quarta-feira, 5 de julho de 2017

CONTO DE BELLA - Escolhas - parte 2

Conto de Bella
Escolhas - parte 2

Bella hesitava em descer do carro ou não. De alguma estranha maneira, tinha medo de que sua vida se repetisse e ela ficasse presa naquele lugar…
Suas lembranças ainda estavam presas no dia em que descobriu que tudo ali seria muito menor do que ela queria do mundo.
Naquele dia de anos atrás, ela estava na pracinha, sentada no brinquedo de girar que estava parado. Ele surgiu balançando uma folha de papel. Era uma folha de revista, arrancada sem cuidados, que ele trazia com um sorriso:
— Olha, Bela: igual o nosso!
Ele lhe entregou a folha. E naquele dia, ele viu o sorriso mais lindo que jamais esqueceria. E foi ali, com dez anos de idade, que ele, pela primeira vez, sentiu a vontade de passar a vida inteira ao lado de alguém.
Ele viu os olhinhos de Bella brilharem. 
— A gente pode pintar igual esse, o que você acha?
Ela não respondeu. Ficou simplesmente sorrindo. E ele nem insistiu em conversar. Ficaria ali, o dia inteiro, olhando aquele sorriso. 
— Posso ficar com ela? — perguntou-lhe Bella, sem tirar os olhos do papel.
— Ãrrã! — e balançou a cabeça feliz, começando a empurrar o brinquedo, fazendo Bella girar. Ela segurou a folha no alto, que balançava na sua mão pequenina, girando como seus pensamentos, enquanto ele corria em círculos, fazendo o brinquedo girar cada vez mais forte.
Ele ficou deslumbrado e só pensava como conseguir as tintas para pintar o brinquedo igual à imagem da revista que fez Bella sorrir tanto.
Ela ficou deslumbrada imaginando, um dia, usar uma bolsa, óculos e sapatos com aquele símbolo que, para ela, pareceu um "x" redondinho. 
A página da revista mostrava a propaganda do lançamento de um condomínio numa capital. Havia várias fotos, entre elas a de um playground, com o brinquedo igual ao deles, pintado em várias cores alegres… ao lado das imagens, ocupando a metade vertical da página, a foto de casal em que a modelo vestia Chanel…

(continua…)

Por Luís Augusto Menna Barreto



sábado, 1 de julho de 2017

CONTO DE BELLA - Escolhas - parte 1

Conto de Bella
- Escolhas - parte 1

Bela estava parada, ainda dentro do carro… Olhando… sem saber ao certo o que sentia. 
Olhava aquele restaurante que fez parte da infância, da adolescência. O restaurante estava reformado, bem mais bonito do que em suas lembranças. Ela não lembrava há quanto tempo ela não voltava ali… perto de dez anos talvez?
Por que, aliás, voltara ali…? Sabe que teve o ímpeto de levantar cedo, pegar o carro e sair. Beijou os dois filhos, anda dormindo, disse algo que nem lembra ao marido que dormia pesado (não importa o que dissesse ela sabia que a única resposta seria um resmungar de sono), escreveu um bilhete com instruções à babá e à empregada, entrou no carro, viajou quase três horas por estradas que há muito não andava e estava lá… no estacionamento do restaurante.
Era uma manhã fria, mas de um sol que começava a aquecer e fazia tirar os casacos mais grossos. Um ou outro carro já começavam a parar por ali. Reconheceu, até, algumas das pessoas. O restaurante ficava na beira da estrada que cortava a cidade e além de um ou outro viajante que passasse por ali, seriam os mesmos moradores que haveriam de frequentar o restaurante.
A antiga casa de Bella ficava duas ruas atrás, perto da pracinha onde havia aquele brinquedo de rodar que ela adorava (talvez por ser o único, talvez porque ele a empurrasse sempre que ela pedia e ela dizia que era a rainha e ele o escravo). 
Todos os dias, depois da escola, iam até a pracinha. E, nos finais de semana, era lá que se encontravam, logo depois que cada um tomava o café. Ele sempre chegava depois dela e ela o chamava de dorminhoco. 
Tinham dez anos, talvez, quando ela descobriu que sua vida não seria ali. No mesmo dia em que viu que a dele, seria.  E achou cruel que aos dez anos, tivesse sido colocada diante da escolha mais importante de sua vida…

