domingo, 19 de junho de 2016

O CIRCO - parte 4 de 13


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- Como você pode ser tão irritante às vezes? - Gritava ela, irritada naquela noite sem luar. - Que droga!
- E você? Como pode irritar-se tão facilmente? - Perguntava, tentando acalmá-la. - Sorrir desgasta menos a gente...
- Como eu vou sorrir se você fica me irritando?
O circo, já montado cem metros à frente, iniciaria o espetáculo em dez minutos. Era a grande estréia!
- Ta bom, desculpa. - Falava ele. Não lhe irrito mais. Vamos, que já vai começar...
- Vá você!
Ela se virou decidida e sumiu rumando contra as pessoas que iam para o espetáculo.

Por Luís Augusto Menna Barreto



Para ler a parte 2 de 13, CLIQUE AQUI






sábado, 18 de junho de 2016

poesia de ver - "... bem me quer!" // poetry to see - "... well wants me!"

poesia de ver - "... bem me quer!" // poetry to see - "... well wants me!"





... beloved...
want me to
... beloved...
want me to


- I promise not to defoliate you, if you answer me sooner, that my love 'wants me well' ..

//

... bem me quer...
... me quer...
... bem me quer...
... me quer...

- Prometo não te desfolhar, se me responderes antes, que meu amor 'bem me quer'...

*Originalmente  publicado no antigo blog
"Menna Comentários", precursor deste.
Data da postagem original: 05.03.2016.
Comentários na postagem original:  7.
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*Originally posted on the old blog
"Menna Comments", precursor of this.
Date of original post: 05.03.2016.
Comments on original post: 7.
Views until being withdrawn: 282.


Imagem e texto por Luís Augusto Menna Barreto

sexta-feira, 17 de junho de 2016

crônica - Kadu e a florzinha

Kadu e a florzinha
(crônica para crianças)


(Esta história foi escrita para crianças. Meu pequeno João tem um amiguinho muito especial. E é meu pequeno João que me ensina todos os dias, como as diferenças não fazem diferença na amizade!)

O Kadu era um coleguinha novo. E parecia meio diferente…
Nos primeiros dias, eu estranhei um pouco… Tá, vou dizer a verdade. Eu achei ele chato no começo!
Ele nem falava muito com o resto dos coleguinhas. Ficava ali, quieto, e parecia que nem queria olhar pra gente. Daí, no recreio, fazia uns três dias que ele ia para o mesmo lugar e ficava ali, abaixado e, quando a gente tentava passar ali, ele ficava agitado e não deixava, e a gente tinha que passar pela grama.
E teve um dia que o Cacá foi pegar água e, quando tava com o copo na mão, o Kadu veio e pegou o copo da mão dele e saiu correndo. Aquilo me intrigou. Daí, resolvi ir atrás dele. Fiquei espiando de longe. Então, eu vi o Kadu abaixar e jogar a água no chão. Logo depois, tocou a "campa" e todos voltaram pra aula. Mas eu resolvi ir ali ver onde ele colocou a água. Sabe o que eu descobri?
Tinha uma florzinha ali. Bem pequenina. E estava machucada. Acho que alguém pisou nela porque ela tava bem no caminho, na grama que tem entre uma pedra e outra. Todos esses dias, o Kadu tava cuidando da florzinha. Todo mundo passava ali, mas ninguém viu a florzinha machucada. Só o Kadu. 
Desde esse dia, comecei a ficar amigo dele. 
Ele é diferente. Às vezes, a gente mostra coisas pra ele e ele nem vê… mas tem coisas, que só ele que enxerga! Como a plantinha machucada.
Outro dia eu ouvi a professora falando com a mãe do Kadu. No começo, achei que o Kadu era assim, porque a mãe dele não sabia falar direito. Ela tava contando pra professora que o Kadu era artista. Mas ela não sabia falar direito. Ela falava “autista”…
Eu não sei se o Kadu é artista. Acho que ele é médico. Porque a plantinha ficou boa. 

