segunda-feira, 5 de setembro de 2016

diálogos - "... coragem!"


(…)
“Tu não deverias estar aqui!”

“Eu também acho que não.”

"Foi outra chave que te deram. Não poderias ter entrado aqui com ela. Esta chave que tens não abre essa porta.”

"Eu sei.”

“Tu deverias estar ardendo no inferno!”

“Eu recebi a condenação. Peguei a chave que me deram. Fui até a porta do inferno.”

"Mas não entraste. Continuas sendo um covarde. Covardes não deveriam entrar no céu.”

“Nunca fui um covarde. Carreguei meus erros. Aceitei a condenação.”

“Então porque não entraste no inferno que te foi destinado pelas escolhas que fizeste? Tiveste medo! Por que não usaste a chave na porta do inferno?”

“Não foi o medo de entrar…”

O Anjo invejoso não entendia… então o condenado olhou-o nos olhos e disse:

“… foi o medo do que poderia sair que me impediu de abrir aquela porta.”
(…) 

(Trecho de um conto que escrevi, há muito tempo, em que havia heróis e vilões… e eu jamais soube quem eram uns e quem eram os outros…
Escrevi depois de ter lido o poema “Águia Sideral, vinha de bruma - a idade dos deuses, do diabo e da terra” de Euclides Santos Mendes).

Por Luís Augusto Menna Barreto



domingo, 4 de setembro de 2016

AS FLORES - parte 7 de 15



Lembranças de Henrique
Caminhávamos devagar e teus pés deixavam suaves marcas no caminho. Tu não falavas muito e, então, também fiquei em silêncio.
Só depois de algum tempo é que percebi que havia deixado o saco com as bolitas de vidro perto de uma árvore grande. Lembro, agora, que nunca mais voltei para buscá-las… Acho que foi naquele dia que perdi o interesse por muitas brincadeiras que me acompanharam durante toda a infância…
Lembro que a flor com que brincavas quando eu te vi, passou por nós e logo parou. Mas não notei isso naquele dia. Agora sei que naquele instante já havia vento. Embora até hoje, eu não saiba quando ele começou…

Por Luís Augusto Menna Barreto










sábado, 3 de setembro de 2016

poesia de ver: "... resposta!"

Poesia de ver



Vim aqui perguntar-te se meu amor bem me quer…

… mas do jeito que me olhas, florzinha, tenho a resposta, sem arrancar-te nenhuma pétala…


Texto por Luís Augusto Menna Barreto
Imagem por Maria Júlia Ferraz



sexta-feira, 2 de setembro de 2016

crônica - A Festa, a Copa e o Sogro do Juiz

A Festa, a Copa e o Sogro do Juiz

Originalmente  publicado no antigo blog
"Menna Comentários", precursor deste.
Data da postagem original: 05.04.2016.
Comentários na postagem original:  13.
Visualizações até ser retirado:  285.