(continua…)
Por Luís Augusto Menna Barreto



domingo, 14 de maio de 2017

O Circo - parte 7 de 7 - um conto de Ana Isabel Rocha Macedo


ANA ISABEL ROCHA MACEDO

ÚLTIMA NOTA: O blog “menna em palavras” orgulhosamente apresentou o CIRCO de Ana Isabel Rocha Macedo, que brindou o blog e seus leitores com um conto inédito que foi publicado em sete partes!  Já estou com saudades da pipoca, maçã do amor, as raspadinhas, o suco… saudades de todos que encontro no CIRCO.
Tal qual como quando criança, eu adorava os dias do CIRCO… porque eram dias de dividir amizades… 
… mas esperem… vocês também ouviram falar…? Parece que tem um TEATRO na cidade… e está fazendo testes para atores… depois do CIRCO, vamos descobrir…??
(Nota do “editor” Luís Augusto Menna Barreto)

VII

Foi então, que em uma tarde, quando quase todos do circo dormiam o sono da sesta, o trapézio me tentou mais forte, e eu fui até ele. Olhei-o, olhei-o... Lembrei-me dos tempos em que eu o dominava... Lembrei-me do amor antigo... de mim quase menina... do meu primeiro adeus... E senti saudades. 
Subi passo a passo, tentando a leveza de outros tempos. Fiquei lá em cima! Olhei para baixo, e o que havia embaixo nada me atraiu. Só o espaço em minha frente me chamava. Passei as mãos pelo sustentador e... O espaço... Minhas mãos apertando o sustentador... O espaço me chamando... Meu corpo se soltando... O espaço... O espaço... O espaço... Eu no ar... Um balanço...Mais outro... Ainda outro... A cambalhota... Agora. Não, não deu. Agoooora!!!!
AAAAAAiiiiiiiiiii!!!!!!!!
E o grito continuou soando em meu ouvido, mesmo quando meu corpo já estava no chão.
E as pessoas, muitas pessoas, muitos gritos:
- Socoooorro!! Ela caiu!
- Que horror!! Sem proteção!
- Depressa! Chamem a ambulância! 
- Depressa! Depressa! Depressa! Depressa! Depressa!!!!!
No meio de tantos rostos, o rosto do palhaço mais novo. Vi quando ele arrancou o chapéu de três bicos. Aí eu vi. Tentei falar. Não pude. Eu vi os olhos. Reconheci os olhos. E eles foram inundados. Ele tirou o nariz de bola, pegou a camisa, que molhada com as próprias lágrimas, esfregava no rosto para tirar a tinta. Era ele! E foi ele que baixou a cabeça e me beijou. 
Depois disso, uma força que veio do mais profundo de mim fez-me dizer:
- Meu..  domador...
E aquilo me bastou. Fechei os olhos.
Morri.

                         Barra Grande – BA
                           Novembro - 2016








sábado, 6 de maio de 2017

poesia de ver - "... milagres!"

Poesia de ver: “… milagres!”



Eu sei que há um pedestal…
… mas meus olhinhos de criança, viam sempre o santinho flutuando.
E aprendi a acreditar em milagres…!

Imagem e texto por Luís Augusto Menna Barreto


(A imagem é de Santo Antônio da Patrulha, Rio Grande do Sul, Bairro da Cidade Alta)

