terça-feira, 18 de outubro de 2016

Distéfano, Magistrado e... tá bom!


— Sim, Magistrado. Como tu explicas esse valor de combustível? Tu estás navegando os rios de motocicleta?
— Não… é que… (tosse)… sabe… (pigarro)… é muita coisa, doutor. Eu não paro.
Estavam os dois na minha frente. Não posso negar que achava divertida a forma como o Magistrado ficava nervoso tentando explicar por que o valor do combustível ficava 5 vezes maior do que o apresentado pelo Distéfano, que cumpria praticamente o mesmo número de mandados!
A propósito: "Magistrado" não era juiz! O juiz era eu! “Magistrado” e “Distéfano" eram os apelidos de dois oficiais de justiça. O Magistrado ganhou esse apelido, porque era muito educado e era formado em direito. Oficial de Justiça da nova geração, conhecedor da Lei, que passou no concurso e, da capital do Estado onde nasceu e foi criado, foi lotado no Marajó. Já o Distéfano era Oficial de Justiça há mais de trinta anos, conhecedor dos atalhos da profissão, além de nascido e criado no Marajó. O apelido, recebeu na juventude. Dizem que por causa de um famoso jogador de futebol argentino, que jogou no Real Madri chamado Di Stéfano. Sempre com uma pastinha embaixo do braço, Distéfano mandou plastificar meia página de jornal de trinta anos atrás, onde há uma reportagem falando que o time local havia empatado com o Paysandu, e o destaque do jogo fora ele. Como o repórter não sabia o nome daquele jogador do interior e a matéria foi feita dois dias depois na capital, o repórter inventou o apelido. O Distéfano jura que é dele que fala a reportagem e pegou o apelido pra ele. Quando conhece alguém, logo puxa a reportagem e mostra a foto apontando para um dos jogadores. De tão amarela e velha a fotografia, não tem como identificar ninguém. Então, pra qualquer um que ele aponte, pode ser ou não, mas duvidar na frente dele, ninguém duvida!
Já o Magistrado tem o dobro do tamanho do Distéfano e a metade da barriga. Dizem que é faixa preta de alguma dessas lutas por aí. Isso eu não sei. Mas por via das dúvidas, nunca procuro confusão com ele, porque não quero confusão com alguém que tenha calo na orelha!
O caso é que sempre que eu conferia o valor do combustível dos dois, havia diferença! E muito grande! Mas não passava pela cabeça de ninguém que o Magistrado estaria superfaturando o valor. Aliás, o que se comentava é que ele colocava combustível pagando do próprio bolso, algumas vezes, para não parecer que gastou demais. Mas não tinha jeito: na hora de acertar as contas, lá vinha o Distéfano com valores menores!
— Doutor, — tentava explicar-se o Magistrado, — será que é pela região dos mandados, doutor? O Distéfano pode estar fazendo muito mandado nas ilhas, de barco, e eu por aqui. Será que não é isso, doutor?
O Distéfano sorria, encolhia os ombros, e dizia:
“Tá bom…”. Saía quase sem som o “m" do final. Ficava assim: “Tá bô…”
Até que um dia decidi: pegamos uma sequencia de uns oitenta mandados para cada um e fiz questão que fossem em regiões semelhantes. Chamei os dois, expliquei a situação e perguntei:
— Darão conta de cumprir isso em 15 dias?  
