais ficar dando voltas. Você só me faz dar voltas! Se eu ficar aqui, nunca vou conseguir chegar em lugar nenhum, minha vida vai ficar só dando voltas!
Ela parecia esperar ele reagir. Ele não disse nada. Sua respiração estava acelerada demais, mas ele não disse nada. Engoliu tudo. Trincou os dentes. Ficou pintando até Bella sair, furiosa. Assim que ela saiu, ele jogou para o lado o pincel, levantou e deixou tudo lá. Não retornou para acabar a pintura.
…
— Sabia que eu quase voltei de dentro do ônibus, no dia que fui embora? Cheguei a levantar duas vezes. — Ela forçou um sorriso.
— Eu sei.
— Sabe? — Admirou-se! — Como pode saber se nunca contei pra ninguém?
— Eu estava lá. — Parou de olhar a mão de Bella na sua e olhou-a nos olhos. — Eu sempre tentei estar por perto, Bella. Desde que brigamos, eu sabia que você iria partir. Na verdade, eu sempre soube, mas quando brigamos, eu soube que era o jeito que você achou pra não me machucar. — Ele sorriu com o canto da boca. — Jeito estranho de não querer machucar. — Disse sorrindo. — Depois daquela briga, eu passei a levantar cedo todos os dias, e ir até a árvore do outro lado da rua, na frente da sua casa. Lembra como a gente sempre subia nela? Todos os dias, eu subi nela bem cedo, até que não demorou nem uma semana, e teve o dia que você saiu, quase escondida, com uma mochila nas costas. Eu fui seguindo você até a rodoviária, porque eu queria ver pra onde você iria. Vi você comprar a passagem e pegar o ônibus. E vi você levantar duas vezes, e quase sair.
— Você queria que eu tivesse saído?
— Não.
— “Não”? — Ela, instintivamente, puxou a mão, tirando-a dele, com uma expressão surpresa.
— Não, Bella.
— Você não me amava?
— Amava mais que tudo. Amava como só se pode amar aos desessete anos, como só se pode amar uma vez na vida que é quando descobrimos o amor, sem nem sequer saber o que é. Eu te amava tanto, Bella, que não queria que você desistisse.
Bella olhou-o com uma ternura que lhe doía no peito, e com lágrimas querendo invadir seus olhos.
— Se você descesse, Bella, nenhum de nós seria feliz. Eu não conseguiria ver você todos os dias, sabendo que poderia ter sido o responsável por impedir seus sonhos. Você não estaria comigo de verdade. Se você desistisse de ir embora, você desistiria do seu sonho. Quando você brigou comigo, Bella, fui pra casa e chorei…
Bella, contraiu a testa, sentiu uma lágrima querendo escapar-lhe.
Ele logo se precipitou a confortá-la:
— Não, Bella, não fique triste. Foi um choro de alívio. Todos os dias, Bella, eu rezava pra que você tomasse coragem. A cada dia que passava na nossa adolescência, eu via como você queria ir embora. Eu via seus olhos brilharem quando você via revistas de moda, e cada vez que via um “x redondinho”…
— Chanel — ela disse sorrindo.
— … e me mostrava, eu via como você ficava fascinada.
— Eu ensinei mil vezes pra você que era o símbolo da Chanel, mas você nunca aprendia… — Bella falou, sorrindo.
— Eu aprendi, Bella. E eu aprendi muito mais. Quando eu passei a comprar todos os meses a revista Vogue pra você, eu nunca falei, mas eu comprava sempre duas. Ficava com uma pra mim, pra tentar ler e aprender as coisas que você gostava. Estudava cada detalhe das dicas, das roupas, das marcas. Eu acho que cheguei a saber mais que você. — Ele quase riu, ela fez uma careta. — Mas eu adorava cada vez que você me explicava coisas que eu mesmo já havia lido, antes de dar a sua revista.
— Não acredito! — Disse Bella, sem convicção, porque, conhecendo-o, sabia que ele bem faria isso mesmo. — Eu nunca queria que você gastasse o seu dinheiro comigo. Você cortava grama para arrumar dinheiro, lembra? Mas você sempre aparecia com a revista. E eu não resistia. Você devia me achar tão fútil. Talvez, você, me vendo assim, continue a me achar fútil.
— Eu nunca achei você fútil, Bella. Eu sempre soube que era seu sonho. — E ele, agora, olhando um pouco mais sério nos olhos de Bella, disse:
— Mas o meu sonho, nunca foi fora daqui, Bella. Desde que meu pai morreu, eu sonhei com esse lugar. Eu sonhei em orgulhar meu pai. Sonhei viver o que ele queria. E eu sabia que se você ficasse comigo, nunca poderia viver o seu próprio sonho. E nós dois ficaríamos presos.
— Mas como foi que você fez isso? — e Bella apontou para o restaurante, que era completamente diferente do pequeno restaurante de beira de estrada da infância e adolescência. — Você é mesmo o dono?
Ele sorriu, um quase riso.
— Sou. E só consegui realizar o meu sonho, por causa do teu, Bella.
— Mas eu não tive nada a ver com isso! Nem sequer voltei. Eu nunca liguei pra você, por medo que você não quisesse falar comigo. Eu sempre me senti culpada de ter brigado com você, de ter deixado você pra trás. Então, quanto mais tempo passava, esse peso ficava maior e eu não queria nem ligar, de medo que você não quisesse falar comigo, com medo que eu tivesse de alguma forma magoado muito você.