quarta-feira, 3 de maio de 2017

crônica - Eu, o Pilha e a Velha

Eu, o Pilha e a Velha

Agora tudo finalmente parece que faz sentido…
Lembra aquela vez que contei que eu e o Pilha atravessamos a cidade e fomos até um circo? Deu muita confusão naquele dia, porque o Palhaço pegou o Pilha passando moleques por baixo da lona. Daí, ele levou o Pilha e fiquei apavorado, mas, depois, deu tudo tão certo, que o Pilha fez eu voar, e ele se vestiu de palhaço. Foi a vez que eu vi o Pilha mais feliz desde que eu conheço ele.
E eu voei! E quando caí lá do alto, Deus me segurou. Tá, eu sei que foi a rede de proteção do trapézio, mas é que foi tão gostoso, que parecia Deus! E o Pilha resolveu tudo naquele dia. E eu até sabia que ia levar uma surra da mãe, porque não tinha ficado na sinaleira e todo o dinheiro que a gente conseguiu com os moleques e com o isopor de refrigerante, o Pilha pagou o Palhaço. Na hora, o Palhaço reclamou que faltou dez pilas… mas deixou assim. Daí, quando eu cheguei em casa e achei que ia apanhar da mãe por não levar dinheiro, o Pilha tirou dez pilas escondidos na cueca e me falou: “Toma, não vai apanhar no dia que tu voou”. 
Mas não era disso que eu tava falando quando disse que agora tudo faz sentido.
Antes da gente sair do circo, tinha uma senhora terminando de vender churrasquinho. Aqueles que a gente chama de “churrasquinho de gato”. O cheiro tava muito bom e tinha bem poucos espetinhos. E a gente tava na maior fome! 
“Tia, quanto tá o espetinho?” O Pilha que perguntou. Eu fiquei sem entender, porque sabia eu tinha visto ele dar todo o dinheiro pro palhaço. 
“Dois real”.
“Tia, eu cobro dois real por uma piada. Vou fazer um negocio com a senhora: conto duas piadas, a senhora paga só uma, e eu deixo a senhora nem precisa me dar dinheiro. Eu aceito um espetinho”. 
Eu acho que a senhora caiu na conversa do Pilha, porque ela sorriu de um jeito esquisito e entregou um espetinho:
“Toma. Essa tua cara pintada de palhaço já vale o espetinho”. O Pilha ainda tava com a cara pintada. 
Daí ele quebrou o espeto e me deu a metade. Mas logo que a gente saiu do circo, tinha uma velha parada na esquina com a mão estendida, pedindo dinheiro.
O Pilha parou e perguntou se ela queria um pedaço. Eu fiquei meio brabo e coloquei logo dois pedaços do meu na boca, pra garantir. A gente ali, morto de fome, não tinha nem pra gente e o Pilha oferecendo pra velha?!
“É de quê esse churrasco, moleque?”
“De carne!”
“Só gosto de frango. Vaza daqui, moleque.” 
Que velha mais metida! Toda fedorenta e rasgada, e ainda tava querendo escolher? Quando eu tô trabalhando na sinaleira, não fico escolhendo nada. Tudo o que me dão, eu aceito! Agora, olha essa velha, querendo escolher. Não tem onde cair morta e tá de frescura? Eu hein?!
Já ia zoar dela com o Pilha quando ele falou:
“Peraí”. E se mandou correndo de volta pro circo. 
Não faço idéia do quê o Pilha fez, mas não demorou e ele voltou com um outro espeto de frango.
“Esse é de frango!” Ele disse todo faceiro com a cara pintada de palhaço. Fiquei passado. Pra nós ele tinha conseguido só um pra dividir, e agora, iria dar um inteiro pra velha?
“Vaza daqui, moleque, que não quero a comida de vocês. Vocês não tem onde cair morto. Vaza, vaza”
Eu fiquei com raiva da velha, mas passou logo, porque como ela não quis o espeto, o Pilha dividiu comigo. E ele nem comeu toda a parte dele, e ainda me deu um pedaço dele que sobrou. Velha desaforada! Mas rendeu um espetinho a mais.
Depois fomos embora e ele me livrou da surra da mãe dando os dez pilas da cueca. Isso eu já contei, né?
Mas é que depois, o Pilha passou umas duas tardes sem ir no parquinho comigo. Quando a gente ganhava um troco bom, ele saia correndo, dizia “já volto” e só aparecia no outro dia. Eu perguntava onde ele tava indo e ele só dizia “olhar um troço”.
Fiquei com medo dele ter arranjado outro amigo menos burro que eu. Porque eu sei que atrapalho muito ele.
Daí, que teve um dia que eu arrumei coragem não sei de onde e resolvi ir atrás do Pilha. 
Eu fui bem escondido e bem de longe, pra ele não ver. Logo logo, vi que ele tava indo lá pros lados de onde tava o circo. Achei que ele tava querendo ganhar uns trocados sozinho. Mas ele parou antes do circo. Ele ficou parado na esquina, meio escondido, olhando umas lojas daquelas que vendem roupas em balaio, na frente. Eu fiquei bem longe em outra esquina, mas, de repente, o Pilha se virou e gritou pra mim: 
“Vem logo, mané! Ou vai ficar olhando pra minha bunda?”