“Mas Padre, não posso determinar simplesmente a proibição de bebida alcoólica na cidade”.
Era sexta-feira. A festa teria início na sexta mesmo e o auge seria na missa do domingo à noite. O arraial (parquinho itinerante) estava montado na praça em frente à Igreja.
“Doutor… é a festa da padroeira. Todos os anos tem alguma confusão. Vamos fazer uma festa diferente este ano, sem bebidas", dizia o Padre com sua voz mansa.
“Olhe, Padre, conte com meu apoio. Mas não posso fazer essa determinação.” Eu até achei que a conversa ia estender-se mais um pouco, porque, pelo que eu havia entendido, não concordei com o Padre. Mas ele sorriu, levantou-se e apertou minha mão:
“Obrigado doutor. Seu apoio já é muito importante.”
“Ãnnh…” … eu tentava entender, porque o Padre levantou com um sorriso maroto.
Mas foi isso, e ele foi embora. As audiências estavam já dez minutos atrasadas, porque eu conversei com o Padre. 
Nessa ocasião, por coincidência, meu sogro havia saído, desde Porto Alegre até o Marajó, para visitar-me. Como não tinha lá muito o que se fazer em Curralinho, coloquei meu sogro, que é versado em direito, para organizar o arquivo do forum, que há muito precisava de organização (desde sempre, na verdade, porque nunca fora organizado)! 
“Mas sem ar condicionado!!!” Ele me arregalou os olhos. 
“Ãnnh…” … e me mandei pra sala de audiências!
A primeira audiência era um caso grave, de estupro de menor. À época do fato, uns três anos antes, a vítima ficara grávida aos 13 anos. O réu era o conhecido por “Furão”, mas nascera Jesuíno.
Naquela época a primeira coisa era o interrogatório. Antes de eu começar a perguntar, o “Furão” já foi falando:
“É verdade que o senhor proibiu de vender cerveja no fim de semana, doutor? Mas e a festa? E o jogo da seleção? É copa do mundo, doutor! Brasil x Gana!”
“Hein?” Dá pra imaginar? O sujeito estava sendo processado por estupro, poderia pegar uma pena de mais de dez anos de prisão, e a primeira preocupação era se poderia beber no final de semana? E outra: como ele ficou sabendo? Não fazia nem 15 minutos que o Padre saiu do fórum!
“… pois é doutor, o seu Nonô falou que o Padre disse que o senhor não quer saber de bebida durante a festa! Já até recolheu toda a cerveja”
Seu Nonô era o dono do bar e restaurante, e também do hotel, e ficava na lado da praça da Igreja. E também o seguinte: se era pra alguma notícia espalhar-se era só contar ao Seu Nonô. Pronto. Em meia hora, Curralinho inteira está sabendo.
Até a policia para resolver um ou outro caso, ia tomar uma cervejinha no Nonô, e era certo: saía com a informação!
Pois foi isso o sorriso do Padre: como eu disse que “apoiava”, ele foi logo dizer para o Nonô que o Juiz estaria apoiando que não vendesse bebida! Era mais fácil do que dizer na missa!
E eu caí na do Padre. Ele nem queria nada escrito, só queria ouvir de mim, para poder dizer sem estar mentindo (porque Padre não pode mentir, né?!).
Bom, mas nem falei sobre a bebida, porque me interessava interrogar o “Furão”. O que o Padre fez era relevante, mas mais grave era a situação do “Furão”.
“Ela que me convidou, doutor. Se nego fogo, no outro dia o Nonô ta dizendo que eu sou fresco!”.
Era uma confissão!
"E tu sabias que ela tinha 13 anos?”
“Não dava muito prá reparar, né doutor. Sabe como é… eu já tava meio porre”.
“E tu soubeste que ela ficou gravida?”
“Sim senhor”.
“E o filho é teu?”
“É, sim senhor! E os outros dois também, doutor. Já temos três filhos e o quarto vem aí. Já posso ir embora?”
“Ãnnh…”
Pois é. “Furão" casou com a pequena e viviam felizes e com três, quase quatro filhos em uma ilhazinha próximo à sede de Curralinho!