— Apertado, doutor… mas acho que dá.  Falou o Magistrado.
Olhei pro Distéfano e ele apenas encolheu os ombros e deu o meio sorriso:
— Tá bom…
Quatro ou cinco dias depois, enquanto eu via o Magistrado para cima e para baixo, sempre com cara de apressado, encontrei o Distéfano bem sentado em uma mesinha na calçada no bar do restaurante que fica na avenida principal da cidade, cujo nome é... Avenida! Estava ali, tranquilo, sentado, um copinho discreto de cerveja e a pastinha com mandados com a reportagem plastificada.
— E aí, Distéfano? Correria?
— Ta bom…  Por mais que eu tentasse uma conversa diferente, o Distéfano vinha: “Tá bom…”. 
— Muito mandado essa semana, Distéfano?
— Tá bom…
— O Remo vence essa?
— Tá bom…
— Será que CHOVE, Distéfano?
— Tá bom…
No fim, minhas perguntas para ele eram todas retóricas porque eu sei que ele viria com o “tá bom…” dele!
E a coisa foi indo assim…
Mais uns dias e tudo continuava do mesmo jeito: 
Magistrado de moto para cima e para baixo, apressado… … e o Distéfano era visto sentado, tranqüilo, numa mesinha na calçada do restaurante Avenida, com sua pastinha debaixo do braço, eventualmente com uma cervejinha.
Passaram os quinze dias, peguei os relatórios no sistema e chamei os dois.
Com exceção de um ou outro que não foi intimado porque mudou de ilha, de igarapé, dois ou três embrenhados no mato ou embarcados a trabalho em algum navio, Distéfano e Magistrado cumpriram praticamente todos os mandados.
O Magistrado havia gasto 4 vezes mais combustível que o Distéfano.
Era fato. O Magistrado estava cada vez mais encabulado. E olha que se esforçou, usou atalhos, andou a pé, pegou carona… mas gastou mais que o Distéfano.
Claro que eu fiquei curioso. Perguntei:
— Sim, Distéfano! Como tu fazes isso?
Adivinha…?
Isso mesmo: meio sorriso, encolheu os ombros e soltou:
— Tá bom…  Acho que era de propósito, para me sacanear!
Desisti de entender, mas vi que o Magistrado não estava fazendo nada de errado.
E ficou por isso mesmo.
Outro dia, numa das raras oportunidades que conseguia sair do fórum para almoçar, resolvi ir almoçar justamente no restaurante Avenida. Fui lá atrás, na parte onde tem ar condicionado. Quando terminei o almoço fui lá no balcão da frente fazer o pagamento. É o próprio dono quem cuida do caixa. Quando perguntei sobre a conta ele se desculpou e pediu licença um instante:
— Um momentinho, por favor, doutor!  Virou-se para um freguês que estava saindo: — Carretilha! Peraí. Vem cá!  E o freguês virou-se e foi até o balcão.
— Assina aqui, carretilha: o Distéfano deixou aqui, caso tu aparecesse. Tem audiência dia 20 às 10 horas. A Socorro te botou na justiça. Tem que pagar a pensão do moleque, Carretilha”. 
O Carretilha assinou, pegou o papel e foi embora.
— Deu R$ 35,00, doutor.
...
Pois é. Descobri, depois, que o Distéfano ficava ali no bar e, quando não estava, deixava um ou outro mandado para o dono do bar pegar as assinaturas. Cidade do interior, todo mundo uma hora ou outra, passa no Avenida.
Mas não falei para o Magistrado. Nesse rumo, acabariam querendo trocar a verba do combustível por grade de cerveja!
— Tá bom…!