Não sei como o Pilha é tão sabido! Eu tinha me escondido direitinho e ele não se virou nenhuma vez!
"Preciso duma camisa!”
“Mas tu tem camisa, Pilha!”
“Preciso de uma nova!"
“Tu vai roubar, Pilha?” E eu fiquei mesmo assustado! A gente sempre aprontava, eu sei… mas aquilo era tão diferente…
“Que mané roubar nada! Vou pegar emprestada.”
“Mas tu tem camisa, Pilha”
“Preciso de uma bonita, nova!”
“Mas desde sempre a gente usa roupa velha e gosta!”
“Hoje não é sempre! Tem vez que a gente precisa de roupa nova pra ser gente!”
O Pilha tava sério. E pela primeira vez, eu fiquei com medo da gente estar deixando de ser criança… fiquei com muito medo. Se o Pilha pegasse mesmo a camisa, acho que ele não ia só roubar uma roupa… acho que ia roubar nossa criancice… Mas mesmo assim, eu não podia deixar o Pilha na mão. Ele é meu melhor amigo!
“O que a gente vai fazer, Pilha?”
A gente não vai fazer nada. Eu que vou. Tu fica aqui olhando. Se me pegarem, tu corre e conta pro mano, que ele tenta falar com a mãe dele tem que tem prego de carteira assinada que ela faz alguma coisa.” 
“Mas…”
E o Pilha saiu correndo como uma flecha, passou pelo balaio das camisas, enfiou a mão dentro e pegou uma. Uma vendedora chegou a pegar ele pelo braço, mas acho que ele tava tão rápido, que ele conseguiu soltar, e se mandou.
Meu coração parecia que ia sair pela boca… correram umas cinco vendedoras pra ver a moça que quase pegou o Pilha e dois caras saíram correndo atras dele. Mas logo voltaram sem nada. O Pilha tinha escapado. Eu tava numa mistura de susto e acho que um pouco de tristeza… O Pilha sempre resolvia tudo, nunca a gente precisou roubar. 
Eu não sabia o que fazer, nem pra onde ir. De repente ouvi uma vendedora dizendo: “olha aqui!” e apontou para o balaio de onde o Pilha pegou a camisa. Fiquei curioso. “O moleque pagou”. Eu não entendi direito, mas logo ela pegou o que pareceu umas notas de dinheiro. 
Nossa! fiquei tão feliz. E logo levei um susto que quase fiz xixi! Senti uma mão em meu ombro! Era o Pilha! 
“Por que tu fez isso, Pilha? Se tu tinha o dinheiro pra comprar, pra que tu não comprou que nem gente?”
“Tu acha que eu não tentei, mané? Mas tenta chegar lá perto, mesmo com dinheiro pra tu ver?! Os segurança já vem te correndo dali, nem querem saber se tu tem dinheiro. Acham logo que a gente é ladrão!”
“E pra que tu quer a camisa?”
“Já te falei: pra ser gente! Bora. E para de fazer pergunta. Tu fala muito, mané!”
No outro dia, o Pilha de novo não foi trabalhar na sinaleira. Mas quando chegou mais ou menos na hora que a gente sempre ia pro parquinho, ele apareceu. Tava estranho. Limpinho. Cabelo penteado e com um chinelo de dedos novinho no pé. E tava com a camisa nova. Linda a camisa. Quando cheguei perto tava com cheirinho bom, de coisa nova. Acho que cheiro de roupa nova é o melhor cheiro do mundo! Fico imaginando como deve ser bom fazer que nem rico que compra roupa nova todo ano! Porque rico compra roupa todo ano, né?!
“Vai casar, Pilha?”
“Que mané casar! Bora.”
Tava muito diferente. E tava engraçado, porque o Pilha nem parecia moleque de rua. Pelo menos não parecia até olhar pra unhas dele, que ainda estavam todas sujas.
Eu não sabia onde a gente tava indo, mas era pro lado do circo. Será que o Pilha tinha arrumado emprego no circo? Mas pra quê, se a gente já tinha nosso trabalho na sinaleira? 
Quando a gente dobrou numa rua, vi de longe aquela velha folgada que fica pedindo. O Pilha parou.
“Tu fica aqui, mané, que tu tá muito feio!”.
Não entendi nada! Mas fiquei.
Daí, eu vi de longe o Pilha falando com a velha que, dessa vez, não gritou com ele. Ele falou um pouco e saiu ligeiro. Depois, voltou com um pacote de biscoitos. Recheados! O Pilha comprou biscoitos recheados pra velha fedorenta! Nem a gente come desses porque é muito caro! E eu vi que ele deu um abraço na velha. Que doido. Aquela fedorenta ia tirar todo o cheiro bom da camisa do Pilha! Quase eu grito pra não abraçar ela.
Depois o Pilha veio, com a camisa meio amassada do abraço. E nem sei se tava ainda com o cheirinho bom.
“Endoideceu, Pilha? O que tu foi fazer? Pra que tudo isso com essa velha desaforada?”
“Tu não queria voar, mané?”
“O que isso tem a ver, Pilha?”
“Tu queria voar. Eu queria deixar de ser eu por um dia. Tu voou e eu fui palhaço! A velha queria que alguma gente fizesse algo por ela.”
“Mas a gente falou com ela. Tu até ofereceu churrasco pra ela!”
“Tu não entende nada, mané! Bora!”
Daí eu olhei pro Pilha, todo arrumado, com camisa nova. E olhei pra mim. Acho que eu entendi.