Por Luís Augusto Menna Barreto
17 de junho de 2016


quinta-feira, 16 de junho de 2016

O CIRCO - parte 3 de 13



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Não havia música nem desfile como aparecem nos filmes da televisão. Mas logo sairia um carro com auto-falantes anunciando pelas ruas daquela cidade pequena, a chegada do circo. Naquele imenso terreno cedido pela Prefeitura, várias crianças acompanhavam com olhares curiosos o vai-e-vem dos homens levantando a grande lona, montando o picadeiro, suando, enfim, em sua rotina que quebra a rotina das cidades onde passam.
É um circo pequeno. Imenso nos corações das crianças. Imaginam, elas, os artistas em seus maravilhosos camarins, repousando enquanto o circo é armado. Mas o mágico, que é também trapezista, trabalha a marreta batendo em uma estaca. Alguns palhaços (ah!, os palhaços!) desenrolam as pontas das lonas enquanto contorcionistas montam arquibancadas...
Do suor ao riso!
Do cansaço ao suspense!
Do trabalho à surpresa!
O circo é a arte da emoção.
Por Luís Augusto Menna Barreto






quarta-feira, 15 de junho de 2016

poetry to see - "... stones with wings!" // poesia de ver - "... pedras com asas!"

poetry to see - "... stones with wings!" // poesia de ver - "... pedras com asas!"



"... let me just see one more gain wings!" Appealed to the boy, taken by the arm, by his father.

"Stones do not gain wings. Stop being silly! "Said his father hastily, almost dragging the boy.

Poor father ... he had grown up. Turned adult. He could no longer see stones gaining wings ...

//

“… deixa eu ver só mais uma ganhar asas!”, apelava o menino, levado pelo braço, por seu pai.

“Pedras não ganham asas. Deixa de bobagem!” Disse o pai, apressado, quase arrastando o menino.

Pobre pai… havia crescido. Virado adulto. Não sabia mais ver pedras ganhando asas…



Text by Luís Augusto Menna Barreto


Image by lens artist Anne Matsuura (@annematsuura)

Texto por Luís Augusto Menna Barreto

Imagem pela artista da lente Anne Matsuura (@annematsuura)

terça-feira, 14 de junho de 2016

crônica - No Marajó... Por 200, não aceito... pago 400!

No Marajó... Por 200, não aceito… pago 400!

Originalmente  publicado no antigo blog
"Menna Comentários", precursor deste.
Data da postagem original: 21.02.2016.
Comentários na postagem original:  nenhum.

Visualizações até ser retirado:  92.