Terminada a audiência, eu fui dar uma espiada no meu sogro, na “salinha do arquivo”. Vou dizer uma coisa: ainda bem que ele estava de costas e acho que nem me viu! Pense numa pessoa suada! E tem o fato de que na ocasião ele estava… como vou dizer… discretamente acima do peso… uns 15 kg discretos acima. E fazia perto de 38 graus na sombra, em Curralinho!
Saí de fininho e voltei para a próxima audiência. Era um caso de furto. O “Pezinho" havia sido preso e condenado por arrombar um pequeno comércio na beira. O Pezinho era conhecido, porque não tinha um pé (origem do apelido). Andava por aí, todo manco, e com cara de coitado. Mas quando resolvia aprontar, pulava qualquer muro ou cerca e ainda corria quase mais que a polícia! Era sua audiência de condicional, para ver se seria posto em liberdade.
“Então, Pezinho? Como foi teu comportamento nesse tempo preso?”
“Doutor, o Seu Nonô disse que o senhor proibiu a venda de cerveja?”
“Hein?”.
“Seu Nonô…”
“Caramba, Pezinho! É tua audiência, tu nem sabes se vais ser solto e tu estás preocupado se vai ter cerveja prá vender? Tu nem sabes se vais estar solto à noite!” Falei já meio irritado! Pezinho estava preso. Preso! Chegou no navio da madrugada da colônia Penal. Foi direto pra cela da delegacia, e já sabia sobre a proibição? Nesse momento, eu estava para ser excomungado, porque eu queria matar o Padre e o Seu Nonô! Mas depois, pensando bem, seria até melhor pensarem que é mesmo uma proibição! Será trabalho a menos nos dias depois da festa, com menos casos de brigas, ameaças e, especialmente, menos “Maria da Penha”,  que é quando os homens agridem as suas mulheres.
“Responde o que te perguntei, Pezinho”.
“Doutor, meu comportamento foi bom. Já pode me soltar, sim, doutor. Encontrei Jesus.”
Olha, vocês não sabem como essa conversa de preso encontrando Jesus pode me irritar! É impressionante. Dá a impressão, que Jesus tá preso! Porque todos os presos que entram, acabam encontrando Jesus. Só que eu acho que o crime de Jesus deve ter sido o pior, porque eles saem, e Jesus continua preso. Porque quando estão soltos, não encontram mais Jesus! Acho que Jesus permanece preso e eles vão sendo soltos! … tá certo que alguns ficam com tanta saudade de Jesus que acabam voltando prá cadeia, acho que para encontrá-lo.
Quando terminou essa audiência, já ia perto de 14 horas e eu tinha uns três ou quatro processos ainda, por despachar. O Brasil entraria em campo contra Gana, na copa da Alemanha, às 15h.
Era perto de 14h, quando meu sogro, quase irreconhecível, entrou na sala! Cansado. Cheio de poeira. Suado.
“Já vou. Te espero lá pra gente ver o jogo. Preciso de um banho!”
E precisava! E como! 
E me demorei mais do que esperava e acabei chegando em casa por volta de 15h30. O Brasil Já havia feito o primeiro dos três gol que faria.
Quando abri a porta da sala, lá estava meu sogro, feliz, de banho tomado, debaixo do ventilador, vendo o jogo…
… e com uma cerveja na mão e umas outras 4 dentro de uma pequena caixa de isopor.
Eu me assustei!
“Mas onde o senhor conseguiu isso se eu não tinha bebida em casa?”
“Comprei”, ele me disse sem tirar o olho da TV.
“Mas como, se estava proibido? Se as pessoas virem o senhor comprando cerveja, ninguém vai respeitar mais o pedido de não comprar bebida, e eu vou ficar desmoralizado, porque tá todo mundo pensando que a ordem foi minha”!
“Ah, não se preocupa. Comprei com um camarada muito simpático. Ele não queria vender, e falei que era teu sogro, ele me vendeu essas latinhas. Mas ele me pareceu muito discreto, ninguém vai saber…”
Acho que comecei a ficar apavorado.
“… Seu Nonô, o nome dele!”
…
A festa da padroeira foi um espetáculo! Nunca se havia bebido tanto em uma festa da Igreja, antes, em Curralinho!