Por Luís Augusto Menna Barreto



quinta-feira, 13 de abril de 2017

diálogos - (fragmento da próxima aventura do Pilha)

Diálogos: (Fragmento da próxima aventura do Pilha)

“Tu vai roubar, Pilha?” E eu fiquei mesmo assustado! A gente sempre aprontava, eu sei… mas aquilo era tão diferente…
“Que mané roubar nada! Vou pegar emprestada.”
“Mas tu tem camisa, Pillha”
“Preciso de uma bonita, nova!”
“Mas desde sempre a gente usa roupa velha e gosta!”
“Hoje não é sempre! Tem vez que a gente precisa de roupa nova pra ser gente!”
O Pilha tava sério. E pela primeira vez, eu fiquei com medo da gente estar deixando de ser criança… fiquei com muito medo. Se o Pilha pegar mesmo a camisa, acho que ele não vai só roubar uma roupa… acho que vai roubar nossa criancice…


Por Luís Augusto Menna Barreto


sábado, 8 de abril de 2017

O Circo - parte 6 de 7 - um conto de Ana Isabel Rocha Macedo


ANA ISABEL ROCHA MACEDO

*Respeitável público!!!! O blog “menna em palavras” orgulhosamente apresenta um circo! Um outro CIRCO! Desta vez, descortina-se o CIRCO de Ana Isabel Rocha Macedo, que brinda o blog e seus leitores com um conto inédito que está sendo publicado em sete partes!  Esta é a quinta! Venham! Comprem seus ingressos, a pipoca, a maçã do amor, as raspadinhas, o suco… venham todos!
Óh… shhhhh…… rufam os tambores… abre-se a cortina… sshhhhh…….
(Nota do “editor” Luís Augusto Menna Barreto)

VI

À noite, junto com o malabarista aprendiz, fiz minha primeira apresentação com as malabares. E não posso negar que foi um sucesso.
Um mês, dois, três... Eu já era quase uma malabarista. 
Certo dia, entretanto, no momento da apresentação, ao fazer um dos movimentos com as malabares, meu olhar se deparou com o trapézio. Aí... pela primeira vez errei em público o movimento e deixei uma das peças rolar pelo chão.
Fiquei triste com o meu primeiro desacerto, assim para todos verem, no jogo do malabar. Mas continuei me apresentando.
Um mês, mais outro, cinco meses, um ano... Aí eu já era uma malabarista de verdade.
Mas havia o trapézio lá em cima que, de quando em quando, puxava o meu olhar.
Durante todo este tempo, o palhaço que me salvara dos leões, mesmo sem me dizer uma única palavra, ensinou-me a pintar a minha máscara. Entretanto, reparei que ele nunca se apresentava sem a pintura no rosto, sem o nariz de bola vermelha e sem o chapéu de três pontas que quase encobria seus olhos.
 Isso me deu a ideia, que para mim foi uma libertação. Passei também a viver sempre pintada. Aí não precisei mais andar pelos cantos escuros, a fim de esconder o monstro que eu me tornara. Agora, eu era uma figura excêntrica, quase mítica. Chamava a atenção por onde passava, mas eu não era mais um horror.







quarta-feira, 5 de abril de 2017

poesia de ver - "...sinta-me!"