Foi no Marajó. Termo Judiciário da cidade de Bagre! Como não há juiz na cidade, eu viajo duas vezes por mês, por 1 hora em uma voadeira (uma pequena lancha, para quem não sabe), desde a cidade de Breves (também no Marajó) para realizar as audiências e atender a todos que eu consiga.
Entre uma audiência e outra, confesso, precisei sair da sala para pra ir no banheiro (os litros de café que tomo para manter-me acordado precisam sair) e quando retornei, as partes da próxima audiência já haviam sido chamadas. Como era uma ação de alimentos, em que a paternidade estava afirmada pela certidão do registro do nascimento, fiz o que é meu hábito: expliquei que tudo seria uma questão de chegarmos a um acordo em relação aos alimentos e perguntei se as partes já haviam conversado e se havia alguma possibilidade de acordo!
Antes de continuar, é preciso referir que Bagre é uma pequena cidade, em uma ilha das muitas que compõem o Arquipélago do Marajó! Sim, isso mesmo: arquipélago. O Marajó não é uma ilha apenas, mas, antes, inúmeras ilhas! E, mais que isso, na verdade, Bagre fica até mesmo do outro lado do rio, e deveria ser considerada uma ilha já do continente, mas para o Poder Judiciário, Bagre, que fica “próximo" (quatro horas de barco ou uma hora de voadeira É próximo!!) à cidade de Breves, pertence ao polo do Marajó. Como sói acontecer em todo o Marajó, a população é muito humilde e quando referimos que é população de baixa renda, quem mora em metrópoles talvez não entenda direito. Apenas para dar uma idéia, se alguém tem um emprego de carteira assinada, que pague 1 salário mínimo… UAU!, essa pessoa está bem! Porque existe enorme parte da população que vive com duzentos ou trezentos reais por mês! Então, em casos de alimentos, são comuns pensões de trinta ou cinqüenta reais por mês. Tá, vou colocar em números para entenderem e verem que não errei: falei mesmo R$ 30,00 ou R$ 40,00 por mês!
Voltando ao caso da audiência, quando perguntei se havia acordo, a mulher, que não devia ter ainda 30 anos, falou: 
“Doutor, eu quero R$ 200,00 por mês!”
Barbaridade, pensei (sim, sou gaúcho, e estou no Pará). Duzentos pilas por mês, não vamos sair daqui tão cedo…
“R$ 200,00 não dou doutor”, falou o homem, um rapaz que parecia mais novo que ela. “Dou R$ 400,00!”
"Hein?!" Dei aquela piscada que a gente às vezes faz quando acorda com alguém falando e a gente não entende direito! Antes de eu conseguir perguntar, a mulher repete:
“Quero R$ 200,00!”
Tô ainda pegando ar pra falar e o cara retruca:
“R$ 200,00 não pago. Pago R$ 400,00!”
Exatamente! Eu estava exatamente assim como vocês: sem entender nada. Parei tudo!
“Acho que eu não estou entendendo”, falei. “A senhora quer uma pensão de R$ 200,00 para seu filho, é isso?” 
“Isso, doutor”. Respondeu.
Virei-me para o qüera: “E o senhor quer pagar R$ 400,00, é isso?”
“Isso mesmo, doutor. R$ 200,00 eu não pago! Pago R$ 400,00”.
Daí, apesar do inusitado, suspirei aliviado! Quem não entendia eram eles! Não entendiam de números, pensei. Essa vai ser fácil, afinal! Daí, mais relaxado, fui explicar:
“Minha senhora, o que ele está tentando fazer, é mais do que a senhora está pedindo. Se ele quer pagar os R$ 400,00, melhor para a criança. Se a senhora não for gastar todo o dinheiro com o menino, vá fazendo uma poupança para ele”. E achei que ficaria assim resolvido.
Que nada! Olha só a história. Eu que não sabia de nada…
“Não, doutor. Já falei pra ele: não quero mais dinheiro, quero os R$ 200,00 e mais o que eu falei”. Era aí, o furo da bala!
“E o que exatamente a senhora quer?”
“Doutor, eu quero os R$ 200,00 e quero que ele leve a merenda (almoço) da criança lá em casa, porque muitas vezes é o horário que eu arrumo um bico pra fazer, cozinhando em alguma casa. Então, quero que ele vá ver a criança e levar a comida todos os dias. E também quero que pague o talão da energia" (conta de luz).
“Não vou fazer isso, doutor. Pago os R$ 400,00, e ela pode mandar o menino ir merendar todos os dias na minha casa”. 
Bagre tem a sede da cidade bem pequena (se alguém tiver curiosidade é só colocar no Google que vai ver o tamanho e como ela de fato fica em uma ilha). Para ir de uma casa até outra é algo que, mesmo distante, vai-se em cinco minutos.
Tornei a falar com a mulher:
“Senhora, quanto é a conta da energia?”
“Dá uns R$ 30,00 ou R$ 40,00 por mês, doutor.”
“Ora, então se ele lhe der os R$ 400,00 por mês, será uma vantagem! E a senhora ainda pode deixar seu filho merendar na casa do pai”!
“Não adianta, doutor, assim não aceito!”
Eu estava para argumentar alguma coisa quando o caboclo que queria pagar os R$ 400,00 falou:
“Isso é mulher ruim, doutor. O que o senhor não sabe, é que ela já arrumou outro macho pra ela, e ele não faz nada e fica na rede o tempo todo vendo televisão. Ela quer que eu vá lá todos os dias levar a merenda, só pra eu dar de cara com ele e ainda pagar o talão da energia que ele gasta no ventilador, deitado na rede!”
Era isso! Descobri depois que o casal havia separado, porque ela pegou ele agarrado numa morena atrás de um salão de uma festa. Mulher é assim: se o caboclo desliza uma vez, seja como for, estica a vingança o quanto pode!
No fim, o acordo foi de R$ 300,00, sem a merenda diária… mas o talão da energia ficou para ele pagar. (Alguma coisa me dizia, que a energia seria cortada em breve…).