Por Luís Augusto Menna Barreto

Nota do autor: Originalmente  publicado no antigo blog "Menna Comentários", precursor deste. Data da postagem original: 26.04.2016. Comentários na postagem original:  17. Visualizações até ser retirado:  258




segunda-feira, 17 de outubro de 2016

diálogos: "...clausura!"

diálogos: "... clausura!"


Por que estás aí…?” A menininha, que ele tanto amava, perguntava do outro lado da grade que os separava.

“Porque eu cometi um erro.”

"Mas e todas as coisas boas que tu fazes? Sempre te vi sorrir. Sempre és tão gentil. Tu ajudas tantas pessoas todos os dias. Tu sempre tens tempo de brincar comigo.” 

"Não fui julgado pelo conjunto da minha vida. Nossa justiça não julga pelo conjunto da vida. Somos julgados por um único ato errado. E eu errei. Minha sentença está correta. Tenho que estar aqui."

"Mas tem tanta gente que nunca sorri. Que passa a vida sem gentilezas. Nunca estende a mão, não diz bom dia, não olha nem uma vez o por do sol… porque esses não ficam trancados no teu lugar?"

"Tu não entendes ainda… mas um dia vais entender. Eles JÁ ESTÃO enclausurados. Os corações endurecidos são a clausura de si mesmos." 

A criança sorriu e sentiu-se mais leve. E pediu à Deus, baixinho, para um dia entender.

Por Luís Augusto Menna Barreto
17.10.2016



domingo, 16 de outubro de 2016

AS FLORES - parte 11 de 15


Pensamentos de Raquel
Minha pele arrepia-se quando ele faz sua mão deslizar pelo meu corpo até meus seios. Eu olho pra ele e seu olhar não foge de mim.
Sinto, entre meus dedos, seus cabelos macios. Ele demora… mas não o apresso. Seu instinto está-se libertando. Ele me faz deitar. Sinto seu corpo. Seu peso. Homem. Eu o sinto homem.
As folhas continuam a passar por nós. Ele conseguiu libertar-se. Sinto sua força dentro de mim. Minhas mãos arranham suas costas. Ele me tem. Ele me possui.
Eu fechos olhos e grito. Um grito demorado. Gostoso. Ouço ele gritar também. Um grito de liberdade. Ele me beija. Eu olho sorrindo pros seus olhos que, agora, é a única coisa que tem de menino. E ele adormece. Sua cabeça descansa em meu peito. Eu o coloco ao meu lado. Olho para um homem diferente do menino que saiu assustado de trás daquela árvore com tronco grosso. 
O sol é apenas um círculo vermelho no horizonte, insinuando-se por entre as nuvens. O vento parou e há muitas folhas espalhadas no chão. Eu falo com ele… e o abandono.
Por Luís Augusto Menna Barreto
















sábado, 15 de outubro de 2016

poesia de ver: "...tamanho!"

Poesia de Ver



Incrível como eu nunca havia notado que o sol era tão grande…
“Acho que é porque lá na cidade, ele sempre está escondido atrás de algum prédio!”