Poesia de ver: “… sinta-me!”



Eu a olhei com piedade… 
Mas ela não falou das pétalas que murcharam…
… não falou do caule que lhe quebraram…
… não falou da beleza perdida.
Ela sorriu: “vem… chega mais perto… deixa eu te dar o que tenho de bom: sente meu perfume!”


Imagem e texto por Luís Augusto Menna Barreto



domingo, 2 de abril de 2017

crônica - O De Testa, o Goela e a Maria da Penha

O De Testa, o Goela e a Maria da Penha


“Nem me liga, Afrodite, nem me liga!”
E logo em seguida aquela risada espontânea e contagiante do Goela, quando ele mesmo achava graça do que contava!
Parece que a risada que não durou muito, mas que teve graça, teve!
Eu lembrei disso, porque estava em mais um dia de audiências “Maria da Penha”. Isso mesmo: aqueles casos de violência doméstica. Tá bem, o conceito “violência doméstica” não tá muito certo, porque tem vezes que aparece um caboclo lá, com a cabeça quase rachada de perna de mesa, diz que quer denunciar a pequena “por Maira da Penha”, e sai frustrado. A gente explica que não tem “Maria da Penha” pra homem.
Eu tento até falar que, tendo sido agredido, ele pode denunciar a agressão, fazer um boletim de ocorrência porque de qualquer forma agressão é crime, só não dá pra ser por meio da Lei Maria da Penha, mas isso não adianta. O caboclo sai frustrado, porque queria mesmo era colocar a esposa no “Maria da Penha”!
Aliás, duas observações sobre o que eu falei nos dois parágrafos anteriores: A primeira é sobre a "cabeça rachada com uma perna da mesa”: incrível como as mulheres, na hora da raiva, conseguem arrancar pernas de mesa, e tascar bem no meio da cabeça dos homens. Pra quem não sabe, é muito mais comum do que pensam por aí! A segunda observação é sobre o caboclo sair frustrado da delegacia ou do Poder Judiciário quando descobre que não tem uma Lei “João da Penha”! Eu lembro, por exemplo do caso do “De Testa” (não, eu não sei porque chamam ele assim!) que insistiu por umas três vezes que queria tirar a “Zilda Fala Pouco” de casa. E foi tudo no mesmo mês! 
Tô eu, tranqüilo, no Fórum, num dia normal, despachando sobre um caso de furto de bicicleta, quando o Goela avisa que tem um sujeito que quer falar comigo. Como sempre, disse que entrasse, e dali há pouco entra um caboclo justamente com a testa ensanguentada: 
“Me ajuda, doutor!” E apontava pra testa!
No momento que ele entrou, quase que digo “não sou médico”, mas esperei um pouco!
“Me ajuda, doutor!” E apontava pra testa!
Daí, fui eu que enruguei a testa e levantei os ombros daquele jeito “sim, desembucha!”
“Me ajuda, doutor!” E apontava pra testa!
Pronto, não segurei a vontade: 
“Não sou médico. E pára de caminhar de um lado pro outro, que pelo menos vai ficar mais fácil de limpar o sangue do chão!”
“Mas me ajuda, doutor. Foi a Fala Pouco, doutor. Ela que fez isso comigo! Só porque eu tomei uma cachacinha e cheguei com fome, doutor, ela fez isso!”
Fiquei em silêncio. Esperando…
“É Maria da Penha, doutor! Tem que fazer ela sair de casa e ficar longe de mim cem metros e chamar para audiência”.
“Hein?” (Acho que o De Testa já tinha passado por essa situação ao contrário, porque até que tava sabendo de como funcionam algumas coisas… só que ao contrário: em favor das mulheres!
"Maria da Penha, doutor!”
Daí, expliquei que não poderia ser pelo procedimento da Lei Maria da Penha, e que ele poderia, em todo caso, ir até a delegacia, contar o que houve, registrar a ocorrência e a agressão seria investigada. Entreguei para ele, um folheto explicativo, sobre as situações de violência doméstica.