Por Luís Augusto Menna Barreto

quinta-feira, 1 de setembro de 2016

AS FLORES - parte 6 de 15


Pensamentos de Katia
Tímidos. Com passos tímidos ele caminha em minha direção. Agora que está mais perto, vejo seu corpo de homem. Procuro não olhar em seus olhos de menino, para que ele não fuja. Ele olha minhas mãos. Tem medo de olhar pra mim. Continuo brincando com a flor. Eu não falo. Fico esperando que se sinta seguro. Quero que ele diga alguma coisa.
- Você tem mãos bonitas…
Ele me olha assustado. Espera uma resposta para a pergunta que não fez. Sorrindo, eu olho pra ele. Ele volta a olhar para minhas mãos. Então, não paro de brincar com a flor.
- Eu me chamo Kátia.
Algo move-se no universo. As nuvens parecem movimentar-se. Um vento mais fraco passa por mim e chega até ele. O vento traz um doce aroma… O aroma dos vendavais, que são muito fortes, rápidos… e deixam marcas.
Ele continua assustado. Eu paro de brincar com a flor e saio na mesma direção do vento. Ele me observa. Quer vir junto mas não sabe se deve. Precisa ser convidado. Eu o convido:
- Como você se chama?
- Henrique…
Ele falou hesitante. Mas recebeu meu convite. Começa a caminhar ao meu lado. Caminhamos para o leste… como o vento que, suave, bate em nossas costas.

Por Luís Augusto Menna Barreto










quarta-feira, 31 de agosto de 2016

poesia de ver - "... desabafo!"

Poesia de ver:

Originalmente  publicado no antigo blog
"Menna Comentários", precursor deste.
Data da postagem original: 06.04.2016.
Comentários na postagem original:  13.
Visualizações até ser retirado:  230.



Pensei em te despetalar… por desabafo… 
… por raiva… 
… para forçar-te a dizer que meu amor bem me quer…

… mas do jeito que me olhas, florzinha…
passei a te amar.