Por Luís Augusto Menna Barreto

segunda-feira, 13 de junho de 2016

DIALOGS - "... listening to the POET!" // DIÁLOGOS - "... ouvindo o POETA!"


This dialogue took place in writing, and I counted on the generosity of the poet LuAlves. The concept is his, the phrase too. I wrote here, simply.

The poet discusses this better in the wonderful video "Fisherman of Stars", which I point out on the blog wall (web-computer version and tablet), on the right side, where you can hear from POETA himself!

Este dialogo foi travado por escrito, e contei com a generosidade tamanha do POETA Lualves. O conceito é dele, a frase também. Eu escrevi aqui, simplesmente. 
Discorre melhor sobre isso no maravilhoso video “Pescador de Estrelas”, que indico no mural do blog (versão para web - computador e tablet), no lado direito, onde poderás ouvir do próprio POETA!

It can be accessed at this link:
Pode ser acessado nesse link: O Pescador de Estrelas - CLIQUE AQUI

The poet Lualves spoke of life ...:
"... we must move on ..."
"Yes," I agreed, "... there is much more to go."
"Much less". (He looked away ... a distance that pierced souls ...)
I did not understand ... but I saw that he would complete ... he was arranging the thoughts into himself.

"... every moment, it's an instant less ..."

O POETA Lualves falava da vida…:
— … é preciso seguir em frente…
— É —, concordei, — … há muito mais a percorrer.
— Muito menos. — Ele olhava longe…. uma lonjura que trespassava almas…
Não entendi… mas vi que ele completaria… estava organizando os pensamentos em si mesmo.
— … cada instante a mais, é um instante a menos…

Por Luís Augusto Menna Barreto
citando os conceitos que me foram ditos pelo poeta Lualves

domingo, 12 de junho de 2016

O CIRCO - parte 2 de 13



Capítulo 1
Um rock nem tão rock
saindo pop de um rádio no chão,
estrelas no céu, fumaça no ar...
e até peguei tua mão!
Uma risada, um breve olhar
que vontade da noite não passar!,
pro riso, quase sorriso
displicente, impreciso,
... durar... pra sempre durar...
Uma conversa que rolou legal
nem sabemos qual era
(verão, abril, primavera?)
... mas não faz mal.
Lembras do beijo, um pouco roubado?
Que gosto gostoso, embriagado...
Óh noite, noite bela,
que vontade de esquecê-la
mas já nem lembro mais...
O sono... Óh!, ficou pra trás.
Quem eras, quem era eu?
Tu Julieta pr’esse Romeu?
Acho que essa é outra estória...
(confusão, lembrança, memória)
... tinha nela uma maçã?
O dia claro, um pouco vento
nem lembro o que eu tento,
... mas não importa...
já é manhã.”

O “riso, quase sorriso” era, agora, o dela. Seus 17 anos faziam-na rir com freqüência. E ele a fazia rir, também.
Puxa! Tá lindo... - Disse pra ele, ainda olhando pro papel. Ele, em pé em cima daquelas pedras, em vez de um tímido “obrigado”, olhou pra ela que estava sentada um pouco abaixo e declarou em tom de sentença:
Eu sei. É o melhor poema, porque eu sou o melhor! (E tinha somente 19 anos).
E aquele sorriso “displicente, impreciso” virou gargalhada. E ele riu também enquanto ela falava:
Você me faz rir! Como é modesto...
... e realista! - Completava ele.
Riram.
Por Luís Augusto Menna Barreto






sábado, 11 de junho de 2016

poesia de ver - "... amor em asas"

poesia de ver: 