— Não Bella. Foi por você que eu consegui tudo isso.
— Como?
— Mesmo depois de você partir, eu continuei comprando as revisas. Porque eu acreditava que você iria conseguir! E eu vi seu nome na lista dos aprovados em jornalismo na faculdade. E eu sempre entrava no site da faculdade pra ver suas notas. Você sempre foi brilhante. E eu também acompanhei quando você conseguiu o estágio no jornal, no oitavo período da faculdade. E sei até quando era você que escrevia a coluna e a jornalista assinava, porque eu tinha certeza que era seu estilo! Você entendia de moda mais que ela!
Bella sorriu, mas ainda estava surpresa demais.
— Eu queria aprender tudo pra poder acompanhar o que você escrevia. Daí que quando você estava no final da faculdade, vi na Vogue, um anúncio de um concurso de culinária e o vencedor faria um estágio de um ano em França, com os melhores chefs. Eu estudei muito, Bella, estudei francês pela internet, eu me dediquei demais à cozinha, aqui mesmo, depois do expediente acabar. Eu me inscrevi no concurso, fui selecionado na primeira etapa que era de enviar a receita e consegui ir para o Rio, pra etapa prática.
— Você venceu?!!!!
— Não. — Ele riu. — Eu fiquei nervoso demais e estraguei minha receita. — Ele deu uma generosa risada lembrando.
— Então? — Perguntou Bella, curiosa.
— Então que um chef francês que era jurado, havia ficado curioso por minha receita. Pediu que eu a fizesse novamente, fora do concurso. Daí eu fiz, e ele gostou. Daí, mesmo sem eu ter vencido, ele me propôs ir em França e estagiar no restaurante dele. E acabei em Paris. Guardei cada centavo, fui crescendo no restaurante, iniciei com os comins, depois fui a cuisinier, depois chef de parte e então sous chef. Guardei cada centavo e, quando tive o suficiente, voltei. E, quando voltei, comprei o restaurante e reformei. Mas, enquanto estava lá, Bella, eu continuei comprando a Vogue. Mas conheci, também, a “i-D” inglesa, e a “Numéro" francesa*…
— As duas primeiras revistas que fui correspondente e permitiram que eu abrisse a agência! — Exclamou Bella.
— Sim… e eu peguei uns artigos seus do jornal onde você estagiava… e enviei mil vezes. Parece que uma dessas vezes, alguém recebeu e resolveu abrir meu envelope!
— Meu Deus!! — Lágrimas finalmente rolaram no rosto de Bella. — Foi você…?… — Ela quase não conseguia falar… — Eu fiquei surpresa quando recebi um e-mail convidando-me a escrever um artigo free lance sobre a SPFW quando eu recém colei grau! Logo depois fui contratada pela “i-D”, depois todas as portas se abriram pra mim! Foi você…! — E Bella finalmente permitiu-se chorar.
— Vem… quero mostrar uma coisa.
Ele se levantou dando a volta por trás da cadeira de Bella, tal qual muitas vezes, ainda criança, seu pai ensinou-lhe a fazer, durante as refeições imaginárias que ele e Bella faziam servidos pelo pai dele. Delicadamente, puxou a cadeira e, assim que Bella levantou, estendeu-lhe a mão, indicando o caminho do escritório.
Lá dentro, nas paredes, vários prêmios culinários pendurados e, num canto, em um elegante chiffonier em carvalho, todas, absolutamente todas as críticas que Bella havia escrito, primeiro em jornal, depois em todas as revistas: i-D, Numéro, Vogue, W, Flaunt, Nylon, Love…
— Meu Deus… — Foi tudo o que Bella conseguiu dizer. — Se eu pudesse ter entendido… se a gente pudesse voltar atrás…
— Não… — e ele delicadamente colocou um dedo sobre os lábios de Bella. Não seria justo. Fizemos as nossas escolhas. Se não fosse o seu sonho, Bella, eu não realizaria o meu…
— Mas foi você quem fez realizar o meu! Agora eu sei que foi você que fez tudo acontecer. Eu jamais imaginaria chegar onde cheguei! Não assim! Eu queria ser jornalista de moda, mas meu sonho não ia além de um jornal ou revista daqui!
— Bella… — E ele lhe tomou a mão. — É tempo de aliviar nossos corações. Tempo de tirar qualquer peso. Nós dois realizamos nossos sonhos.
— Mas e quanto a nós?
— Nós vamos seguir amando quem escolhemos para amar! — E ele sorriu, indicando o caminho de uma porta lateral de onde as vozes das crianças chegavam mais forte.
Ele conduziu Bella e ela pode ver o parquinho do restaurante. O garoto menor estava sentado em uma caixa de areia, sorrindo, deliciosamente sujo. A garotinha, estava sentada em um brinquedo de rodar… colorido exatamente como o brinquedo de uma folha de revista há muito guardada por Bella.
Antes de chegar no parquinho, Bella ainda lhe perguntou:
— Será que aquele nosso amor vai ter chance em alguma outra vida?
Nesse momento, a menininha disse ao garoto maior, quase da sua idade:
— Empurre bem forte, que eu quero dar a volta ao mundooooo…
E o garotinho respondeu:
— Eu levo você! — E começou a empurrar o mais forte que podia.
…
Fim.
Por Luís Augusto Menna Barreto
*Duas revistas de moda européias que figuram entre as dez revistas de moda mais famosas e respeitadas do mundo.