Imagem e texto por Luís Augusto Menna Barreto





terça-feira, 30 de agosto de 2016

O Surdo, os Gêmeos e Seu Raimundo Duas Vezes


“Teu nome?”
Ele ficou paradinho olhando pra mim. E acho que posso apostar que tinha um quase sorriso na boca, mas não dava pra saber direito.
“Teu nome?” Repeti, já com a testa franzida!
Olhar encarando-me e aquele quase sorriso. Não tenho bem certeza se o quase sorriso deixava-me mais fulo que o olhar-de-peixe-morto, mas os dois juntos eu não tinha dúvida que estavam conseguindo irritar-me.
“TEU NOME?” Assim, falando alto, tipo letras maiúsculas mesmo!
Nadinhas. Silêncio. Na sala de audiências todos estão tensos. Conhecem-me há tempo e sabem que estou a ponto de um rompante de irritação. O Barganha, que tava digitando, fica com as mão paradas no ar, imóveis, pouco acima do teclado do computador, pronto para digitar algo, qualquer coisa que seja, torcendo para eu ditar alguma coisa e acabar com a tensão, mas, enquanto não dito, as mãos ficam suspensas, sem coragem sequer de encostar nas teclas, com medo que o contato faça barulho e eu dirija a ele minha irritação com o peixe-morto que continua lá, olhando pra mim, com aquele quase sorriso!
Uma voz perto do meu ouvido:
“Ele é surdo, doutor”. 
“Ãhn?”
Pois é. O caboclo era surdo! Foi uma audiência difícil. Não levo muito jeito com surdos. Desde sempre! Lembro quando eu era adolescente e meu pai já velhinho (e tô falando de 90 anos de idade - é, sou bem temporão), ele foi ficando surdo e cada vez mais eu sentia dificuldades.
E tenho certeza que eu sempre usava o timbre errado perto dele. Porque tinha coisas que ele entendia e outras não! Às vezes, com o pai sentado na poltrona vermelha, com o jornal na mão, a gente falava alguma coisa baixinho, para ele não ouvir, e ele ouvia! Outras vezes, a gente falava uma bandalheira qualquer, até mais alto, pra provocar! E a mãe, da cozinha, gritava pro pai, como que apelando pra autoridade dele pra corrigir a gente:
“Tu estás ouvindo o que esse guri tá dizendo?!”
E o pai abaixava o jornal da frente do rosto e respondia sorrindo:
“Não… graças à Deus!”
Pois é, nunca me dei bem com surdos.
Tive de suspender a audiência por mais de uma hora até achar o "Come Vento”. O Come Vento era um professor que estava habilitado com o LIBRAS - Linguagem Brasileira de Sinais. O único da cidade que estava habilitado. Há anos era somente ele quem trabalhava, em aula, com surdos-mudos (que, hoje, parece que o “politicamente correto” é chamar apenas de surdos, porque a mudez, no mais das vezes é reflexo de não ouvirem sons e, então, não terem aprendido a emiti-los, embora tenham capacidade física de produzi-los). Mas, enfim, era o único da cidade e, como disse, há anos trabalhava com surdos(-mudos)! Ganhou o apelido de “Come Vento” porque, enquanto fazia os sinais, ia falando as palavras sem emitir som! Daí, enquanto fazia os movimentos, parecia mesmo que estava comendo vento!
Virou o “Professor Come Vento”.
Pois o Come Vento chegou, realizamos a audiência e acabei substituindo a prisão preventiva por várias medidas cautelares diversas de prisão, como, por exemplo, proibi de frequentar bares e boates, determinei que não deixasse a cidade e que se recolhesse todos os dias em casa a partir de 22 horas até 6 horas, entre outras. Não sei bem se ele merecia a liberdade, ou se acabei ficando com pena. Mas depois que eu descobri que era surdo, já não impliquei mais com o meio sorriso e o olhar-de-peixe-morto.
Mas, como eu dou azar com surdos, aconteceu: uma quarta-feira à noite, eu estava com um grande amigo que era juiz de uma cidade vizinha (que fica há duas horas de distancia de viagem de voadeira) e ele iria para Belém. Como o navio em que ele iria para Belém não encostava na cidade dele, ele veio até a minha (ambas no Marajó), para pegar o navio que passava todos os dias entre 22 e 23 horas. Pois naquele dia, como a maré estava contra (é, descobri no Marajó, que rio tem maré!) o navio encostou quase 23 horas. Meu amigo foi um dos primeiros a entrar no navio, equilibrando-se na prancha que liga o trapiche municipal ao navio. 
Assim que ele entrou, eu me virei e comecei a ir embora na direção contrária ao “empurra-empurra” para entrar navio. Pois quem esbarra em mim?
Isso, o surdo da audiência! Como no tumulto eu não soube quem tinha esbarrado em quem, se de fato ele em mim ou eu nele, meio que de forma automática, falei:
“Opa, desculpa!”
“Tem nada não, doutor!”
Eu sorri, por ele haver também sido educado e fui saindo…
“Hein?! ‘Tem nada não, doutor’?”
Tava formado o rebu! Olhei pra trás e já o tinha perdido de vista no tumulto da entrada do navio. Olhei pro lado da venda de passagens e lá estavam dois terços do efetivo da polícia militar da cidade: 2 PM’s! Chamei logo os dois e disse que o navio não poderia sair sem a gente pegar o pilantra do falso surdo! O Continência e o Aspirante (os policiais, como eram conhecidos na cidade) já de cacetete na mão para impor respeito, foram abrindo caminho e o pessoal se afastando com medo! Entraram no navio, avisaram para um dos marinheiros pra não desatracar e começaram a busca. Entrei atrás e fui com eles. Uns três minutos procurando e achei o falso surdo armando a rede bem tranquilo. Apontei pra ele e os policiais foram pegando com aquela delicadeza toda! 