De longe, daqui onde olhamos, travou-se o diálogo:
“Ah, como te invejamos”, disseram as florzinhas ao 'borboleto'. “Tu és livre, tens asas… podes voar por onde queres, enquanto nós, temos de viver e morrer aqui.”
O 'borboleto', olhando aquela outra borboleta lá longe, nas flores, suspirou apenas.
“Por que suspiras?” Perguntaram as florzinhas.
“Porque quem as inveja sou eu.” Respondeu o 'borboleto'.  “Mesmo com minhas asas, nunca consegui voar ao lado dela… e é sempre a vocês, sem asas, que todas as manhãs, a borboleta que amo vem beijar."
Texto por Luís Augusto Menna Barreto
Imagem por Ane Matsuura (@annematsuura)
A imagem foi feita pela artista, em sua visita ao Japão,
cidade de Hamamatsu



sexta-feira, 10 de junho de 2016

crônica - Divisão Bens

Divisão de Bens

(Obs. Essa crônica tem a características de dois começos em minha vida: eu estava começando a ser juiz (era minha primeira comarca como titular) e eu a escrevi anos depois, quando começava a escrever. Hoje, certamente seria muito diferente. Mas quis deixá-la como no original, como forma de lembrar de mim mesmo!)

Originalmente  publicado no antigo blog
"Menna Comentários", precursor deste.
Data da postagem original: 09.02.2016.
Comentários na postagem original:  1.
Visualizações até ser retirado:  115.