Não serviu. O De Testa saiu muito decepcionado.
Não deu nem dez dias, e, de novo, o De Testa no Fórum. O Goela abriu a porta sorrindo: 
“Doutor, de novo!” E nem deu tempo de eu perguntar “o quê”, foi fazendo o De Testa entrar. Entrou quase chorando e, no lado do pescoço, uma marca vermelha como se tivesse levado uma paulada com um cabo de vassoura. 
“Agora, doutor! Agora é! Agora é Maria da Penha!”E apontava para o pescoço!”
Lembrei de uma assessora muito espirituosa que eu tive que falava: “Dai-me paciência, Senhor, porque se me der coragem, eu mato esse desgraçado!”
“Doutor, agora é Maria da Penha! Olha: igual no folheto! Ela me bateu com a vassoura, doutor! Agorá é!”
“Mas De Testa, não é isso que tá no folheto! Tu não leste?”
“Mas é igual tá no desenho, doutor!”
O De Testa não sabia ler. E, no folheto, tinha alguns desenhos exemplificativos, em que aparecia uma vassoura com um “X”, tanto quanto vários outros utensílios domésticos, advertindo e alertando para evitar-se situações de violência e orientando os procedimentos em caso de eventos de agressões físicas, psicológicas ou meramente verbais.
Vou eu, explicar o folheto para o De Testa… ai, paciência!
Expliquei, também, que a Lei Maria da Penha protegia, especialmente as mulheres no âmbito da convivência doméstica, etc, etc, etc…!
Mais uns poucos dias, e o Goela abre a porta:
“Doutor, seu freguês!”
“Que fre…” E o De Testa veio entrando, com a camisa toda rasgada!
Entrou, olhou pra mim, sem dizer nada. Ficou parado na porta.
Também não falei nada, olhei, coloquei o rosto meio de lado, encolhi os ombros levantando as palmas das mãos e ele entendeu!
Virou as costas e saiu de novo. Assim. Acho que já estávamos ficando íntimos! Nem precisávamos mais falar e já nos entendíamos!
Depois disso, o De Testa não pareceu mais.
Dali um tempo, chegou um auto de flagrante delito de Maria da Penha e eu me lembrei que o De Testa nem havia mais aparecido. 
“Chegou o preso, doutor”, disse o Goela.
Fui para a sala de audiências para realizar a audiência de custódia, peguei o processo pra olhar enquanto encaminhavam o preso: “Orisvaldo Pinto Rocha, vulgo De Testa”.
E o De Testa entra, algemado, e sorrindo! Parecia bem à vontade, foi logo sentando e falou comigo, todo faceiro:
“Agora acertei, né doutor?”
“Hein?”
Pois é! Lembrei dessa história, por causa do Goela, que apareceu, outro dia, com o olho roxo. Quando fui comentar do olho, ele veio logo dizendo: “Maria da Penha, doutor”.
“Até tu, Goela, mas tu sabes que Maria da Penha não tem pros barbados! É só se as mulheres são agredidas!
“Ah, doutor, mas o senhor não sabe como eu deixei a mão da Afrodite com a ‘olhada' que eu dei na mão dela. Fiquei até com pena! Acertei meu olho em cheio nos ossinhos da mão dela, doutor, que não sei se não quebraram!”
Estão perguntando por quê? Tudo bem, eu conto: acho que todos já ouviram uma música chamada “Domingo de Manhã”, que tem uns versos assim:
“Poderia estar agora num hotel mil estrelas em Dubai, mas eu prefiro estar aqui, te perturbando domingo de manhã”!
Pois o Goela estava com a Afrodite e uns amigos na lancheria do hidroviário, quando tocou essa música e ele falou pra Afrodite:
“Se eu tivesse num hotel em Dubai, ia preferir estar aqui te perturbando? Nem me liga, Afrodite, nem me liga!”
Pimba! Maria da Penha. O Goela acertou o olho bem na mão da Afrodite!

Por Luís Augusto Menna Barreto


quarta-feira, 22 de março de 2017

diálogos - "...presença!"