Imagem e texto por Luís Augusto Menna Barreto



quinta-feira, 13 de outubro de 2016

crônica - Vangógui, a Juíza e as Bolsas

Vangógui, a Juíza e as Bolsas 

Originalmente  publicado no antigo blog
"Menna Comentários", precursor deste.
Data da postagem original: 22.04.2016.
Comentários na postagem original:  17.
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“Tu, um rapaz bonito… fazer isso?!”. Não, isso não foi eu quem disse. Não costumo falar assim com presos com cara de muito mau!
“Tu és um frouxo”. Isso a juíza diria depois. Mas já vou adiantando, porque definitivamente, eu não diria isso com o preso soltando faíscas de raiva pelos olhos!
Pois essa não foi comigo que aconteceu. Quem me contou foi o investigador Aragão! 
Finalmente haviam prendido o “Vangógui”. O apelido não é porque o homem pintava. Era por causa das orelhas, mesmo. Não as dele. As das vítimas. Ele simplesmente arrancava uma orelha da vítima! Ninguém sabia o porquê. Há quem diga que quando era criança e frequentou a escola, o Vangógui era muito arteiro. E a professora vivia puxando a orelha dele. Pois é: naquele tempo podia puxar a orelha e quem dava aula não era “tia”, era Professora. Assim, com “P" maiúsculo!
Pois o Vangógui estava aterrorizando a região das ilhas, na parte sul do Marajó. Havia crimes que eram atribuídos ao Vangógui em quase todas as cidades da parte sul do arquipélago, e foi justamente na pequena cidade daquela juiza valente que ele foi preso. 
A juíza já tinha a sua fama. Contam que na capital, tentaram assaltá-la quando saía do salão de beleza! O malandro passou correndo e puxou a bolsa Prada da juíza. Ela não teve duvidas: ficou com uma alça da bolsa na mão e segurou firme enquanto o malandro tentava correr puxando na outra alça. Com a perícia que só as mulheres tem para abrir e fechar bolsas, e numa perícia maior ainda que as mulheres tem de pegar exatamente o que querem numa bolsa cheia, no tempo de um piscar de olhos, pegou a arma que sempre levava. Vendo a arma, o malandro saiu em disparada. No tempo de dois passos, a arma foi destravada, engatilhada e disparada na perna do gatuno.
“Imbecil! Imbecil", gritava a juíza para o rapaz caído no chão e gemendo… a bolsa estava com as tiras rasgadas… uma marca de sujeira na antes branca e bela bolsa que combinava com os sapatos Christian Louboutin… mas não era por isso que a juíza estava tão furiosa:
“Imbecil! Estragou minha unha e eu acabei de sair do salão! Sabe o quanto a gente tem que esperar para ser atendida, seu Imbecil?!”.
E assim foi ganhando fama a juíza. A notícia da arma na bolsa espalhou-se rápido. Os jornais noticiaram o fato, e a juíza somente permitiu ser fotografada, depois de ter voltado ao salão e aproveitado para fazer uma escova!
Na cidade, a juíza, que já era respeitada e tinha fama de “braba”, ficou mais respeitada ainda. O pessoal mudava de calçada quando ela andava, e, quando ela chegava no único restaurante (o do Seu Nonô), tinha gente que levantava. Na entrada do restaurante, fica o bar, onde é comum os caboclos sentarem, sem camisa, tomando uma (ou quinze!) cerveja. Pois quando a juíza dobrava na esquina, os sem-camisa ou vestiam, ou saíam dali ligeirinho! A própria fama da juíza apaziguou em muito a cidade. Principalmente os adolescentes. Porque ela não aliviava!