“Ai! Me larga! Não fiz nada!”
“Ah, bonito, né? Pois agora tu vais é passar uma temporada com o Sonrisal lá o Xadrez, seu esperto!”
“Mas doutor, é um engano! Eu…”
Não sei se eu escutei ou imaginei, mas o som do tapa na orelha que o falso surdo levou do Continência, pareceu ter feito “PLAFT”… assim, em maiúsculas.
Na mesma hora, voltou a ficar surdo, porque não falou mais nada enquanto era levado pelos policiais.
Imagina só: eram mais de 22 horas e o malandro tava entrando no navio para sair da cidade e todo falante! Ele só não contava era comigo ali no trapiche.
Esperei o navio sair e fui até a delegacia. Estava louco pra falar com o surdo e ver se agora ele ia entender ou ia ficar me olhando com aquele olhar-de-peixe-morto!
Quando to entrando no portão da delegacia, o Fechadura veio ao meu encontro:
“Doutor, tem um probleminha…” o Fechadura disse-me meio constrangido.
“Que problema, Fechadura? Só não vais dizer que tá faltando cela, porque até onde eu sei, só o Sonrisal tá preso. O Brédi-Piti eu soltei ontem!” E eu não estava entendendo porque o surdo estava ali na entrada da delegacia, sem ninguém para vigiar!
Nem esperei o Fechadura explicar, e fui entrando na delegacia, porque tava louco pra falar com o surdo:
“E aí? Vais dizer que ficaste surdo de novo?”, perguntei.
“Ahn…. huuummm…ããããhhh…”
“Mas tu és muito cara de pau, mesmo! Olha, Fechadura, tá surdo de novo!”
“Doutor… ele é surdo!”
“Tá, Fechadura, só se era um irmão gêmeo dele no trapiche!”, eu brinquei!
“Era, doutor”.
“Hein?”
“Era, doutor! Veio de Belém pra visitar ele. São gêmeos. O que fala tá na cela, doutor. Ia voltar pra Belém e o surdo não foi no trapiche junto, porque já tinha passado do horário que o senhor determinou, doutor!”
…
Dá pra imaginar?! 
Não levo jeito com surdos! É sina!
Daí que tempos depois, quando o Seu Raimundo Duas Vezes chegou no fórum e pediu pra falar comigo, eu já me assustei.
O Seu Raimundo Duas Vezes não era surdo de nascença, e falava muito bem, de mudo não tinha nada. Era como meu pai: a velhice foi castigando aos poucos sua audição, só que numa velocidade maior. Aos sessenta e cinco anos, só entendia o que era gritado para ele. E mesmo assim, normalmente, tinha que falar duas vezes pro Seu Raimundo!
Pois ele queria uma explicação de como estava o processo de aposentadoria dele contra o INSS. E agora? Como eu ia conseguir explicar pra ele que dependia do retorno da carta precatória de intimação da sentença pro INSS, que remetemos para Belém?
Fiz um esforço. Depois da mancada com os gêmeos, eu me sentia quase na obrigação de ter paciência e atender bem Seu Raimundo Duas Vezes. Levei-o ao gabinete e mentalizei que teria paciência. E comecei a explicar:
“Seu Raimundo, é o seguinte: explica, explica, explica, explica, explica, explica………..”
Fiquei uns bons 4 minutos explicando a situação e ele me olhando com cara de quem presta atenção e balançando a cabeça pra cima e pra baixo, muito serio, nos movimentos universais de concordância e entendimento! 
“……. explica, explica, explica, explica….. e é isso, Seu Raimundo!” Olhei pra ele com alguma esperança!
“Doutor… não ouvi direito… o senhor poderia me dizer de novo?”
Socorro. Respira. Paciência. Lembra da mancada com os gêmeos… (tudo isso eu estava dizendo pra mim mesmo). 
Recuperei a calma e comecei de novo, desta vez gritando:
“SEU RAIMUNDO, É O SEGUINTE: EXPLICA, EXPLICA, EXPLICA, EXPLICA, EXPLICA, EXPLICA………”
Agora, Seu Raimundo Duas Vezes estava sorrindo. Veio um certo alivio. 
“…….. EXPLICA, EXPLICA, EXPLICA, EXPLICA……… E É ISSO SEU RAIMUNDO!”
“Doutor, teve um ou outra coisinha que não ouvi direito… poderia me dizer de novo?”
Ai, ai, ai….
Pense num desânimo, misturado com desespero e com alguma vontade de esgoelar o Seu Raimundo!
Mas foi aí que me veio a idéia iluminada!
Peguei seu Raimundo pela mão, levei até a mesa de audiências, fiz ele sentar ao meu lado, peguei um monte de papel e um pincel atômico: eu escreveria tudo para Seu Raimundo! Que solução! Eu devia ter pensado nisso já na audiência do primeiro surdo! Mas enfim, o que passou passou e agora eu tinha a solução. E, para não correr riscos, peguei o pincel atômico e comecei a escrever em letras muito grandes. Cada folha que eu ia escrevendo, eu ia passando para o Seu Raimundo, que pegava o papel e olhava com muita atenção! 
No fim das contas, escrevi perto de sessenta folhas, minha mão já estava doendo!
Quando terminei, nem me preocupei em tentar falar nada. Olhei para Seu Raimundo Duas Vezes e fiz um sinal de positivo pra ele!
Ele virou pra mim, sorrindo:
“Doutor… posso pedir uma coisa?”
Fiz outro sinal de positivo, como quem diz: “Claro, Seu Raimundo, peça!"
“O senhor poderia ler pra mim? É que nunca aprendi a ler direito, doutor…”
…
Não… não vou contar o fim da história. Só vou dizer 6 palavras:
Chá de camomila! Suco de maracujá!