Diálogo: “…presença!"

“Às vezes, teu silêncio machuca tanto…”
“… mas outras vezes, gosto de sentar aqui e contar-te tudo!”
“Acho que nunca contei tantos segredos quanto conto pra ti…”
“…acho que perto de ti, sinto-me completa.”
“Mas tem vezes, que mesmo que eu fale tudo, sinto falta do teu abraço.”
Ela se levantou, passou os dedos delicadamente sobre os olhos dele… … olhos que continuavam abertos, na fotografia que já começava a amarelar, colada à lápide…


Por Luís Augusto Menna Barreto


domingo, 19 de março de 2017

O CIRCO - parte 5 de 7 - um conto de Ana Isabel Rocha Macedo


ANA ISABEL ROCHA MACEDO

*Respeitável público!!!! O blog “menna em palavras” orgulhosamente apresenta um circo! Um outro CIRCO! Desta vez, descortina-se o CIRCO de Ana Isabel Rocha Macedo, que brinda o blog e seus leitores com um conto inédito que está sendo publicado em sete partes!  Esta é a quinta! Venham! Comprem seus ingressos, a pipoca, a maçã do amor, as raspadinhas, o suco… venham todos!
Óh… shhhhh…… rufam os tambores… abre-se a cortina… sshhhhh…….
(Nota do “editor” Luís Augusto Menna Barreto)

V

Continuei no trailer, porque foi-me oferecida uma cama. Lá moravam também mais dois malabaristas. Um deles era apenas aprendiz, mas já sabia muito do malabar.
Foi aí que comecei a ajudar na apresentação do grupo. Limpava as malabares, guardava-as com todo cuidado, e, depois de certo tempo, comecei a levá-las até o picadeiro. Mas, para isso, jogava um manto sobre minha cabeça que caía sobre meus braços, cobrindo assim as marcas que me transformavam na figura humana mais horrenda que eu vira até então.
Nesse convívio, peguei amizade com o aprendiz e ele me ensinou mais movimentos do malabarismo. E de pouco em pouco, fui me lembrando de alguns movimentos e aprendendo mais, de fato, a arte do malabar.
Um dia, estava eu a treinar atrás do trailer, quando, assim que parei para descansar de uma série mais difícil do jogo, percebi que o malabarista maior estava a me observar. Fiquei um tanto sem graça, mas arranjei, como desculpa, dizer-lhe que eu estava apenas a brincar. E qual não foi o meu espanto quando ele, com semblante fechado e voz de seriedade, me disse:
- Amanhã, tu entras no picadeiro e, junto com o aprendiz, apresentarás um número – afirmou aquilo, deu-me as costas e saiu.
Eu não tive o que falar... Mas no dia seguinte, no meio da tarde, ele chegou no trailer acompanhado da moça que fazia a maquiagem dos artistas e também acompanhado do palhaço mais novo do circo. 
Estranhei o fato de, já naquela hora, o palhaço estar todo pintado. Percebi logo que ele, além de não estar disposto à conversa, pois apenas resmungara umas duas ou três palavras desde que ali entrara, também agia como se eu ali não estivesse. Não me olhava de forma alguma. Imaginei que o horror da minha aparência o afastasse de mim.
Minha surpresa foi grande, quando, depois de certo tempo em que o malabarista explicava ao palhaço e à moça maquiadora sobre a pintura de uma máscara em um modelo, os três voltaram-se e olharam-me. Só aí compreendi que o modelo era eu, e a máscara era para mim. 
Assim foi que a maquiadora pintou os meus braços e o meu colo, aproveitando os queloides e construindo desenhos.
Quando o palhaço começou o seu trabalho, vi logo que a sua tarefa era a de cuidar do meu rosto. Ele teria de transformar o horror da minha face em uma máscara que poderia ser olhada sem causar repulsa. E isso ele fez.

Durante o tempo em que o palhaço em meu rosto tocava, eu de olhos fechados, refletia sobre o fato de aquelas mãos terem, um dia, me arrancado das garras das feras, e, agora, essas mesmas mãos estarem ali para amenizar o que aquelas feras me causaram.  E aí eu concluía quão estranha é a vida e quão estranhos são os caminhos, nela, a serem percorridos.