O “Fabinho Pula-Cerca” era conhecido pelo atrevimento! Não respeitava o alheio nem com os donos da casa presente. Num instante pulava a cerca, pegava o que encontrava, pulava a cerca de volta e fugia com a destreza dos seus dezesseis anos. Entrava e saía da delegacia. 
Pois numa dessas, depois da notícia do assalto na juíza, o Fabinho foi preso e apresentado à juiza:
“Deixa ele aqui, e sai da sala, Aragão”, falou a juíza para o policial civil que conduzia o Pula-Cerca”.
“Mas doutora…” O Aragão nem conseguiu terminar! 
“Agora”!
O Aragão saiu.
O Fabinho Pula-Cerca foi logo sentando, com cara de malandro, achando que ela ficaria com pena, coisa e tal…
“Não falei prá sentar”. Só o olhar já induzia um certo respeito. Ela colocou a bolsa Gucci em cima da mesa.
“A bolsa”, pensou Fabinho. E lembrou da história que todos contavam. Arregalou os olhos!
“Só vou te fazer uma pergunta, senhor “Pula-Cerca”, falou a juíza, abrindo devagar a bolsa e mexendo em algo ali dentro. “Vou precisar me incomodar contigo?”
Fabinho Pula-Cerca respondeu com uma universal balançada de cabeça de um lado a outro. Ninguém viu, mas foi a primeira vez que ele tremeu!
E assim a fama da doutora foi sendo construída. O Fabinho endireitou-se. Deixou até de ser o “Pula-Cerca” e ficou apenas “Fabinho”. Começaram a surgir histórias da juíza que nem se sabe se aconteceram ou não, mas ninguém questionava. 
Os presos ou os menores infratores (hoje, "adolescentes em conflito com a Lei", como manda o politicamente correto) eram, todos, mandados ficar a sós na sala. E ninguém sabia o que a juíza conversava com eles. Eles não falavam, porque ficavam com vergonha de admitir que foram intimidados por uma mulher vestida de Dolce&Gabbana com os óculos Chanel em cima da mesa. Mas há quem diga que a conversa limitava-se em ela perguntar se iria se incomodar com o preso. Nos casos mais difíceis ela pegava a bolsa e começava a mexer lá dentro. Sem nem levantar os olhos, perguntava: “Vou precisar pegar alguma coisa na minha bolsa prá parar de me incomodar contigo?”
E assim ia.
Pois chegou o dia do Vangógui.
“Tu, um rapaz bonito… fazer isso? Isso é coisa de monstro, não de gente!”
Mas o Vangógui não era qualquer um. Pensa que se intimidou?
“A senhora tá falando isso, porque tô algemado e tem polícia aqui”.
Era um enfrentamento de egos. Uma guerra de nervos. Um combate surdo entre o atrevimento, e o representar da ordem. 
“Tira as algemas dele e sai da sala, Aragão”.
“Mas doutora…”
“Agora”.
O Aragão obedeceu. Mas não ficou tranqüilo… Assim que saiu da sala, passou um radio e pediu reforço. Abriu o coldre e destravou a arma. Estava apreensivo.
Dali uns segundos, o Aragão foi chamado. Tudo aparentemente normal. Mas viu a juíza suando. Isso não era normal!
O Vangógui tava ali. A juíza com uma bolsa Jimmy Choo no colo. Mão dentro da bolsa. 
Ela nem terminou a audiência. Disse apenas para levarem o Vangógui. O reforço chegou e levaram. O Aragão ficou porque achou que havia algo de errado. 
Perguntou:
“Tudo certo, doutora”?
“Arrã…”
Não estava. Mas como ela não deu conversa, ele foi embora assim mesmo.
O pessoal conta que ela ficou na sala por alguns instantes e depois levantou e foi embora com a mão dentro da bolsa.
Quando chegou em casa, a juiza sentou-se na cama. Tirou a mão da bolsa. Apertado em seus dedos, um estojo Dior de maquiagem. Olhou para a cômoda e viu a bolsa Louis Vuitton que havia ficado aberta em casa… com a arma dentro!