Por Luís Augusto Menna Barreto


segunda-feira, 29 de agosto de 2016

diálogos - "...tela!"



        
— O amor é um risco.

— Por quê?

— Ele transforma e não permite a desconstrução do que transforma.

— Ora, mas isso não é bom? — ela perguntava sem tirar os olhos da tela que pintava.

— O amor sempre nos apresenta o novo, e depois não nos basta mais o que éramos antes.

— Eu não estou entendendo… — Ela disse sorrindo, sem parar de pintar.

—… é como essas telas. No fim, sempre ficam mais lindas depois que pintas. Mas acho que eu me preferia quando gostava delas apenas brancas.

— Se achas belas as cores que eu pinto, como podes dizer que preferes as telas em branco?

— Não é que eu prefira o branco… é que era suficiente, quando eu não conhecia tuas cores…

Ela apenas olhou para ele, parada, com o pincel delicadamente suspenso no ar…

—… tenho medo, agora, de que  dia em que não pintares, eu não me sinta completo… eu me sinta apenas uma tela vazia…

Por Luís Augusto Menna Barreto

Originalmente  publicado no antigo blog
"Menna Comentários", precursor deste.
Data da postagem original: 04.04.2016.
Comentários na postagem original:  12.
Visualizações até ser retirado:  256.







domingo, 28 de agosto de 2016

AS FLORES - parte 5 de 15

Lembranças de Henrique
PAUSA NA CARTA:
Eu não me lembro bem onde estava, mas, de repente, eu te vi, Michele. Tu fazias movimentos delicados com as mãos e, então, percebi que brincavas com o galho de uma árvore. Eu estava um pouco longe e não consegui enxergar-te direito… eu não lembro se o dia estava escuro ou não… Talvez houvessem sombras ali.
Tu me olhaste algumas vezes… eu não ia ir até onde estavas.
Não lembro de muita coisa mas, quando notei, estava ao teu lado… Eras linda. Tinhas mãos muito bonitas… É, eu lembro de tuas mãos. Acho que eu estava um pouco nervoso. É fácil ficar nervoso quando se é jovem… Agora, tão poucas vezes eu perco a calma…
Ah!, lembro, também, que teu corpo era perfumado. Um aroma extremamente agradável. Então, tu sorriste… e disseste teu nome.

Por Luís Augusto Menna Barreto