Pois na Amazônia, também é assim: divisão de bens no divórcio é sempre uma encrenca!
Na ocasião eu era titular na comarca de Novo Progresso, sudoeste do Pará, a primeira cidade em que fui o titular.
O caso da audiência era de um processo que já tramitava há muito tempo, a julgar pelo número de volumes: 6. Descobri que o processo estava há 6 anos em tramitação. Um volume por ano, pensei.
O caso era o mais simples possível de entender: divórcio. Dois filhos já maiores de idade e capazes de se sustentar. A mulher tinha perto de 50 anos de idade e jamais havia trabalhado desde que casara. Dedicou-se ao lar e cuidar dos filhos. O marido tinha quase 60 e, pelo que entendi, aconteceu o óbvio: envolvera-se com uma menina da idade dos filhos, perto de 20 anos de idade. O casal havia ido morar em Novo Progresso quando o governo brasileiro incentivava e prometia terras e facilidades para quem fosse para aqueles lados da Amazônia. “Integrar para não entregar” era o slogan. 
Novo Progresso era pródigo em madeira que era retirada em modo extrativista, sem qualquer cuidado na conservação da mata, o que tornava o custo muito baixo e o lucro muito alto, considerando que a mão de obra era quase escrava. E havia também os garimpos, quase todos ilegais, que também faziam muitas fortunas e matava muita gente. A circulação de ouro ainda era grande quando fui trabalhar lá, nos idos de 2005, e ainda me lembro de um dia em que um cidadão ingressou com uma ação de reintegração de posse e queria pagar as custas judiciais com ouro em pó. Evidente que determinei que fosse trocar aquilo e voltasse com dinheiro (mas isso é outra história, e fica para outro dia).
Pois o homem que estava se divorciando havia feito relativa fortuna com negócio de táxi aéreo. Não é bem isso que vocês estão imaginando. No negócio do garimpo, quem tinha um avião (e em muitos dos garimpos somente se chega ou por muitos dias de caminhada na mata, ou de avião em pistas clandestinas) retirava todos os bancos e tudo o que pudesse fazer peso deixando apenas o banco do piloto. Então em um avião projetado para 4 pessoas, viajavam quase 10, agachados nos espaços dos bancos! Os garimpeiros pagavam em ouro. Vários pilotos fizeram fortunas. O aeroporto da cidade de Itaituba, acima de Novo Progresso que não tinha aeroporto, chegou a ser o mais movimentado do mundo em número de pousos e decolagens… todos de aviões pequenos!
Então é fácil de imaginar como estava difícil a divisão dos bens, neste divórcio. Havia vários caminhões, depósitos, casas, aviões e até barcos. Como de praxe, o marido não admitia que a mulher pudesse ter direito a quase nada, afinal, fora “apenas ele” que trabalhara para conseguir tudo. Não admitia ter de dar pensão, se ela “bem podia trabalhar” e nunca tinha feito nada. 
Incrível como muitos homens pensam que ficar em casa, cuidar de uma criança, alimentá-la, cuidar do sono, levantar mil vezes por todos os dias, confortar, lavar, cuidar dos machucados, acompanhar na escola, estar vigilante todos os dias, 24 horas por dia, 7 dias por semana, e ainda ter paciência e disposição de dar atenção ao marido que chega e quer tudo arrumado, comida na mesa e a mulher bonita e perfumada, possa ser uma tarefa simples!
Mas, enfim, muitos pensam assim e, então, na hora da divisão de bens, não lhes parece ser justo a esposa ficar com o que quer que seja.
Haviam casado com separação parcial de bens e ficou demonstrado que todos os bens foram adquiridos na constância do casamento. Assim, todos os bens deveriam ser divididos.
Pois o processo se arrastava porque nunca conseguiam chegar a uma divisão e sempre pediam uma nova audiência. Eu, que havia chegado há pouco em Novo Progresso, decidi que aquela seria a última audiência e pronto! Não importa quantas horas levássemos, aquilo teria fim.
A mulher estava acompanhada por uma advogada muito incisiva, muito enérgica. O homem, acompanhado de um advogado experiente, cuja estratégia era, justamente, deixar o processo tramitando enquanto ele faria os bens irem-se dissipando com manobras que beiravam a ilegalidade. 
Foi assim que depois de quase quatro horas de audiência, e várias propostas de divisão de bens, todas recusadas pelo homem, eu lembrei de uma história que um colega, Dr. Miguel, havia contado. Acho que em outras histórias já falei do Dr. Miguel, e não foi por acaso: ele é realmente perspicaz e tem um jeito muito particular de olhar a Lei e, especialmente, de olhar a  aplicação da Lei. Tendo nascido em uma família muito numerosa, certa feita contou-me como era o café da manhã em sua casa. Pois foi com o café da manhã da infância do Dr. Miguel que resolvi o caso!
Quase perdendo a paciência, bati na mesa e disse:
"Cansei! Vamos resolver isso. - E, dirigindo-me ao homem e seu advogado determinei: - Dr., farei um recesso de 1 hora. O senhor e seu cliente ficam responsáveis por fazer a divisão dos bens como os senhores acharem justa, concordam?”
Evidentemente que concordaram imediatamente, no mesmo momento em que a advogada quase pulou no meu pescoço, dizendo que aquilo era um absurdo, que eu estava sendo parcial, que ela me denunciaria no Conselho Nacional da Magistratura e na Corregedoria, que aquilo não iria ficar assim… … e mais um monte de coisas que nem me lembro!
Se fosse nos Estados Unidos e eu tivesse um martelo, bateria naquela hora, mas como é o Brasil, eu simplesmente disse que ela poderia consignar o que quisesse, e recorrer como fosse, mas seria assim e pronto!
Então, consignei minha decisão de que o marido faria a divisão que achasse justa e consignei também que ele e seu advogado concordavam. O triste foi que levou quase 1 hora para a advogada da mulher consignar todos os motivo pelos quais iria recorrer da minha decisão.
Mas, enfim, o juiz era eu e foi feito como determinei! Recesso de 1 hora. Saí da sala sob o olhar arregalado do servidor que digitava, e a mulher e sua advogada quase me bateram. Fui almoçar.
Passada 1 hora, voltei pra sala. Abri a continuação da audiência sob olhar furioso da advogada da mulher e sob um rosto incrédulo da esposa que evidentemente havia chorado; e já havia a fofoca que eu havia me vendido para o marido.
Perguntei ao advogado se ele havia feito a divisão.
"Fizemos, Doutor. - Disse-me o advogado, passando-me duas folhas de papel. - Nesta primeira folha estão arrolados os bens que ficarão com o meu cliente e nesta outra, os bens que ficarão para a ex-esposa.”
"Um momento, Doutor. - Eu disse ao advogado. - Eu determinei e os senhores expressamente aceitaram (e ficou registrado na ata) que vocês fariam a divisão justa dos bens. Agora que os bens estão divididos, quem escolhe com qual metade quer ficar será a esposa!”  E passei as duas listas à advogada, que finalmente entendeu o que eu havia feito e mudara da água para o vinho a expressão pesada de seu rosto!
O homem quase infartou ali mesmo e o advogado tentou esboçar um veemente protesto, ao quê eu interrompi:
"Eu disse para que fizessem uma divisão justa, não para escolher os bens. Se a divisão foi justa, qualquer metade há de servir. Qualquer coisa diferente disso, significa que ou os senhores não foram justos como se comprometeram, ou deliberadamente mentiram em juízo. Qualquer das duas opções parece-me por demais grave."
Podem imaginar o rebuliço!! A divisão, no fim das contas, não ficou como estavam naqueles papéis. Mas depois do susto, o caso resolveu-se no mesmo dia!
Pois foi o Dr. Miguel que me contou que na sua casa eram 10 irmãos ao todo. O pai comprava 5 pães para sanduíches. Cada 2 irmãos deveriam dividir 1 pão. Então ele avisava: um divide, o outro escolhe! E os pães eram sempre divididos rigorosamente iguais.