Por Luís Augusto Menna Barreto


(Um especial agradecimento ao Investigador de Polícia ARAGÃO, muito atuante no arquipélago do Marajó, que em uma ímpar gentileza, enviou-me os relatos que deram origem a esta crônica!)




quarta-feira, 12 de outubro de 2016

crônica - Kadu e a Corridinha do Círio

Kadu e a corridinha do Círio

(De novo, esta história foi escrita para crianças. Inspirei-me em um fato real - que não está descrito literalmente! Vali-me de licenças literárias. Meu pequeno João, novamente, narrou-me o episódio.  Ficou assim:)

Todo ano tem, na escola, a “Corridinha do Círio”. 
Na época do Círio de Nossa Senhora de Nazaré, aqui em Belém, a escola faz uns jogos e, para as turmas dos menores, tem a Corridinha do Círio. Em volta do campo de futebol da escola, os professores fazem uma pista de corrida e a gente tem que sair correndo por um lado do campo, passar por trás das traves do gol e voltar pelo outro lado. Todas as turmas até a 4ª serie concorrem e há um campeão por turma. O segundo e terceiro lugares também ganham medalhas. 
Eu sempre corri. Sempre tive o sonho de ver as pessoas aplaudindo quando eu ganhasse. Ou ao menos chegasse até o terceiro lugar. Todo ano eu tentava, mas nunca conseguia. Eu até que sou bem rápido. Mas acho que canso ligeiro, e daí, nunca chego entre os primeiros. Saio na frente, mas antes da metade, muitos já me deixam pra trás. 
Eu queria muito que me aplaudissem uma vez, mas como nunca consegui, esse ano, que é o último pra nossa turma, decidi que não ia participar. 
Falei para a mamãe que eu não queria e ela disse que entendeu. Eu acho que ela ficou um pouco triste… mas também acho que ela ficaria mais triste de ver que não consigo ganhar e que ninguém iria aplaudir minha chegada lá com os últimos. 
O Kadu também não participa. Acho que é por causa do jeito dele, sempre quieto, com aquele jeitinho de que não está olhando pra ninguém, sempre se mexendo como quem dança uma música que só tem na cabeça dele. A mãe dele já nos explicou que ele não participa de muitas atividades porque é artista e sempre pede pra gente ter paciência com ele, que artista é assim mesmo (mas ela fala errado, ela fala “autista”). Daí, quando o pessoal sai correndo ele fica agitado, querendo sair de perto. Quase se esconde atrás da mãe dele. 
Quando chegou a vez da nossa turma, eu fui lá pra perto do Kadu, um pouco pra trás da linha de largada, porque a gente não ia participar, mas tinha que entrar com a turma. Então, todos os outros foram para a linha de largada e eu e o Kadu ficamos pra trás. Eu confesso que, na hora, bateu uma dúvida se eu queria ou não participar. Acho que correr eu queria… o que não queria era chegar lá atrás quando ninguém mais tava nem prestando atenção. 
Fiquei olhando os coleguinhas todos prontos e com aquela gana de vencer. Eu nem notei, mas alguém disse que o Kadu ficou olhando pra mim, com a cabecinha torta, com aquele jeito de artista dele… como se ele tivesse preocupado comigo. 
De repente, o estouro do tiro de partida! Foi uma gritaria imensa. Eu me imaginei ali no meio, mas não fui. Com o estouro do tiro, o Kadu se assustou e deu um passo pra trás. Daí, eu confesso que não sei direito como aconteceu, mas, de repente, eu já tava correndo segurando a mãozinha do Kadu. Começamos a correr de mãos dadas pela pista de corrida! O pessoal já ia dobrando na primeira curva e a gente não tava nem na metade ainda. Só que aconteceu uma coisa incrível: de repente, todo mundo começou a aplaudir nossa corrida! E eu vi que parecia mais forte do que os aplausos de quando chegava o primeiro colocado. E foi assim durante todo o percurso! Acho que a gente quebrou o recorde ao contrário: de mais tempo para completar a prova! Mas corremos todo o tempo de mãos dadas. Quando íamos cruzar a linha de chegada, o Kadu levantou minha mão e chegamos assim, de mãozinhas levantadas.
Foi a coisa mais linda: todo mundo aplaudiu e o Kadu me abraçou e começou a pular abraçado comigo. E todos os coleguinhas que correram vieram se abraçar com a gente e foi a maior bagunça! E deram medalhas para todos da nossa turma!
Naquela noite, eu dormi abraçado com minha medalha! 
Mas lá na hora, depois que ganhamos a medalha, a mãe do Kadu veio sorrindo, mas quase chorando (eu não entendi direito: se ela parecia feliz, como podia estar chorando?) e me deu um abraço bem apertado e agradeceu por eu ter corrido com ele!
Acho que a mãe do Kadu tem algum problema! Ela chora quando está feliz, fala “autista" no lugar de artista e não vê as coisas direito: foi o Kadu que pegou minha mão e saiu correndo! Não fui eu quem levou ele. Foi ele que me levou!


Por Luís Augusto Menna Barreto


quinta-feira, 15 de setembro de 2016

AS FLORES - parte 10 de 15


Pensamentos de Carolina
Como homem. Ele correu como homem pra ficar ao meu lado. Não olhou mais pra trás. Na última vez, virou-se decidido e correu mais que o vento para alcançar-me.
Está ao meu lado, agora. Não sente mais medo de olhar pra mim. Algumas folhas continuam a passar por nós e indo ao longe. Ao lado do caminho, alguns ramos inclinam-se suavemente para acompanhar o vento.
Ele vê meus cabelos sendo empurrados pelo vento. Ainda há dúvida em seus olhos de menino. Não sabe se deve. Eu deixo meus cabelos ao sabor do vento. Espero por suas atitudes. Quero que se liberte.
Hesitante, ele levanta sua mão. Delicadamente, tira os cabelos de meu rosto. Depois, toca em meu ombro. Eu sinto sua mão. Fico excitada. Olho pra ele. Ele faz seu olhar fugir de mim mais uma vez. Mas não tira a mão do meu ombro.
Eu vejo a dúvida. Torço para que ele consiga libertar-se. Não se virou mais. Eu paro. Ele também. Eu vejo. Não é mais menino. É homem. Vento. Há vento.
Por Luís Augusto Menna Barreto













quarta-feira, 14 de setembro de 2016

poesia de ver - "...valor!"

Poesia de Ver: “… valor!"

