— Sim, Magistrado. Como tu explicas esse valor de combustível? Tu estás navegando os rios de motocicleta?
— Não… é que… (tosse)… sabe… (pigarro)… é muita coisa, doutor. Eu não paro.
Estavam os dois na minha frente. Não posso negar que achava divertida a forma como o Magistrado ficava nervoso tentando explicar por que o valor do combustível ficava 5 vezes maior do que o apresentado pelo Distéfano, que cumpria praticamente o mesmo número de mandados!
A propósito: "Magistrado" não era juiz! O juiz era eu! “Magistrado” e “Distéfano" eram os apelidos de dois oficiais de justiça. O Magistrado ganhou esse apelido, porque era muito educado e era formado em direito. Oficial de Justiça da nova geração, conhecedor da Lei, que passou no concurso e, da capital do Estado onde nasceu e foi criado, foi lotado no Marajó. Já o Distéfano era Oficial de Justiça há mais de trinta anos, conhecedor dos atalhos da profissão, além de nascido e criado no Marajó. O apelido, recebeu na juventude. Dizem que por causa de um famoso jogador de futebol argentino, que jogou no Real Madri chamado Di Stéfano. Sempre com uma pastinha embaixo do braço, Distéfano mandou plastificar meia página de jornal de trinta anos atrás, onde há uma reportagem falando que o time local havia empatado com o Paysandu, e o destaque do jogo fora ele. Como o repórter não sabia o nome daquele jogador do interior e a matéria foi feita dois dias depois na capital, o repórter inventou o apelido. O Distéfano jura que é dele que fala a reportagem e pegou o apelido pra ele. Quando conhece alguém, logo puxa a reportagem e mostra a foto apontando para um dos jogadores. De tão amarela e velha a fotografia, não tem como identificar ninguém. Então, pra qualquer um que ele aponte, pode ser ou não, mas duvidar na frente dele, ninguém duvida!
Já o Magistrado tem o dobro do tamanho do Distéfano e a metade da barriga. Dizem que é faixa preta de alguma dessas lutas por aí. Isso eu não sei. Mas por via das dúvidas, nunca procuro confusão com ele, porque não quero confusão com alguém que tenha calo na orelha!
O caso é que sempre que eu conferia o valor do combustível dos dois, havia diferença! E muito grande! Mas não passava pela cabeça de ninguém que o Magistrado estaria superfaturando o valor. Aliás, o que se comentava é que ele colocava combustível pagando do próprio bolso, algumas vezes, para não parecer que gastou demais. Mas não tinha jeito: na hora de acertar as contas, lá vinha o Distéfano com valores menores!
— Doutor, — tentava explicar-se o Magistrado, — será que é pela região dos mandados, doutor? O Distéfano pode estar fazendo muito mandado nas ilhas, de barco, e eu por aqui. Será que não é isso, doutor?
O Distéfano sorria, encolhia os ombros, e dizia:
“Tá bom…”. Saía quase sem som o “m" do final. Ficava assim: “Tá bô…”
Até que um dia decidi: pegamos uma sequencia de uns oitenta mandados para cada um e fiz questão que fossem em regiões semelhantes. Chamei os dois, expliquei a situação e perguntei:
— Darão conta de cumprir isso em 15 dias?
— Apertado, doutor… mas acho que dá. — Falou o Magistrado.
Olhei pro Distéfano e ele apenas encolheu os ombros e deu o meio sorriso:
— Tá bom…
Quatro ou cinco dias depois, enquanto eu via o Magistrado para cima e para baixo, sempre com cara de apressado, encontrei o Distéfano bem sentado em uma mesinha na calçada no bar do restaurante que fica na avenida principal da cidade, cujo nome é... Avenida! Estava ali, tranquilo, sentado, um copinho discreto de cerveja e a pastinha com mandados com a reportagem plastificada.
— E aí, Distéfano? Correria?
— Ta bom… — Por mais que eu tentasse uma conversa diferente, o Distéfano vinha: “Tá bom…”.
— Muito mandado essa semana, Distéfano?
— Tá bom…
— O Remo vence essa?
— Tá bom…
— Será que CHOVE, Distéfano?
— Tá bom…
No fim, minhas perguntas para ele eram todas retóricas porque eu sei que ele viria com o “tá bom…” dele!
E a coisa foi indo assim…
Mais uns dias e tudo continuava do mesmo jeito:
Magistrado de moto para cima e para baixo, apressado… … e o Distéfano era visto sentado, tranqüilo, numa mesinha na calçada do restaurante Avenida, com sua pastinha debaixo do braço, eventualmente com uma cervejinha.
Passaram os quinze dias, peguei os relatórios no sistema e chamei os dois.
Com exceção de um ou outro que não foi intimado porque mudou de ilha, de igarapé, dois ou três embrenhados no mato ou embarcados a trabalho em algum navio, Distéfano e Magistrado cumpriram praticamente todos os mandados.
O Magistrado havia gasto 4 vezes mais combustível que o Distéfano.
Era fato. O Magistrado estava cada vez mais encabulado. E olha que se esforçou, usou atalhos, andou a pé, pegou carona… mas gastou mais que o Distéfano.
Claro que eu fiquei curioso. Perguntei:
— Sim, Distéfano! Como tu fazes isso?
Adivinha…?
Isso mesmo: meio sorriso, encolheu os ombros e soltou:
— Tá bom… — Acho que era de propósito, para me sacanear!
Desisti de entender, mas vi que o Magistrado não estava fazendo nada de errado.
E ficou por isso mesmo.
…
Outro dia, numa das raras oportunidades que conseguia sair do fórum para almoçar, resolvi ir almoçar justamente no restaurante Avenida. Fui lá atrás, na parte onde tem ar condicionado. Quando terminei o almoço fui lá no balcão da frente fazer o pagamento. É o próprio dono quem cuida do caixa. Quando perguntei sobre a conta ele se desculpou e pediu licença um instante:
— Um momentinho, por favor, doutor! — Virou-se para um freguês que estava saindo: — Carretilha! Peraí. Vem cá! — E o freguês virou-se e foi até o balcão.
— Assina aqui, carretilha: o Distéfano deixou aqui, caso tu aparecesse. Tem audiência dia 20 às 10 horas. A Socorro te botou na justiça. Tem que pagar a pensão do moleque, Carretilha”.
O Carretilha assinou, pegou o papel e foi embora.
— Deu R$ 35,00, doutor.
...
Pois é. Descobri, depois, que o Distéfano ficava ali no bar e, quando não estava, deixava um ou outro mandado para o dono do bar pegar as assinaturas. Cidade do interior, todo mundo uma hora ou outra, passa no Avenida.
Mas não falei para o Magistrado. Nesse rumo, acabariam querendo trocar a verba do combustível por grade de cerveja!
…
— Tá bom…!
Por Luís Augusto Menna Barreto
Nota do autor: Originalmente publicado no antigo blog "Menna Comentários", precursor deste. Data da postagem original: 26.04.2016. Comentários na postagem original: 17. Visualizações até ser retirado: 258