Por Luís Augusto Menna Barreto

quinta-feira, 9 de junho de 2016

O CIRCO parte 1 de 13


Estréio, hoje, O CIRCO. Um conto que escrevi há mais de trinta anos, quando tinha, anda, 21. Conto em 13 partes. Espero que tenham carinho com meu palhaço…  ele tem um coração recortado por desamores…

PROÊMIO

Estréia
Respeitável público,
eu já fui um menino.
De 19 anos. Quem não foi?
Brinquei com minhas bolitas e meus castelos nas árvores.
Vi-me envelhecer ante o espelho.
Tive 60, 80 anos... Quem não os teve?
Agora, sou um menino de 21 anos.
Tenho, talvez como tu, uma grande frustração: eu amo!
E não há como controlar o fogo em meu coração. Mas é preciso.
Porque meu coração arde solitário...
É preciso sorrir novamente; nem que seja através do teu sorriso.
Não posso mais voltar à infância e pegar as bolitas.
Ter amado, impede-me de ser criança...

Óh!!, mas vê só o que encontro no bolso da minha larga calça:
Laranjas!
Isso mesmo: LARANJAS!
Laranjas como as que estão nos teus bolsos!
Eu amo... mas tenho laranjas!
Vou jogá-las pra cima.
Não as deixarei cair, mantê-las-ei, sempre, subindo e descendo.
Sim, eu sei que tu amas também.
E dói.
Mas pega tuas laranjas!

É preciso fazer sorrir!
Por Luís Augusto Menna Barreto

quarta-feira, 8 de junho de 2016

poesia de ver - "... castelos!"

Poesia de ver:
Originalmente  publicado no antigo blog
"Menna Comentários", precursor deste.
Data da postagem original: 02.03.2016.
Comentários na postagem original:  1.
Visualizações até ser retirado:  178.




Às vezes, meus castelos eram tábuas que sobravam de uma construção...

... outras vezes, eram de areia...

Uma vez, tive um castelo de tijolos, atrás de um muro...

E todos eles me protegiam porque eram inabalavelmente fortes...

... fortes como este castelo de folhas que protege tanto o menino.



Imagem e texo por Luís Augusto Menna Barreto
(Na imagem, meu pequeno João, a melhor parte de mim mesmo)