Originalmente  publicado no antigo blog
"Menna Comentários", precursor deste.
Data da postagem original: 9.04.2016.
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Ela foi achada jogada no chão… assim: dobrada…

… esquecida…

De repente, olhei para ela e vi que tinha o mesmo valor que as notas guardadas com carinho, protegidas nas carteiras…

… vês…?

Mesmo as vidas dobradas, jogadas e esquecidas, continuam tendo o mesmo valor.



Imagem e texto por Luís Augusto Menna Barreto



crônica - A Dor nas Costas e a Tonha Puxa-Ferro

A Dor nas Costas e a Tonha Puxa-Ferro

Originalmente  publicado no antigo blog
"Menna Comentários", precursor deste.
Data da postagem original: 19.04.2016.
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A impressão que tive, era que todos na sala de audiências ouviram o barulho! Pareceu um “nhééééééé” de porta quando as dobradiças estão velhas…. e foi um “nhéééééé" bem forte.
Ninguém se mexeu… nem eu. 
Mas logo descobri que ninguém tinha se mexido porque não ouviram nada do “nhéééé’”… e eu não havia me mexido, porque o “nhééééééé" foi em mim! Eram minhas costas… e só eu escutava ou, pior: só eu sentia!
Disfarcei como pude, dei graças a Deus que era a última audiência da manhã, e fiquei ali, discreto, tentando mexer só o pescoço e passando a usar o universal vocabulário do “ã-ã…; ãrrã”.
Quando a audiência acabou, pensei quase em desespero: e agora?
Em pequenas cidades na beira do rio, é uma raridade quando há um médico. Tem até fogo de artifício e fila na unidade de saúde, quando chega um.
O problema nestas cidades mais isoladas, pequenas, em que para chegar ou sair é necessário uma viagem de horas e horas de barco, não é verba para pagamento do médico. É conseguir mesmo o médico. Porque o médico rala anos e anos, depois se forma, mais anos e anos para especializar-se, e daí começa a luta para colocar-se no mercado. 
Esses tempos, chegou na cidade, uma médica dermatologista. Chegou pensando que iria tratar de doenças de pele e coisa e tal… pois é: pensa que caboclo tem doença de pele? Pois foi só mordida de cobra, parto, furo de faca, tiro de cartucheira, ferroada de rabo de arraia, coração doente e galhada na testa! A pobre doutora, assim que conseguiu, fugiu no primeiro barco e nem sequer recebeu o pagamento!
Até eu já experimentei meu “dia de médico". Foi no meio da madrugada! Acordei assustado, achando que alguém batia na janela… E batia! Fui meio dormindo ver o que poderia ser tão urgente que não pudesse esperar mais 3 horas até amanhecer o dia:
“Doutor, socorro! O senhor precisa me ajudar…”
Pela cara de apavorado do homem, achei que era daqueles casos em que está havendo alguma briga, ou um casal querendo se matar. Fiz a única pergunta que consegui formular:
“Ãããnnnh…?”
“Tá nascendo, doutor, tá nascendo!!! Acode, doutor!”
Minha segunda pergunta foi:
“Hein?!”
“Minha mulher, doutor, tá parindo!” Ele quase gritava, nervoso! Já havia segurado meu pulso e, quando percebi que realmente eu estava acordando, estava, já, quase na praça, arrastado pelo homem! 
“O Tchê, te acalmas! Eu sou juiz, não sou médico!”
“Eu sei doutor… mas médico não tem na unidade de saúde e o senhor estudou, sabe mais que eu! Vai saber fazer o parto!”
(Agora, nem “ãããhnnn”, nem “hein”! Só meus olhos arregalados!)
Pois deixa eu voltar ao que estava dizendo: minhas costas! Nossa!, como doíam!
… ah, tá: quanto ao caso do caboclo, passamos por um mototáxi e pedi para chamar a “Da Luz”, parteira da cidade. “Da Luz” pariu mais uma, como diziam!
Então… como eu ia dizendo, onde eu conseguiria um médico para minhas costas? Tomei alguns analgésicos, repousei um pouco, e tentei ir levando.
No dia seguinte, eu estava despachando o processo de uma tal Jussemira Antônia, que estava em processo de separação. No processo, ela pedia a casa, a moto, os dois filhos, pensão de um salário para cada um dos dois filhos e para ela. Disse que queria a separação porque só ela trabalhava, e o marido ficava o dia na rede, debaixo do ventilador. Seria uma decisão longa… e minhas costas doíam. Como estava doendo muito, em vez de decidir imediatamente, determinei que o réu (marido) se manifestasse. Depois, chamei o Goela e perguntei se havia algum médico ou enfermeiro na unidade de saúde, porque minhas costas estavam me matando.
“Médico não tem doutor… mas tem a “Tonha Puxa-Ferro”.
“Enfermeira ou massagista?” Perguntei.
“É dessas que faz exercício com a gente doutor”.
“Personal?”
“Acho que é isso aí que o senhor falou!”
Pois o Goela chamou a tal “Tonha Puxa-Ferro”, e dali combinamos para iniciar alguns exercícios. 
Passado quase um mês, fazendo exercícios com a Tonha três dias por semana, senti uma melhora incrível!
Quase esquecia da dor. 
Eu estava me sentindo tão bem que, um mês e pouco depois de iniciar os exercícios, veio novamente o processo de separação da Jussemira e pensei: agora vou decidir direito isso! Examinar com calma e dar uma decisão “bonita”! Eu me debrucei no processo, estudei, e destilei todos os meus anos de faculdade naquela decisão! Coloquei latim e tudo! Foram quase cinco folhas. No fim, determinei que a casa teria de ser dividida, e a metade seria do marido. Teriam de vender se um não pudesse comprar a parte do outro. A moto ficaria com ela, mas pensão não haveria neste momento, porque a própria Jussemira Antônia, se encarregou de dizer que só ela trabalhava. Ora, se só ela trabalhava e ainda sustentava ele, pra quê pensão? Ia até diminuir a despesa dela, com ele saindo! E sorte a dela, ele não ter pedido pensão! Como havia, ainda, a guarda dos filhos para decidir, e algumas outras poucas questões, marquei uma audiência para resolver o restante para dali há 15 dias.
Terminei a decisão, eu chamei o Goela para levar o processo ao cartório. Eu iria para casa trocar de roupa porque tinha minha ginastica com a Tonha Puxa-Ferro. Estava me sentindo um gurizão! O Goela, pra variar, antes de levar o processo, ia direto na última página e, como sempre, fez seu comentário, antes de entregar: 
“Égua, doutor…”
Reticências… quando o Goela fazia assim, tinha previsão de confusão!
“… quero estar perto quando ela souber! Pense numa mulher braba!” E saiu rindo. Com isso, eu sabia que antes de eu trocar de roupa para os exercícios, todos já estariam sabendo.
Dali menos de 1 hora, eu estava na beira do rio, fazendo exercícios. A Tonha estava com a "corda toda”, e foi muito puxado naquele dia! Mas saí renovado!
Assim foi indo… dali em diante, cada vez mais puxados os exercícios!
Uns dois ou três dias depois, algo estava estranho na audiência… demorei pra entender o que era: o “nhéééé" estava voltando e só eu ouvia! De novo!
Ai meu Deus!
Comentei, naquela tarde mesmo, com a Tonha! Ela mudou os exercícios e nada. Os dias foram passando e cada vez doía mais. 
Parece mentira, mas no dia da audiência da Jussemira, eu estava quase sem poder me virar. Voltei ao vocabulário “ã-ã…; ãrrã”… Disse para o Goela chamar as partes para audiência. 
Estranho. 
O Goela chamou pelo nome a mulher e apelido somente o marido:
“Jussemira Antônia e ‘Deitado’, passar para audiência”!
Entrou um caboclo quase em câmera lenta… pense num sujeito sem pressa!
E entrou a Jussemira Antônia:
“Tonha Puxa-Ferro??? Tu que és a Jussemira?”, eu perguntei espantado!
Pois é… descobri porque minhas costas voltaram a doer!


Por Luís Augusto Menna Barreto